OS MISERÁVEIS VIVEM À BEIRA DOS RIOS

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OS MISERÁVEIS VIVEM À BEIRA DOS RIOS

Lourenço Cazarré*

Publicado originalmente no site:

https://paginaum.pt/ 

– Pega o teu refresco e te senta aqui, filhote – disse ele.

Voltei-me e encontrei o rosto balofo e debochado que via todas as manhãs. Diante dele, uma garrafa de cerveja pela metade um copo de fundo grosso com cachaça. A cara e o pescoço avermelhados assumiam tons violáceos sob a luz amarela do bar.

Tentei sorrir, mas só consegui fazer uma careta. Era muito ruim vê-lo diariamente na rádio, pior era encontrá-lo fora de lá, mas eu era educado demais para me livrar dele. Sentei-me.

– O mundo está se afogando lá fora e eu me afogo aqui dentro. São as chuvas que Deus nos manda. Pela volta da cidade, a ralé já deve estar com água pelo pescoço. E isso é bom para nós, porque nos garante os noticiários.

A voz pastosa e o bafo azedo indicavam bebedeira forte.

Naquela época, ele trabalhava na emissora de rádio em que eu cumpria meu estágio obrigatório da Faculdade de Jornalismo. Com mais de vinte anos de profissão, perambulara pelo interior do Estado trambicando em jornalecos que saíam de vez em quando, quando saíam, ou biscateando em troca de comida nas emissoras que só tocavam música campeira.

Preguiçoso e relapso, servia-se de mim para não fazer absolutamente nada na rádio. No começo da manhã, antes de entregar-se ao sono, com os braços cruzados sobre a máquina de escrever, queixo enterrado no peito, ele me pedia que eu só o acordasse se o gerente se aproximasse da redação. Protege o meu flanco, dizia ele. Ando cansado de receber pontapés no rabo só porque sou um tantinho sonolento.

– É sempre a mesma história. Nada muda nessas cidadezinhas. Todas têm um rio e todo rio transborda. Já notaste que os miseráveis vivem sempre à beira dos rios?

Eu redigia os noticiários matinais. Por volta das dez, ele interrompia a soneca e deixava o prédio. Ia tomar um “cafezinho” que lhe consumia o resto da manhã. Voltava pouco antes do meio-dia, fedendo a pinga, sempre com uma frase ferina para criticar alguma das notas que eu escrevera para o jornal das onze.

– De formas, meu caro, que o jornalismo é isso: repetição. Se não é chuva, é vendaval.

Enquanto ele falava, eu o observava. Aos quarenta anos, era já um rebotalho de gente em decrepitude acelerada. Impressionavam-me sobretudo seus olhos de um azul aguado, riscados por estrias vermelhas, que jamais fitavam o interlocutor.

– E o vento, então? Verão ou inverno, tanto faz, a ventania destelha os ranchos deles. Não dá outra. Um ventinho mais forte e lá se vão pelo ar as chapas de madeira, o papelão, telhas quando há. E o que é que se vê, então? A miséria explícita, obscena, promíscua. Cama grande onde se misturam pai, mãe e filharada. E aí, como os seres humanos têm um fogo inapagável na forquilha das pernas, às vezes acontece de o pai se atracar com a filha mais crescidinha. A guria com medo e vergonha, hirta e estuporada, e o velho se refestelando, ligeiro como quem rouba, bebum.

A verdade é que eu o desprezava por ser indolente e velhaco. Nojento mesmo. Mas, como meu estágio logo acabaria, eu o tolerava mais ou menos como as pessoas aguentam chuva, frio e vento.

Bebeu um gole de cachaça, pigarreou e (segurando um microfone imaginário) falou com voz empostada de locutor:

– Ventos de até cem quilômetros percorreram ontem os campos da nossa região causando grandes prejuízos às classes produtoras.

Os cachaceiros das mesas próximas voltaram-se para nós, curiosos, e eu me senti envergonhado, com as orelhas em fogo. Estava na ponta dos pés, na beira da bunda, prestes a me catapultar da cadeira, mas os olhos escorregadios do radialista canalha me seguravam ali.

Bebeu com um só gole o que restava de cerveja no copo e depois, segurando o pescoço da garrafa vazia, acrescentou:

– Isto aqui só serve para me refrigerar o motor porque o meu combustível mesmo é a canha.

Agarrou então o copo e bebeu o que nele havia de cachaça.

– Este, sim, é o verdadeiro néctar do paraíso. Aquece, amansa, traz sono e esquecimento. Ou atiça, agita, traz fúria e morte.

De longe em longe, por cima do vozerio do bar, explodia lá fora o ribombo dos trovões. Maldita chuva! Por causa dela eu havia me refugiado naquele boteco.

Quando terminei de beber o refrigerante, deixando o sanduíche pela metade no prato, tentei me levantar, mas ele se espichou sobre a mesinha e pôs a mão no meu ombro.

