ARTIGO – O DEBATE PRESIDENCIAL – 2º TURNO

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O DEBATE PRESIDENCIAL – 2° TURNO

Ivon Carrico*

Era agosto de 1982! E eu estava nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, em uma visita de inspeção à Perimetral Norte, acompanhando o então Comandante do Batalhão de Engenharia do Exército, órgão responsável pela construção daquela estrada.

É um imenso vazio demográfico situado nas proximidades da fronteira com a Venezuela. Território, sobretudo, da Nação Yanomami. Mas, com outras etnias, também.

Numa das tantas paradas para verificação das obras eis que, subitamente, nos deparamos com um indígena da etnia Tucana. Ele era aculturado, falava Português com acentuado sotaque e, pasmem, falava Inglês!!

Ao se dirigir a mim mostrou um instrumento de caça: a zarabatana. Utilizada para abater pássaros e pequenos animais. Ao soprar nesse tubo longo de madeira eles imprimem acentuada velocidade em uma espécie de dardo cuja ponta é umedecida com um agente neurotóxico, extraído da raiz do timbó que, por sua vez, é uma vegetação rasteira presente nas proximidades dos cursos d’água.

Eu não acreditei que ele fosse capaz de atingir, por exemplo, um pássaro em voo. Mas, para surpresa minha, o fez.

Realmente, subestimei a capacidade daquele indígena. Esquecendo, inclusive, da capacidade deles em sobreviver em um meio tão inóspito.

Conectando isso com o nosso cotidiano tenho que é muito comum subestimarmos o outro. Como aconteceu no 1° Debate Presidencial do 2°Turno.

O Bolsonaro chegou ungido como alguém desprovido da mínima capacidade de pensar, de elaborar e/ou responder a qualquer questionamento. Enquanto o Lula chegou embalado pelo clima do ‘já ganhou’.

Mas, de repente, fomos surpreendidos! Tal como o pássaro acima descrito, o Lula foi alçado em pleno voo (da vitória).

As palavras do Bolsonaro foram como o dardo da zarabatana. Parece que continham algumas gotas do timbó. Feriram com acentuada gravidade o ex-Presidente. O Lula paralisou. Emudeceu. Principalmente quando o assunto era a Petrobrás.

Por sua vez, errou feio a campanha do Lula ao não identificar os tantos ‘telhados de vidro’ do atual Governo. Principalmente a sucessão de desmandos no MEC.

Mas, principalmente, erraram os 02 Candidatos ao não apresentarem nenhum Plano de Governo. Assim, pelo andar da carruagem, teremos tempos muito difíceis, independente do vencedor.

*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. Brasília: 17/10/2022