ARTIGO – MUITO MAIS QUE UM DESFILE DA BRUXA

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Paulo Brasil do Amaral e Henrique Pires. Foto: Arquivo pessoal.

MUITO MAIS QUE UM DESFILE DA BRUXA

Henrique Medeiros Pires*

Daquele inesquecível Carnaval na Praça 20 de Setembro transmitido pra todo o RS pela TVCOM , guardo cenas memoráveis. Uma delas, a melhor performance de uma Comissão de Frente que assisti desfilar em Pelotas, ensaiada durante meses pelo coreógrafo Juan Carlos Pedrozo, que transformou aquele grupo de dez pessoas numa pequena tribo que apresentava a Unidos do Fragata com evoluções perfeitas, dignas das melhores escolas de ballet contemporâneo.

Outra cena inesquecível: eu estava comentando pelo rádio o desfile burlesco da Bruxa da Várzea. À procura de detalhes pra relatar, vejo o Paulo Brasil do Amaral de terno e gravata, apoiado em sua bengala ,caminhando em meio aos foliões, escoltado por dois seguranças da passarela do samba. Cena de filme! Pois ele vinha em minha direção e em seguida me disse: eu estava ouvindo a transmissão e calculei que ias trabalhar até a passagem da bruxa. Me vesti e vim te convidar para jantar. Passava das três da manhã! Terminada a jornada, embarcamos num táxi e ele ordenou: toca pro Rainbow. E sublinhou: só em Pelotas e no Rio de Janeiro há bons restaurantes abertos na madrugada!

Na quadra do Pelotas, quase na rua Dr. Amarante, o Reinbow estava cheio, casais dançado velhas e novas músicas de Carnaval, num pequeno grande baile. Na chegada o Dico, garçon da velha guarda nos saúda e o Paulo informa: queremos jantar. Dr. Paulo, diz o Dico, “um franguinho?” Mas é bem capaz! Queremos filé com fritas, devolveu o Paulo. Eram 4 da manhã e o filé veio rápido, perfeito, mais arroz e ovos fritos. O Dico serve os pratos e pergunta: “Refrigerante ou Cerveja?” Mas é bem capaz, repete o Paulo. “Uma garrafa de vinho tinto”, ordena sem titubear.

A essa altura já nos olhavam, um repasto de respeito e aquele senhor avançado na idade, de terno e gravata jantando e tomando vinho, como nas velhas tavernas dos filmes de capa e espada, contando histórias e dando risadas. Lá pelas 5 da manhã o Paulo pediu a conta e não permitiu que eu pagasse nada. Me disse que tinha tido uma tarde iluminada num bingo, tinha dado pra botar as contas em dia e que sobrou um dinheiro para ele gastar “como se deve” num carnaval.

Assim era o Paulo. Qualquer conversa com ele virava uma festa,tantas vivências e histórias inusitadas ele relatava. E a idade era apenas um detalhe: vivia, circulava, jantava na madrugada, como um guri. No outro dia nós encontramos no Café Aquário. E ele no meio de amigos, contando a todos que depois de muitos anos tinha voltado a desfilar na Bruxa…

*Jornalista e colaborador do Treze Horas