ARTIGO – A VERDADEIRA HISTÓRIA DA VELHA ETP (1)

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A VERDADEIRA HISTÓRIA DA VELHA ETP (1)

Seu Mando e o espelhinho

Lourenço Cazarré*

Aprovado em um “vestibulzarzinho”, comecei a cursar em 1965 o Ginásio Industrial na (hoje, para mim) fabulosa Escola Técnica de Pelotas.

Pelo que me lembro, ingressei numa boa colocação. Por que era estudioso? Mais ou menos. Era um aluno de boas notas, sim, mas atribuo minha entrada na Escola ao fracasso que tive no final de 1963 quando prestei o “exame de admissão” ao Colégio Pelotense.

Esse tal exame era aplicado aos alunos das quarta séries do Primário que queriam cursar o quinto ano já em uma escola de prestígio, onde seguiriam depois o Ginasial, caso do Pelotense.

Pois bem, eu era um aluno até que bem bonzinho para os modestos padrões do Grupo Escolar São Vicente de Paulo, que funcionava grudado num costado do Assis Brasil, pela Anchieta. Daí a minha avó Edméa me inscreveu para fazer o “admissão” ao Gato Pelado.

Fui de bola cheia, certo de que daria olé, mas acabei perdendo de goleada.

No dia em que saiu o resultado, fui a pé com minha vovó baixinha e gordinha – da rua onde morávamos, a Rafael Pinto Bandeira, perto da Igrejinha da Luz – até aquele colégio gigantesco que fica no final (será começo?) da Avenida.

Bem, o meu nome não constava na relação dos aprovados.

A dolorosa volta para casa – com vó Edméa tentando me consolar – me incomodou por todo aquele maldito 1964.

O certo é que no final daquele ano, felino já escaldado, estudei para burro antes das provas da ETP. E, como se diz na Princesa, passei. Ou, como se diz na taba dos tupiniquins: fui aprovado.

Aqueles dois guris quase gêmeos do centro

Curiosidade: em meados dos 1960, a Escola Técnica só recebia marmanjos. Creio que em 1968 entraram as primeiras moças nas séries noturnas.

A ETP era escola de pobres. Na maioria, os alunos vinham das colônias e das vilas e bairros periféricos. Éramos na esmagadora maioria filhos de gente aperreada que acreditava que uma educação técnica daria a seus filhotes a chance de terem uma vida menos dura.

O meu pai, João Carlos, era um desses esperançosos. Homem inteligente, embora só tivesse concluído o Primário, ele sabia que o futuro seria menos impiedoso com quem tivesse uma profissão técnica. Ele só não levou em conta que eu nunca consegui realizar ações tecnológicas complexas, como, por exemplo, manusear uma chave de fenda.

Os primeiros guris do centro mesmo da cidade a ingressarem naquele vetusto edifício – diziam galinhas gordas invejosas ou gatos pelados despeitados – foram dois quase gêmeos, chamados Kleiton e Kledir.

Mandinhos estudiosos, eles sabiam onde a coruja morava. Como queriam ser engenheiros, como o pai deles, o doutor Klebér, ingressaram na ETP para cursar o Técnico (hoje Segundo Grau). Depois, seguiriam para a faculdade.

Esses dois, é claro, conseguiram entrar logo para a banda Marcial da Escola, cujos concursos de admissão eram disputados.

O Kledir soprava uma tuba que pesava bem mais do que ele. O hoje maestro Kleiton ia de (que diabo é isso?) escaleta. Fofoca: o polivalente Kleiton também chegou a ser atleta destacado da equipe de ginástica acrobática.

Eu, modestamente, me submeti a um desses testes para a banda, mas, pelo que me lembro, só arranjei uma dor de cabeça danada tentando tirar uma nota de um pífano que, incompetente, não soube captar toda a minha musicalidade.

A bela professora com voz de passarinho

Chega de cascata! Vamos às historinhas da ETP.

Começaremos com a aventura que antecipamos no título: “Seu Mando e o espelhinho”.

Cada turma de quarenta alunos sempre tinha 3 ou 4 maus elementos. Em geral, repetentes, sujeitos mais velhos, mais matreiros e mais debochados. Ladrões de merenda dos menores, quando ninguém estava pela volta. Sacanas que gostavam de passar rasteiras nos menorzinhos quando eles passavam correndo que nem busca-pés pelo pátio. Bem, grandes patifes não eram muito numerosos, mas eles se reconheciam pelo cheiro e, juntos, aprontavam uma barbaridade.

Sobre essa galera medonha – que já nem sei mais se existiu ou se foi inventada por mim – escrevi um livro intitulado: A guerra do lanche (Editora Ática, 1997, 136 páginas), do qual falaremos outro dia.

Havia uma belíssima professora de Matemática. Uma verdadeira joia rara porque a esmagadora maioria dos nossos mestres era formada por senhores catacegos, ventrudos, destelhados, bigodudos ou fumantes de cachimbo.

 A jovem, alta e elegante mestra era dotada de uma voz de passarinho de gaiola. Dava pena vê-la sendo gentil com aquela cambada de piás fedegosos.

Sim, é preciso admitir esse pecado. Suávamos muito nas aulas de “Oficina” – marcenaria, encadernação, cerâmica e tipografia – que eram ministradas em pavilhões abafados.

Eu sei que a questão que vou inserir aqui não chega a ser importante, mas eu preciso colocá-la: Qual é o aroma engendrado por uma quarentena de jovens corpos suados em uma tarde de verão?