– Te acalma! Te senta de novo aí que eu vou te contar uma história. Um causo que se passou comigo. Foi num dia como o de hoje, chuvoso. Eu era novinho, assim como tu, magro desse jeito. É coisa de uns vinte anos, talvez. Naquele tempo não tinha essa bobagem de Faculdade de Jornalismo, a gente se formava no dia a dia. Eu arranhava minhas primeiras reportagens de jornal, tinha sido puxado da revisão. Era garotão metido a besta: lia os poetas, adorava toda bosta que rimasse e rabiscava poemas pensando nas putas que rondavam o Mercado. Em suma, eu tinha um coração cheio de mel, açucarado. E, como ainda hoje, trabalhava por um salário de merda.

A chuva lá fora não dava sinais de cansaço. E de vez em quando a porta do bar se abria para dar entrada a mais um refugiado.

– Pois bem, certo dia, de manhã bem cedo, um táxi parou na porta da minha casa. Eu ainda morava com os meus pais, que me acordaram. O carro fora enviado pelo jornal. Qual era o enrosco? Bem, tinha chovido a noite inteira, um temporal brabo como o de hoje, e precisavam de mim para fazer uma reportagem. Na redação deserta, o chefe passou o braço pelo meu ombro, me falou rapidamente da enchente nas margens do rio e me disse: “Agora, vai lá e vê como os pés-rapados estão se virando”. E eu me fui empolgado com caderno e caneta na mão. Saltei do carro e, decidido como escoteiro que vai praticar sua boa ação do dia, comecei a descer a ladeira. Cruzei pelo povaréu que, no alto da rua, observava as ruas alagadas lá embaixo. Imóveis, como vacas na chuva, esperavam que a água se fosse para voltar aos seus casebres. Continuei avançando firme mesmo quando a água me chegou aos joelhos. Caminhei um quarteirão pela rua mais larga e depois enveredei pela viela que findava junto ao rio. Ali, a água já me batia no umbigo. De vez em quando eu parava e tomava notas…

Levou aos lábios o copinho de cachaça e, percebendo que estava vazio, bateu com ele sobre a mesa.

– Mais uma pinguinha! – gritou para o garçom. – E traz também uma loira para me hidratar!

E de imediato continuou:

– O cadáver inchado de um leitãozinho passou por mim. A princípio, pensei que fosse um corpo de criança, rosado e liso. Tudo quanto era porcaria vagava por entre as ruas submersas: mesas, cadeiras, panelas e garrafas. Bah! De repente, do interior de uma das casinhas me veio o canto de um passarinho. Foi então que eu senti o quanto era ruim o silêncio daquelas águas barrentas.

Percebi que, aos poucos, a voz dele se desnudava. Perdia a falsa entonação dos locutores. Talvez aquela voz rouca, sem brilho, fosse a sua verdadeira voz. Quero dizer, ele trabalhava há tanto tempo em emissoras de rádio que a falsa impostação já fazia parte dele, mas bêbado, ou comovido, como parecia estar naquela noite, recuperava a voz de sua juventude.

– Voltei ao jornal e escrevi de um só jato um texto que me pareceu genial. O chefe pegou o calhamaço e começou a ler, mas, antes de acabar a segunda lauda, berrou: “Aqui só tem discurso!” Rasgou as seis ou sete folhas, jogou-as na minha cara e berrou ainda mais alto: “Eu quero uma história de gente de carne e osso, caralho! Eu quero emoção!”

Quando ele interrompeu a narrativa para bebericar a cachaça que o garçom colocara à sua frente, me veio a impressão de que ele não mais estava falando para mim. Monologava, conversava consigo mesmo.

– Bem, eu tinha uma história e foi com ela que salvei a minha carreira. Pensando bem, uma carreira que nem deveria ter sido salva. Se não tivesse escrito a danada daquela história, talvez eu fosse hoje um professor de ginásio ou um funcionário da prefeitura, um anônimo qualquer, bêbado também, mas certamente mais bem remunerado…

Uma pergunta saltou-me da boca:

– Que história era essa?

Olhos fixos no copo, distante de mim, distante do mundo, perdido nos anos de sua juventude, retomou o conto com sua voz verdadeira:

– A história da velha que ficou pendurada a noite toda… Eu já estava dando por encerrada a minha missão, depois de ter percorrido aquelas ruas tomadas pelas águas, quando me pareceu ouvir uma voz. Uma voz muito fraca. Só escutei essa voz porque há meia hora vagava entre os casebres e já estava acostumado ao rumorejo das águas que se batiam contra as paredes de madeira. Um fiapo de voz. Eu estava no fim da vila, quase debaixo da ponte. Entrei então no barraco mais próximo. Era de uma peça só. Se tivera divisórias, não tinha mais. No centro, bem no centro daquela peça, uma cama pairava sobre as águas. Quase não acreditei no que vi: um metro acima das águas, uma cama. Que mistério era aquele? Não demorei para compreender que a tal cama certamente fora erguida e amarrada aos paus podres do telhado antes da tormenta. Mas por quem? Aproximei-me. Deitada sobre o leito, uma velha horrenda, magra e pálida, me olhava assustada…

