ARTIGO – O CORAJOSO NÃO É O QUE NÃO SENTE MEDO, MAS O QUE CONSEGUE SUBJUGÁ-LO – Nelson Mandela

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O CORAJOSO NÃO É O QUE NÃO SENTE MEDO, MAS O QUE CONSEGUE SUBJUGÁ-LO – Nelson Mandela

DR. ROGÉRIO TÔRRES MARQUES: – Fale desses medos. São medos do hospital ou de uma possível intubação?

Se a essência da felicidade é não ter medo, se o medo é um preconceito dos nervos que uma simples reflexão desfaz, na expressão de Machado de Assis, por que esse sentimento ganhou tamanha importância logo depois de um veredicto de Covid19? A resposta já estava dada na segunda parte da pergunta: a intubação numa UTI. Esse era o verdadeiro terror que me paralisava horas antes das duas hospitalizações. – Clayton: Sem medo! A tua energia no rádio não combina com esse sentimento de medo, dizia-me Rogério Torres Marques, lembrando que esse sentimento é uma das principais fontes de crueldade na vida das pessoas. Ele, o medo, pede reação à altura, e assim agirás a partir deste momento. Aproveito para dizer-te que irás agora mesmo para o hospital da UNIMED e que, sem nenhuma demonstração de contrariedade, muito apreciaríamos que o teu silêncio falasse por ti.

Em sintonia plena com Rogério Torres Marques, esse sinal de chão firme e de confiança absoluta em tempos de areias movediças, curvei-me aos procedimentos médicos: testes, exames variados, o amargo convívio com as agulhas e os remédios pesados, ambulâncias, dois hospitais, além daquela área de isolamento Covid-19, esta última enfrentada com uma sonolência até mesmo desejada, além de necessária e restauradora.

Depois da teimosia pessoal que optara por permanecer em casa, e depois das transferências para os hospitais da UNIMED e da Sociedade Portuguesa de Beneficência, era preciso rever posições e seguir bons conselhos. Se o ponto de partida de qualquer conquista é o desejo, na expressão forte do Dr. Rogério Torres Marques, essa amizade elevada e sólida desde os anos setenta, temos que vencer esse estágio da doença com firmeza de propósitos e ausência de retrocessos.

Se as terras férteis tornam-se más quando não são cultivadas; e se os espíritos rotineiros povoam-se de opiniões que os escravizam, vamos tratar de executar tarefas necessárias a partir de agora, e que serão cumpridas rigorosamente de acordo com os ditames médicos, até mesmo porque aqui a conversa é outra, voltada para a completa recuperação da saúde mental e física. Se o homem fraco teme a morte; se o desgraçado chama-a; se o valente procura-a; só o sensato a espera, impondo-lhe ainda as suas condições: desde que seja no longo prazo!

Ao leitor que esteja vivendo uma experiência parecida, um conselho necessário: respeita o teu médico e acata as suas ordens. E acima de tudo respeita a ti mesmo. O homem é mortal por seus medos e imortal por sua vontade. E a vida – especialmente no interior de uma Ala Covid de isolamento – dá lições que só se dão uma vez.

E lembremo-nos de Deus, Ele que se faz necessário em todas as etapas da vida, Ele que não é um Ser indiferente ou longínquo, pois não estamos abandonados a nós mesmos. Fortalece-se nesta Ala Covid São Pedro da Beneficência Portuguesa a convicção segundo a qual para se ter vida longa é preciso viver devagar.  Vá até onde puder ver; e quando lá chegar poderá ver ainda mais longe! E quem sabe, no meu caso, por conta da minha própria profissão, ver e falar! E fazendo-o movido pelos entusiasmos necessários capazes de ajudar-nos a atingir os 50 anos de debates diários nesta nossa muito amada Cidade de Pelotas.

Ao finalizar, além de paciente de sempre e de amigo de longa data, necessário expressar aqui uma palavra marcante que identifica a ação profissional do doutor Rogério Torres Marques: ele é cuidadoso na arte do detalhe, dos pormenores, das minúcias, do querer saber tudo; e do dizer apenas o necessário. A propósito, vale lembrar aqui que a sorte não existe, pois aquilo que as pessoas chamam de sorte é o cuidado com os pormenores. (CR).