ARTIGO – A ENCHENTE

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Em 9 de dezembro de 1980, uma notinha na coluna Livros e Autores, do Jornal do Brasil, anunciava que um dos ganhadores do prêmio literário criado por ocasião dos 25 anos da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, de Nova Friburgo, era um jovem pelotense de 27 anos. O texto premiado – com 30 mil cruzeiros, ou seriam cruzados? – era um conto, “A enchente”, que só seria publicado seis anos depois, num livro intitulado Histórias suburbanas. No livro, saiu com outro título: “Um licorne desceu luminoso”. Mas de que trata o referido causo? De uma enchente que teria atingido a cidade de Tapera (ou seria Pelotas?) no ano de 1946. Ainda hoje, passados mais de 45 anos após ter sido escrito, talvez se possa dizer que é um conto legível. Por isso está aqui, sem retoques.

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A enchente

Lourenço Cazarré*

Quando a grande enchente invadiu Tapera, na fria manhã de cinco de setembro de 1946, apenas os sobrados e os raros edifícios do centro da cidade escaparam. A água cobriu tudo.

Todos os barcos foram requisitados pela Brigada Militar e os soldados saíram a pescar os que se haviam refugiado sobre os telheiros de suas casas alagadas. E, assim, todo aquele povo, disperso e encarangado, foi tangido para o Parque de Exposições Pecuárias.

Na primeira noite de insônia, mais de cinco mil pessoas dormiram amontoadas naqueles compridos e escuros galpões mal-assombrados. E ao longo do segundo dia continuaram chegando com seus semblantes de animais insones, com seus grandes olhos arregalados de sapos.

Uns traziam um gato; outros, um cachorro. Vinham todos só com a roupa do corpo e o objeto mais querido, quase sempre um desventrado relógio de prata.

Batalhões do Exército acorreram de cidades vizinhas e armaram um grande acampamento simétrico, no Morro da Alemoa, com suas triangulares barracas de lonas amarelas e verdes. Para ali foram levados os que eram socorridos por último. A cidade começava a mudar-se lentamente para o alto daquele cerro. Apenas alguns poucos preferiram continuar entrincheirados em seus decrépitos casarões submersos, guardando suas esverdinhadas riquezas ou em seus flutuantes casebres vigiando suas misérias.

E foi assim que Tapera ingressou no silencioso mundo dos sonhos.

Na segunda noite, ainda mais escura e tenebrosa, um cargueiro argentino levando miles e miles de toneladas de trigo passou perigosamente por sobre as casas, entre os sobrados. Um frio pegajoso percorreu a espinha dos afogados que viram o navio gigantesco contornar os morros e seguir eternamente sobre os alagados campos em direção a Porto Alegre.

Os assustados taperenses mantiveram os olhos bem abertos para nunca mais esquecer o milagre, esse pífio milagre, e poder contá-lo depois a seus netos.

E pela primeira vez em suas curtas vidas os jovens e as crianças daquela cidade submersa descobriram que uma cidade cinzenta e úmida também pode proporcionar divertimento e beleza. E quando desvendaram os mistérios trazidos pelas águas da lagoa compreenderam que havia alguma coisa além de tardes sonolentas num banco escolar.

E as mulheres deram graças a Deus – embora tivessem que comer a garoroba preparada pelos soldados no acampamento – por escapar da rotina massacrante que vinha desde o tempo das bisavós e esqueceram as manhãs tediosas passadas ao redor de um fogão.

E os homens souberam então que seus olhos eram capazes de ver outras coisas além de acompanhar o frenético movimento dos teares ou o treme-treme incessante das máquinas de polir o arroz. E os que trabalhavam no Frigorífico dos Ingleses finalmente descobriram que não só de sangue é feito o escoar das horas.

E os rapazes alegres e barulhentos do Clube de Regatas pegaram seus esquifes, não mais para colecionar músculos inúteis, mas sim para pinçar os náufragos ainda extraviados naquela floresta de telhados em que se tinha transformado a cidade. Buliçosos, uniram-se aos soldados e foram pescar os que já estavam criando raízes sobre o musgo das telhas. Muitos daqueles rapagões, de arrogantes topetes abrilhantinados, sonhavam encontrar alguma Princesa entre os mocambos afogados, mas só acharam Gatas Borralheiras.

E os boêmios mais inveterados descobriram encantos inimagináveis no rosto das prostitutas. Como no daquela formosa uruguaia que virou serpente na segunda noite do dilúvio. Ou no daquela tímida indiazinha cujos cabelos transformaram-se em algas perfumadas. Alguns bêbados, os mais tristes, apenas tinham voz para reclamar da cachaça: estava aguada demais.

E o poeta, dono da mais louca e desenfreada imaginação, compôs enfeitiçados sonetos errando pelos escuros porões alagados da Prefeitura. Não os escreveu. Guardou-os na cabeça. Não quis jamais publicá-los no Diário do Sul. Eram tão belos os poemas, acreditava ele, que aquele povinho não os merecia.

E o prefeito, coitado! Não pode descobrir a nova beleza da cidade porque precisava andar de um lado a outro, feito barata tonta, ditando ordens desconexas para as turmas de resgate. Coitado! Logo ele que gostava de passar a tarde na mais alta sacada do Paço cuspindo nos transeuntes carecas. Teve, coitadinho, que abdicar de sua sesta e vagar, sonâmbulo, pelas ruas estreitas de sua cidade encantada.