. – Aconteceu o seguinte, meu garoto. O entulho acumulado debaixo da ponte nos meses de verão tinha obstruído a passagem das águas. Como a chuva se veio furiosa, as águas subiram com a velocidade do fogo que devora um campo seco. E mal deu para o povinho fugir às pressas levando os relógios de parede e as fotos dos antepassados. E a tal velha essa, que era meio paralítica, pedia socorro, desesperada, mas ninguém se apresentava. Dentro do casebre, a luz do lampião mostrava a escalada da água que subia ligeira pelas pernas cambaias da cama. Ia morrer, a pobre mulher, da pior das mortes, afogada. Tinha quase perdido a esperança, mas ainda rezava para Santa Teresinha, quando lhe apareceu o preto. “É gente da pior extração”, me disse ela. “Eu também sou muito pobre, mas tenho a pensão deixada pelo falecido e a casinha. Sempre é alguma coisa. Mas o preto esse é um infeliz completo. Meio tocado da cabeça, cata papelão, vidro e ferro numa carroça que ele mesmo puxa, igualzinho um burro. E depois revende no ferro-velho”. Ao ver que o homem trazia uma corda enrolada no ombro, a velha teve certeza de que sua vida acabaria ali mesmo. Seria enforcada. Fechou os olhos e começou e rezar.

Pareceu-lhe depois, pelo rumorejo da água, que o preto circulava ao redor dela. Sentiu então uns puxões nos pés da cama. O condenado estava movendo a cama dela, mas para quê? Ela abriu os olhos e viu que, depois de entrelaçar a corda nas pernas da cama, ele estava tentando fazê-la passar por cima da viga que sustentava o telhado. Quando o conseguiu, aproximou-se da cabeceira. A velha fechou os olhos e ficou aguardando, tensa, pelo momento em que sentiria a frialdade da corda úmida ao redor do pescoço. Por estar certa de que seria morta, entregou-se nas mãos de Santa Teresinha. Mas o carroceiro nunca da vida que lhe passava a corda. Por fim, de repente, ela sentiu que a cama começava a subir.

Lembrou-se de Jesus saindo do Santo Sepulcro e subindo aos céus. Lentamente, mas aos trancos, sua cama se elevava. Achou que estava morta e subindo para o encontro com Deus Pai Todo Poderoso. Mas o curioso é que ela não estava sendo alçada do modo como imaginava que os cristãos sobem ao céu: deslizando rápida e suavemente. Não! Estava subindo aos trancos e arrancos. E o que mais estranhava é que a morte não trazia de imediato o silêncio, porque ainda continuava a escutar as águas…

O radialista bebeu mais um copo de cerveja e, a seguir, bateu forte com a mão espalmada na mesa.

– Foi assim, meu guri, foi exatamente assim que o pobre catador de lixo salvou a velha. Ele simplesmente ergueu a cama o mais que pode e a amarrou depois a uns caibros. Deixou a bruxa velha com o nariz quase enterrado no madeiramento que sustentava as telhas rachadas. É claro que o barraco dela não tinha forro, nem piso, como todos os outros da beira do rio, era só uma ossada de paus podres à flor da terra. O certo é que o preto meio maluco levantou a tal cama e, quando percebeu que já estava com o estrado dela na altura dos ombros, amarrou a ponta da corda no pau que lhe pareceu o mais resistente. E deixou a velha dependurada por lá, como se fosse uma coruja descarnada num poleiro, e se foi embora para salvar o próprio lombo.

Quando me levantei para me despedir, ele segurou a mão que não estendi a ele e apertou-a com firmeza. E, de novo sorrindo cinicamente, mais uma vez com sua voz empostada, voltou a falar:

– Foi essa a história que garantiu a minha estreia no movimentado e fascinante mundo do jornalismo. De lá para cá, nunca mais achei assunto tão interessante, embora os miseráveis continuem morrendo em todas as cheias e ventanias. Pobre morre à toa. Mas, enquanto eles batem as botas, o mundo continua parindo rapazes magros e corcundas, como fui, como és, que escrevem versos febris para mulheres insensíveis e que de vez em quando dão de cara com a miséria. Não a miséria ligeira dos famintos, mas a miséria mais funda e amarga que é o acordar, todo dia, um dia depois do outro, para ver o tempo destruir todas as nossas poucas certezas.

*Lourenço Cazarré é escritor

Publicado originalmente no livro IA arte excêntrica dos goleiros, 2004, LGE Editora, Brasília