ARTIGO – CONVERSA ENTRE PROFESSORES HÁ 19 ANOS

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Conversa entre Professores há 19 anos

Neiff Satte Alam*

Professor Ambrósio Andrade, Gato Pelado de primeira linha, em um trabalho acadêmico no ano de 2004, pediu-me para responder um questionário. Perguntas aparentemente simples, mas que exigiram um cuidado enorme para responder. Hoje transcrevo, após 19 anos, as respostas, pois tanto as perguntas como as respostas parecem mais atuais do que aquele momento em que iniciava o séc. XXI.

“Porque você escolheu ser professor?”

“…Ao mesmo tempo que ergue uma vertiginosa Torre de Babel dos conhecimentos, o nosso século realiza um mergulho ainda mais vertiginoso na crise dos fundamentos do conhecimento”. Edgar Morin.

Educadores da Pré-escola, da Educação Básica, das Universidades, formadores abnegados, na maioria das vezes anônimos, das mentes que, construídas, construirão a realidade renovada de cada momento de suas e de nossas existências. Lutam com uma realidade social que é mais o retrato do comportamento do Estado e de suas Políticas Públicas em Educação do que propriamente da ação direta dos educadores. Estes, os educadores, têm feito o seu trabalho. Com um desprendimento que supera desde as dificuldades pessoais até as dificuldades impostas por um sistema que teima em centrar sua ação no econômico, no mercado que, mais virtual do que nunca, desumanizou o conhecimento e tirou das mãos do Poder Público o direito de cumprir com sua missão – fazer Política. O Professor/Educador trama as redes do conhecimento, conecta as malhas desta rede, impõe-se sobre a adversidade e, principalmente, não desanima.

Não pedimos aos governantes, representantes efêmeros e mutáveis com uma simples digitação, que recuperem em um curto lapso de tempo o estrago feito pos décadas de descaso com a Educação, mas pedimos que cumpram com as mínimas obrigações, atributos de seus cargos, que dizem respeito ao respeito pelo Educador e pela Educação.
Mas não basta um esforço cerebral “hercúleo” do Educador; não basta um desprendimento descontextualizado; não basta um aprendizado pessoal ultra especializado se não existir um espírito pronto a dar acabamento a este esforço, moldando-se ao cérebro e impondo a este o domínio da mente, pois que “a cultura está no espírito que está na cultura e a cultura faz parte do cérebro tanto quanto o cérebro faz parte da cultura”.

Está aí a nossa tarefa, missão complexa e difícil, sermos depositários e ao mesmo tempo construtores do complexo cultural.

Atualmente, em nossas salas de aula, em nossos ambientes de convívio social e familiar, devemos aprofundar o conhecimento de nossos conhecimentos de realidade com nossos alunos, amigos, familiares. Devemos refletir sobre nossa responsabilidade sobre o presente e sobre o futuro e, principalmente como tratamos esta realidade no passado, na construção da cultura em/de nossa sociedade.
A mensagem de um “pensador que pensa”, Edgar Morin, talvez seja mais ilustrativa e dê ao momento a profundidade e o valor que se impõem: “…o conhecimento humano nunca dependeu exclusivamente do cérebro; o espírito forma-se e emerge cérebro-culturalmente na e através da linguagem, que é necessariamente social e, via espírito (aprendizagem, educação), a cultura de uma sociedade imprime-se literalmente no cérebro, ou seja, inscreve nele os seus caminhos, estradas, encruzilhadas.”

A segunda pergunta foi mais pessoal, mas igualmente importante:

Dos professores que você teve, qual o que mais gostou e qual o que menos gostou?
Talvez o tempo seja o mais importante fator para determinarmos as empatias por nossos professores. Alguns se revelaram adiante de seu tempo, diferenciaram-se dos demais pela forma de ação através de uma pedagogia mais relacional, pois, na minha época de estudante, os professores tinham uma preponderante pedagogia diretiva, conservadora e mecanicista (entenda-se determinista). Entre os professores mais avançados, que na época não tive alcance suficiente para entende-lo, está o Professor Luiz Carlos Corrêa da Silva, professor de Matemática, polêmico, irreverente, mas interativo na sua ação pedagógica.

Lembro-me de uma passagem interessante em nossas conversas (que lamento não ter sabido aproveitar melhor), foi quando os netos do professor estavam indo para a escola e este utilizou a seguinte expressão: “ – Que pena, vão desaprender e serão engessados.” Tinha total razão!

Por outro lado, tive professores (que não foram poucos), cujos nomes não citarei, que foram excessivamente burocráticos, lineares e não deixaram espaço para que a criatividade prosperasse impedindo, de certa forma, o natural avanço para áreas correlatas e contextualizações que nos permitissem aprender verdadeiramente, por assimilação, e não por condicionamentos retrógrados.

Que atitudes você valoriza (mais ou menos) nos nossos professores?

O professor, hoje necessita impor-se sobre o seu próprio tempo, um tempo de modelos pedagógicos ainda baseados no determinismo, mas que necessita permitir uma germinação de um modelo mais interativo, relacional. Para tanto, há necessidade de busca de um conhecimento profundo sobre os saberes filosóficos básicos que poderão auxiliá-lo na necessária ruptura ( do paradigma dominante para o paradigma emergente) de encaminhamento para os novos modelos. Talvez a palavra mais adequada para identificar este professor seja: ousadia.

Por outro lado, não entendemos como adequada a postura de complacência com o estado de coisas em que se encontra a educação nos dias de hoje.

Qual o fato mais significativo (ou menos) de tua vida acadêmica?

No início da década de 70, no Colégio Pelotense onde lecionava Biologia, após uma “revolta” dos alunos de um 3º. Científico (hoje 3ª. Série do Ensino Médio), para acalmar a fúria disciplinar da Direção da Escola, desenvolvi um projeto de construção de filmes Súper 8, que iniciaram com conteúdos de Biologia e terminaram com uma variedade de temas que fugiram a minha própria capacidade de imaginar diversificações. Na medida em que surgiam novas possibilidades de filmes a realidade ia se modificando. Fomos obrigados a contrariar as decisões da Direção da Escola, inclusive pelo fato de passarmos a contar com a participação de alunos do Colégio Gonzaga e de temas que eram entendidos como “subversivos” pela Ditadura Militar que primava pela censura a qualquer ideia que fugisse da linha ideológica oficial (!), assim também entendida pelas autoridades educacionais municipais.

Junto com os alunos e com alguns professores que assumiram a situação então criada, realizamos um Festival de Cinema Súper 8 nas dependências do Colégio Gonzaga (esta foi a primeira ação cultural efetiva, positiva e interativa entre estes dois educandários considerados arquiadiversários) com um público de mais de 900 pessoas.

Como resultado, criamos o CINE ARTE GATO PELADO.

É importante salientar-se que os alunos deste período são, hoje, em sua maioria, pessoas altamente qualificadas em suas diferentes áreas de ação e têm por mim uma amizade só dedicada àqueles que lutaram na mesma “trincheira” na construção do conhecimento.

*Biólogo, Professor de Biologia e Especialista em Informática na Educação. Participa do Treze Horas desde a sua criação, em 1978.