A correção das provinhas

Certo, dia a bela tia descobriu, em sala, que não havia corrigido as nossas provas e que precisava entregar as notas naquele mesmo dia à secretaria.

Que fez?

Simplesmente, começou de imediato a corrigir os nossos exercícios! Aproveitando a concentração com que ela mergulhou na tarefa urgente, nós, os pequeninhos, os bobinhos de onze anos, aos poucos, fomos nos levantando. E, um por um, nos acercamos dela. Acabamos formando uma trêmula barreira de coraçõezinhos agitados. Que número ela lançaria na nossa provinha? Um 100?

Ocorre que na turma havia uns meliantes. O chefe deles era um sujeito que carregava sempre um espelhinho no bolso para confirmar, de minuto a minuto, se ele próprio era mesmo tão lindo quando sabia ser.

Utilizando-se da muralha juvenil que se erguera em torno da pedagoga, o capo de tutti capi deitou-se no chão da sala e enfiou seu braço entre as pernas dos coleguinhas, de modo que seu espelhinho ficasse sob partes relevantes da anatomia íntima da mestra. Queria o facínora obter, com seu indiscreto aparelho, uma, digamos, antevisão do paraíso.

Resumindo, enquanto os pequenos se mantinham tensos e amedrontados na barreira – para que a professora não descobrisse a tramoia e sofresse um trauma -, os repetentes e demais ruminantes vibravam (com sorrisinhos matreiros e polegares erguidos) a proeza do biltre mais arrojado.

Mas aquela patifaria não durou muito.

A janelinha indiscreta

Acontece que em cada porta de cada sala de aula da ETP havia uma janelinha, uma vigília. Nessa abertura envidraçada enfiavam a cara todos que quisessem falar com um professor que estava dando uma aula.

Em geral, o que se via ali era a fuça de um inspetor de disciplina que vinha trazer um recado do diretor. Ou uma má notícia. Por exemplo, informar a um moleque que a avozinha pela qual ele era apaixonado acabara de falecer ali perto, na Santa Casa.

Naquele dia, para não variar, apresentou-se na tal janelinha um inspetor.

Não! O que o vidro nos apresentou não era apenas o rosto largo de um homenzarrão moreno. Não! Aquela era simplesmente a mais temida fachada da Escola. Uma carantonha que aterrorizava a numerosa comunidade de jovens estudantes bem-comportados e que fazia borrar-se de medo até o mais rematado calhorda de uma quarta série cheia de bagaceiros.

Seu Mando

Aquele rosto pertencia a um homem que chamávamos de Mando, quando estávamos longe dele. Mas que – de cabeça gacha, em voz baixa, gaguejando – chamávamos respeitosamente de Seu Mando quando ele nos dirigia uma pergunta.

É isso! Na janelinha, estava Seu Mando.

Com uns trinta anos de Escola no lombo, ele era capaz de reconhecer um capenga dormindo. Sabia salteado e de cor todas as cretinices dos alunos mais chinelões e descobria num átimo as invenções mais sofisticadas ou surpreendentes.

Seu Mando media um metro, oitenta e lá vai pedra. E era largo de peito. Tinha mãozorras de estrangular javali. Rosto moreno bem claro, cabelo grisalho curtinho em cima e raspado dos lados. Ocupava muito espaço com seu corpo e ainda mais com sua autoridade.

Mas o que mais assustava nele era a voz. Um vozeirão de encaçagar guaipeca. Uma voz forte e límpida que ficava ainda mais clara quando ele se punha brabo, o que não era raro.

Seu Mando tinha um certo humor, acho. Um humor interno. Ria para dentro. Sempre que descobria uma peraltice e, na hora, aplicava uma duríssima penalidade, ele se ria. Era um riso sem som, um riso que não classificaremos aqui como bondoso. Não, isso não. Talvez satânico. Quem sabe?

Detalhe: a pena que mais temíamos naqueles anos remotos era ter de copiar o regulamento da Escola, que vinha estampado nas primeiras páginas das nossas cadernetas de presença.

Ao ver a larga face – assustadoramente risonha – do inspetor na janelinha, o infrator – estirado confortavelmente no chão da sala – quase derreteu, como um picolé jogado numa frigideira ardente.

Seu Mando ergueu sua manopla até a janelinha e fez com o indicador da mão direita um gesto universal, um gesto que até mesmo o mais abobado dos homens de Neandertal compreenderia: um anel que engata uma beiçola de peixe e que o puxa para fora da água.

O meliante levantou-se lenta e discretamente. Sem fazer ruído, abriu a porta e escorregou para fora.

Imaginamos todos, claro, que ele seguiria Seu Mando até a Sala dos Inspetores, onde ganharia um pito e uma pena.

Sem perceber aquele drama, a professora continuava, impávida, a corrigir nossas provas.

Ah! Os outros bandoleiros – os que estavam comemorando a safadeza – quando viram a carona do Seu Mando voltaram-se para as paredes como se estivessem fervorosamente interessados um beijar algum santinho que por acaso estivesse pendurado por ali.

The end

A professora nunca soube daquela patifaria, espero.

Seu Mando confiscou o espelhinho e beneficiou o infrator com duas semanas de folga. Que foram importantes para a bela reprovação que ele conquistou naquele ano. Apenas mais uma na sua carreira.

Só agora, ao fim desta crônica, percebo que Seu Mando foi a mais marcante das muitas figuras estranhíssimas que conheci na minha trajetória de quatro anos pela velha ETP!

*Jornalista e escritor.