
Um futebol bilionário, decisões baratas
Pedro E. Almeida da Silva*
O futebol brasileiro da Série A movimenta cerca de R$ 9 bilhões por ano. Apenas em direitos de transmissão, o campeonato arrecada algo próximo de R$ 3 bilhões anuais. Patrocínios, casas de apostas, bilheteria e venda de jogadores completam um ecossistema financeiro robusto, que posiciona a Série A como o maior produto esportivo do país e um dos mais relevantes do mundo. Trata-se de um negócio bilionário, altamente profissionalizado do ponto de vista comercial.
Afora o fato de que os salários dos jogadores, especialmente os da Série A, são absurdos quando comparados à realidade salarial de quem sustenta essa engrenagem, no centro desse espetáculo milionário persiste um paradoxo difícil de ignorar: a arbitragem segue operando sob um modelo essencialmente amador.
Um árbitro da Série A recebe, em média, R$ 5 mil a R$ 7 mil por partida, sem salário fixo, sem vínculo empregatício e sem dedicação exclusiva. Mesmo os árbitros mais frequentemente escalados raramente ultrapassam R$ 30 mil a R$ 50 mil mensais nos períodos de maior atividade, enquanto um jogador reserva de um grande clube recebe entre R$ 150 mil e R$ 200 mil por mês. A maioria dos árbitros mantém outra profissão, tratando a arbitragem como um “extra”. Ainda assim, são eles os responsáveis por decisões que podem significar classificação para competições internacionais, rebaixamento, perda de patrocínios ou milhões em premiações.
O contraste torna-se ainda mais evidente quando se observa o cenário internacional. Na Premier League inglesa, que movimenta cerca de R$ 45 bilhões por ano, os árbitros são profissionais em tempo integral, com salários mensais da ordem de R$ 100 mil, além de bônus, treinamento contínuo e avaliações sistemáticas. Na Bundesliga alemã, o modelo é semelhante, com contratos estáveis, remuneração fixa e formação permanente. Mesmo em ligas de menor expressão econômica, como a MLS, nos Estados Unidos, os árbitros atuam com dedicação exclusiva.
No Brasil, o caminho é outro. O campeonato cresce financeiramente, mas a arbitragem permanece presa a um sistema fragmentado, instável e pouco transparente. A introdução do VAR, embora necessária, não foi acompanhada de uma reforma estrutural da profissão. A tecnologia é moderna; o modelo profissional é ultrapassado. O resultado aparece com regularidade: decisões contestadas, falta de padronização, ausência de coerência e um desgaste institucional que alimenta a desconfiança permanente, ainda mais em tempos de apostas e escândalos recorrentes de resultados e apostas “estranhas”.
O jogo vale milhões, mas a arbitragem continua valendo pouco. A culpa não é apenas dos árbitros, alguns, de fato, muito ruins, mas principalmente das federações e dirigentes que insistem em fingir que não veem essa incoerência.
*Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande – FURG











