ARTIGO – EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

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EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

 Clayton Rocha

Dom Antonio Záttera não tinha nenhum constrangimento em sentar-se  nas escadarias do MEC em ato de espera. Ele não sairia dali enquanto o Ministro não o recebesse. Queria verbas porque iria  construir uma Universidade. Na hora da crise feia, Delfim Mendes Silveira não hesitava, e pedia audiência ao Presidente de República. Certa feita, deixando a timidez  de lado, pediu três milhões a Emílio Garrastazú Médici e acabou levando nove. Resultado disso ? Instalou a UFPEL  em  agosto de 1969.  Naquele tempo era assim. Líder era feito prá isso, e os líderes  que achassem saídas para qualquer dificuldade, até porque havia cobrança forte e pressão popular.

Na Pelotas das décadas de sessenta e setenta não se tinha liderança sem que houvesse um mínimo que fosse de mérito. UCPEL e UFPEL desenvolviam  projetos conjuntos e pensavam, com ousadia, para além da geografia doméstica. Aquela Pelotas acadêmica contava, entre tantos outros,  com Franklin Olivé Leite, Eurico Kraemer de Oliveira,  Naum Keisermann e Isidoro Halpern, quatro  nomes que são referências de uma época, quatro idealistas, quatro tocadores de obras, além de Diretores exemplares que mereciam a denominação de “anjos da guarda”  das duas Medicinas, da Odontologia  e das Engenharias de Pelotas.

No cenário internacional daqueles tempos, Mozart Víctor Russomano, o nosso conterrâneo mais ilustre, presidia a Organização Internacional do Trabalho, na Suiça. Gilda, sua mulher, dirigia a Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, em Washington. No contexto brasileiro, em nome daqueles que alcançaram notoriedade nacional, e que sempre estiveram a serviço de Pelotas, que se fale de Luis Simões Lopes, o pai da Escola Técnica Federal de Pelotas, fundador e Presidente da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.  E que se recorde ainda, entre as personalidades femininas, a presença da professora Rosah Russomano na Comissão dos Notáveis, voltada para estudos constitucionais, sob a presidência de Afonso Arinos de Mello Franco.

Tínhamos políticos expressivos, muitos Deputados em Porto Alegre e Brasília, João Carlos Gastal de Presidente da Assembléia; Arthur Bachini pura abnegação, fibra e coração; Adolfo Antonio Fetter comandando a Agricultura gaúcha; Bernardo de Souza começando a marcar época em brilhante carreira política; Getúlio Dias valorizando Pelotas na tribuna da Câmara Federal;  Edmar Fetter de primeiro Vice-Governador do Rio Grande do Sul; a combatividade de Lélio Souza no Parlamento;  e o talento de Irajá  Andara Rodrigues presidindo a Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados;  Ary Alcântara, o grande incentivador das Universidades de Pelotas, na mesa diretiva da Câmara durante várias legislaturas; e Carlos Alberto Chiarelli Secretário do Trabalho do RS, Deputado Federal,  Senador da República, Ministro da Educação e Ministro da Integração para o Mercosul.

Nesta busca de traços marcantes de nosso próprio passado, estamos precisando dizer uns aos outros que, se somos aquilo que pensamos, também somos aquilo que lembramos ! Porque além dos afetos que alimentamos, a nossa riqueza são os pensamentos que elaboramos, as ações que cumprimos, as lembranças que conservamos e não deixamos apagar e das quais somos o único guardião. Norberto Bobbio pede, em sua obra “ O Tempo da Memória”, que nos seja permitido viver enquanto as lembranças não nos abandonarem e enquanto, de nossa parte, pudermos nos entregar a elas. É por isso, talvez, que estejamos a proclamar nesta página quanto à necessidade  de acreditarmos primeiramente  em nós próprios, a fim de que nos sintamos, posteriormente, devidamente  autorizados  a sair em busca de todo o tempo perdido.

Saiba o leitor que depende de nós, e de mais ninguém, o futuro de Pelotas. E que nós somos  os timoneiros habilitados a iniciar esta grande viagem em direção ao novo milênio, numa  ação conjunta que tanto requer em criatividade e unidade. É isto que Pelotas  nos pede. E é o que faremos. Inspirados, certamente, por esses notáveis vultos do passado, os que a construíram, e que ainda vivem em cada obra, em cada rua, em cada praça que ergueram com a energia de seu idealismo. Talvez seja em nome de todos eles, os pioneiros da causa pelotense, que estejamos a conclamar uma população inteira a valorizar a memória da cidade para que, em seu nome, possamos sair  em busca dos referenciais de um tempo de glórias.

E que não se interrompa nunca mais, entre nós, essa necessária busca da nossa memória. Ela é rica demais para que a esqueçamos. Ela é o exemplo do qual necessitamos para darmos sentido às próximas ações coletivas em favor de Pelotas. Antoninha Berchom Sampaio, a grande dama de nossa cidade,  guardiã de nosso passado, mulher síntese desse esforço de preservação da nossa memória, nos tem aconselhado a prosseguir nessa busca histórica. Ela própria, do alto de sua devoção a  Pelotas, nos pede agora: Nada de parar. Devemos continuar a escavar !  Pois cada vulto, cada gesto, palavra ou canção, que parecia perdido para sempre, uma vez reencontrado nos ajuda a sobreviver.