ARTIGO – VISITANDO “BEIJING”

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VISITANDO “BEIJING”

Paulo Gastal Neto*

A capital da China é a moda entre os turistas internacionais. Será o destino mais procurado nessa primeira metade do novo século. Fui a China em 1998.

Chegar a “Beijing” é mergulhar nos mistérios de um país herdeiro de uma civilização com mais de 4 mil anos de registros históricos contínuos e que se denominava o “Império do Meio”, com dimensões  continentais e com uma cultura milenar além de ser o mais populoso do Planeta. Quando o Boeing 747 da Air China deslizou sobre a pista do Aeroporto Internacional da capital chinesa, após um vôo de quase quatro horas procedente de Hong Kong, não consegui esconder a sensação de euforia e apreensão aos meus amigos e companheiros de viagem Roberto Engel e Clayton Rocha.  Euforia porque nunca imaginei que algum dia tivesse a oportunidade de atravessar literalmente o mundo e apreensão por ter percebido, já em Hong Kong, que aquele “mundo” é completamente diferente do nosso. “Beijing” ou Pequim, como ainda insistem alguns,  é uma grande cidade, já conta com algumas das marcas que evidenciam um pouco o seu pequeno processo de ocidentalização.

Largas, larguíssimas avenidas com os logotipos do capitalismo e envolta numa bruma provocada pelas areias trazidas pelo vento originário  do deserto da Mongólia, ao norte, Beijing é uma cidade de intensa movimentação.  Com  mais de 12 milhões de habitantes Beijing nos proporciona numa espécie de isolamento cultural a começar pela barreira intransponível do idioma, o mandarim. Os cartões referentes aos ponto turísticos que desejamos visitar são distribuídos fartamente nos hotéis são, geralmente as únicas referências para chegarmos aos nossos destinos. O “Beijing International Hotel”, um cinco estrelas estatal e com um custo bem aquém dos similares da mesma categoria  é um hotel imponente. Ainda no táxi o silêncio do motorista só é quebrado pelas expressões chinesas incorretas e prontamente corrigidas pelo nosso primeiro contato em solo chinês. Leituras, nem pensar.

No roteiro começamos pela “Tianamen”, a Praça da Paz Celestial, palco das manifestações pela democracia na década de 80 que descortina-se imponente e circundada pelos edifícios monumentais do Palácio do Povo, do Comitê Central do Partido Comunista Chinês e do Portal da Cidade Proibida.

Fascinante e problemática, instigante e misteriosa, Beijing oferece ao visitante sensações ímpares dificilmente descritíveis aos ocidentais.   Ao visitante menos avisado não se preocupe, como relatei logo acima, em Beijing existem excelentes hotéis de cadeias internacionais que competem com os similares estatais, e que possuem uma tabela apresentando quase a metade do preço cobrado pelo Hilton, Sheraton, Holiday Hinn entre outros.

Restaurantes exóticos com as suas vitrines expondo cobras ou outro tipo de réptil, como sendo pratos de grande requinte são comuns no centro da capital chinesa.  Nas ruas encontra-se ambulantes vendendo “batata doce quente” e “espetos de passarinho”, uma fina iguaria que  remonta-nos aos anos da fome que o povo chinês enfrentou e acabou transformando-os, hoje, em deliciosos petiscos, segundo os próprios.    Continuando nosso passeio, em um mausoléu ao lado de “Tianamen”, Mao-Tse-Tung, o principal líder revolucionário chinês, repousa em seu esquife de cristal, sereno e a disposição dos peregrinos que atravessam o País para reverencia-lo. É simplesmente impressionante.

No  subsolo do mausoléu funcionam as “Casas do Povo”, imensas lojas de departamentos, estatais, com preços extremamente convidativos. Lá estão verdadeiros impérios do consumo, atualmente a  “febre” chinesa.    Num roteiro que requer um dia inteiro e um bom guia que fale inglês ou espanhol  (raros)  porque o português nem pensar, deslocamo-nos para o norte  da capital, cerca de 100 km, onde estão as “Tumbas da Dinastia Ming”. Ficam no caminho da “Grande Muralha” e revelam-nos a face aduladora  e o culto dos chineses aos deuses e ao sobrenatural. O respeito e o silêncio lá são profundos.

Ainda no mesmo dia e por fim a “Muralha” com sua imponência mostrando-nos o quanto os chineses são obstinados na defesa de seu território e de sua independência. É realmente um monumento fascinante. Prepare-se porque é também um passeio cansativo, requer muito preparo físico!  Com mais de 9 milhões de quilômetros quadrados e uma população que já superou os 1,2 bilhão de habitantes a China prepara-se para ser a maior economia do Planeta ainda na nesta primeira metade do novo século e desperta no visitante as mais instigantes questões, revelando-nos os mais profundos mistérios.

Na despedida, já a bordo do 747 americano da United Airlines, retomando os hábitos ocidentais, pudemos perceber o quanto aqueles  dias nos revelou como o mundo chinês é diferente do nosso, não só pelo aspecto físico mas também pela separação cultural.  Após 4 horas de vôo chegamos ao Japão, Tóquio mais precisamente, que imediatamente pareceu-nos um território mais familiar e nos fazendo refletir como a China é muito distante de nós!

* Paulo Gastal Neto é radialista da Rádio da Universidade Católica de Pelotas e visitou a República Popular da China em abril de 1998.