E os animais que viviam confinados na Lagoa dos Patos, puderam, enfim, visitar Tapera. Somente as idosas tartarugas, que haviam nascido antes da grande cheia de 1907, conheciam os sobrados e as ruas empedradas da centenária cidade. Os peixes vieram todos em alinhados cardumes, verdadeiras hordas guerreiras bem treinadas. Um bagre muito do sem vergonha aproveitou-se do dilúvio para invadir a Biblioteca Pública Infantil e roubar todos os livros da Condessa de Ségur. Por isso, e por mais nada, os meninos das gerações seguintes se tornaram tão casmurros e cismáticos.

Mas a velha Maria José continuou atravessando a rua para assistir às missas na Igrejinha de Nossa Senhora da Luz e xingou muito o padre Helmuth que não aparecia desde quando tinham começado a cair as intermináveis gotas daquela chuvarada. Ajoelhada em sua poltrona almofadada de roxo veludo nem percebia o vaivém dos santos de gesso que, com o auxílio das águas barrentas, tinham trocado o breu e a imobilidade de seus nichos pela luz e pela liberdade dos corredores alagados do templo. Os anjinhos mais peraltas adoravam sacudir suas asinhas sobre a cabeça amantilhada da velha beata portuguesa.

Mas o padre Helmuth abandonou seus deveres litúrgicos e foi caçar preás nos lodaçais da várzea com os meninos desnutridos da Galatéia e esqueceu-se de seus velhos pais que ficaram presos dentro da casa paroquial, isolados de todos pelas grossas portas de carvalho e por não saberem uma só palavra de português. E com as mãos unidas em prece o sacerdote ergueu os olhos para o céu de chumbo e pediu a Deus que enviasse um cavalo, um matungo velho que fosse, para que aqueles meninos pudessem ter um pouco de alegria.

Pouco depois, para festa da garotada, e surpresa do santo homem, vindo do céu, um licorne desceu luminoso no meio daquela tarde.

O barbeiro corcunda, que vivia tomando Pepsi-cola, engasgou-se quando viu a passagem do segundo navio. Estava ele parado na sua porta bisbilhotando tudo – como sempre – com seus olhos compridos quando viu surgir o cruzador alemão. Quis gritar para aqueles seus vizinhos safados, que nunca acreditavam no que ele dizia, mas não pôde. Estava hirto de espanto e medo. E o cruzador, que havia sido posto a pique pelos ingleses nas proximidades de Montevidéu, seguiu silencioso com sua guarnição de fantasmas loiros.

Coincidiu então que aquele já era o Dia da Independência.

Alguém lembrou disso no meio da catástrofe e gritou a plenos pulmões. A cidade sacudiu então a modorra. Um vento de alegria percorreu as legiões de flagelados. E todos, sem sucesso, tentaram pôr ordem em seus andrajos.

Os meninos correram para as escolas, abriram os armários da sala da banda e dali retiraram os tambores de couro enrugado e as cornetas esverdeadas. Pouco depois soaram festivos os clarins bolorentos, cortando o silêncio das águas paradas. Das liras e flautins os garotos obtiveram acordes impossíveis.

A cidade movia-se atarefada, sacudia o manto da imobilidade.

Os brigadianos suspenderam então as operações de salvamento e postaram-se, muito sérios e empertigados, ao longo da grande Avenida. Os escoteiros armaram suas infalíveis barracas e lutaram com a lenha molhada. Depois suas fogueiras ergueram labaredas vermelhas no ar úmido da cidade.

A passagem do caminhão dos Bombeiros, com sua estridente sirene ligada, anunciou o início do desfile, mas não conseguiu afastar do meio da rua os peixinhos menores que, excitados, cruzavam de um lado a outro da Avenida. As preguiçosas tainhas tiveram que ser escorraçadas dali a golpes de vassoura pelos garis. A parada foi aberta pelos meninos descalços do Liceu de Artes e Ofícios, surpreendidos na miséria cotidiana por aquela eterna bomba de água. Havia negrinhos, mulatinhos e loirinhos, das vilas marginais e da zona rural.

Depois vieram os garotos do Colégio Católico e do Ginásio Taperense, aprisionados em suas vetustas roupas domingueiras. Mais atrás vinham as meninas do Colégio Nossa Senhora das Dores. Suas saias de tão molhadas haviam encolhido perigosamente. Mas as freiras permitiram que elas marchassem assim mesmo porque tinham um medo terrível do General da Banda.

O prefeito, coitado, chegou atrasado, trazendo pela mão o netinho mais novo. Só teve tempo mesmo de assistir ao arreamento da bandeira, escutando com atenção concentrada a execução do Hino e sem dar bola para a corvina que ancorou no seu ombro esquerdo. Um rapaz do Clube de Regatas, refestelado e despenteado, veio mergulhando até localizar o prefeito junto ao mastro. Perfilou-se ao lado dele, apontou para o alto, apontou para a copa submersa dos eucaliptos, e anunciou:

– Lá em cima já parou de chover!

O prefeito nada respondeu. Ficou ali parado, afagando os cabelos do netinho, enquanto na Avenida ainda ressoavam os passos dos últimos afogados que regressavam às suas casas.

* Jornalista e escritor.