ARTIGO – CARTA ABERTA AOS DEPUTADOS GAÚCHOS – Podcast

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CARTA ABERTA DEPUTADOS GAÚCHOS
PL-260 / LIBERAÇÃO DE AGROTÓXICOS PROIBIDOS
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Dr. Althen Teixeira Filho*
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Senhoras(es) deputadas(os),
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No ano de 2014, despejaram no Brasil 360 mil toneladas de agrotóxicos e, só no RS, foram 30 mil toneladas, o segundo maior volume no país. Em 2017, o Brasil sofreu 539,9 mil toneladas e nesses cálculos todos não foram incluídos os venenos contrabandeados. Entre os impactos já comprovados desses pesticidas estão os suicídios e, ainda no RS, encontram-se três das quatro cidades com maior índice no país (a imprensa fala em “epidemia de suicídios”). Para além, tem-se cada vez mais mães amamentando seus filhos com agrotóxicos no leite; o índice de contaminação por venenos nos alimentos é altíssimo; em alguns locais até a água do nosso chimarrão já tem venenos; está comprovado que esses químicos agrícolas causam cânceres, malformações fetais, autismo, Alzheimer, desequilíbrios hormonais, além de outras doenças não menos importantes, com grande gravidade e sofrimentos.
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Mesmo assim, e apesar dos fatos acima, o Executivo enviou um projeto de lei (PL-260) para ser votado em regime de urgência na Assembleia Legislativa, para permitir que agrotóxicos proibidos nos seus países de fabricação, possam ser aplicados no RS. Em outras palavras, o governador quer usar no RS venenos tão potentes que foram proibidos nos países onde foram produzidos. A primeira e óbvia pergunta é: por quê?  Quais os motivos tão importantes que justificariam uma atitude dessas? E por que o regime de urgência?  Existe, por acaso, alguma razão inconfessável ou sigilo inenarrável que não possa ser compartilhado?
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Entretanto, todos sabemos que qualquer argumento, qualquer justificativa, qualquer ideário apresentado na defesa desse projeto de lei formata-se com ardil, trapaça, engodo, lorota…
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E as(os) deputadas(os), enquanto representantes do povo, irão votar sobre tal assunto!
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Importante ressaltar que um governo é dito democrático não só pela forma como foi eleito, mas fundamentalmente pela conduta que tem sobre questões de interesse coletivo e na relação para com toda a população. Nesse sentido, a atitude de não discutir, de voltar as costas para a sociedade, de desconsiderar órgãos de classe, desdenhar ministérios públicos e rechaçar pareceres de universidades, somam-se com outros fatos incontestáveis para comprovar que vivemos um dos momentos mais obscuros da democracia gaúcha. O tal “regime de urgência”, o mesmo do Código Ambiental, continua sendo usado como reles manobra para impor projetos antidemocráticos, um engodo na defesa de interesses particulares, um subterfúgio para evitar o debate público e, no presente caso, uma atitude inominável para o emprego de venenos que fatalmente estarão nos alimentos e na água da população!
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As(os) senhoras(es) estão de acordo com isso? Seus votos estarão seguindo orientação de cordéis de gabinetes e de empresas, ou terão como referência o que será melhor para as pessoas e, inclusive importantíssimo, para os animais e meio ambiente?
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A mão com a qual irão votar, poderá ou não ser a mão que aponta para suicídios! A verbalização do voto, poderá ou não ser a voz que condena crianças ao sofrimento por toda uma vida! A atitude parlamentar levará ou não angústias às famílias gaúchas! Mas no todo é certo que a manifestação do voto indicará os interesses que defendem, o caráter que possuem e formatarão a consciência que os acompanhará pelo resto de suas vidas!
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Senhoras(es) deputadas(os), o que se apresenta está longe de ser uma simples votação mas, muito antes, as(os) senhoras(es) terão a oportunidade de defender a cidadania, de postarem-se contra um projeto de Brasil colônia, de não ficarem agachados para interesses da indústria do veneno, de mostrarem respeito ao povo gaúcho, de evidenciarem um mínimo bom senso, intelectualidade e de humanidade!
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Assim, pelo presente exige-se o respeito para com a nossa população e meio ambiente, aguardando-se o voto contrário a esse projeto de lei, ou qualquer outro projeto de lei que deprecie a verdade e agrida a vida!
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Sendo o que se tinha.
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*Professor Titular / Instituto de Biologia / UFPel
CARTA ABERTA AOS DEPUTADOS GAÚCHOS – DR. ALTHEN TEIXEIRA FILHO – Podcast