
TREZE NO MUNDO DA COPA – O FENÔMENO BRASILEIRO EM BLANGLADESCH
Paulo Gastal Neto*
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Em 2004 o atacante Ronaldo Fenômeno, junto com a Seleção Brasileira, visitou o Haiti para o chamado “Jogo da Paz”, evento diplomático e esportivo que, naquele momento, daria apoio à missão brasileira que representava a ONU no país. A recepção na capital Porto Príncipe foi histórica: os jogadores desfilaram em tanques e veículos blindados, escoltados e ovacionados pelas tropas brasileiras e pela população local. O Brasil comandou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) entre 2004 e 2017. A visita de Ronaldo ocorreu no início dessa operação e não durante o devastador terremoto que atingiu o país caribenho anos depois, 2010. O amistoso que é lembrado aqui, foi um dos momentos de maior comoção do povo haitiano. O time brasileiro, repleto de estrelas, foi recebido por uma multidão que lotou o trajeto entre o aeroporto e o estádio. Foi um dos maiores eventos em saudação ao selecionado brasileiro fora do país. O Brasil venceu a Seleção do Haiti por 6 a 0.
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Agora o fenômeno se repete e vem de um país localizado no Sul da Ásia, com cerca de 170 milhões de habitantes: Bangladesch. A paixão da população de Bangladesh pela Seleção Brasileira é um dos fenômenos mais fascinantes do futebol mundial. Embora o país esteja localizado a mais de 15 mil quilômetros de distância do Brasil e nunca tenha disputado uma Copa do Mundo, estima-se que milhões de ‘bangladeshis’ transformem o país em um verdadeiro reduto verde e amarelo a cada quatro anos..
Esse amor incondicional não é por acaso e vai muito além das quatro linhas. Ele é sustentado por algumas questões bem curiosas: a primeira e principal é Pelé e a conexão social dos anos 70. A semente dessa devoção foi plantada na Copa do Mundo do México em 1970. Bangladesh conquistou sua independência no final de 1971, após um período de guerra e extrema pobreza. Naquela época, a população começou a acompanhar o futebol internacional pelo rádio. A mística da Seleção de 1970 e a figura do Rei Pelé geraram uma identificação imediata. Por ser um povo majoritariamente de pele escura, humilde e recém-saído de um processo de colonização doloroso, os ‘bangladeshis’ enxergaram nos jogadores brasileiros (negros, pardos e de origem periférica) um espelho de si mesmos. O Brasil representava a vitória dos oprimidos e dos pobres no cenário global.
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Depois veio a chegada da Televisão em Cores nos anos 80. As transmissões ao vivo da televisão estatal de Bangladesh começaram a se popularizar na Copa da Espanha de 1982 e explodiram em 1986, novamente no México. A estética do futebol arte brasileiro, o brilho do uniforme canarinho e, posteriormente, o sucesso de craques como Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Neymar transformaram o apoio ao Brasil em uma tradição familiar, transmitida religiosamente de pai para filho.

Por fim veio a divisão cultural com a Argentina. Em Bangladesh, o futebol divide o país em dois blocos massivos: os torcedores do Brasil e os torcedores da Argentina que começaram a torcer pelo país vizinho na era Maradona, puramente porque o craque derrotou a Inglaterra em 1986, a antiga potência colonial que explorou a região de Bangladesh. Essa rivalidade interna alimenta festas gigantescas, carreatas, telões em universidades e vilarejos, e uma febre que toma conta de todas as ruas, que ficam cobertas de bandeiras brasileiras. Nesta Copa do Mundo de 2026, a tradição continua mais viva do que nunca. Durante a fase de grupos, vídeos de milhares de torcedores em Bangladesh comemorando fanaticamente os gols de Gabriel Martinelli na vitória brasileira por 2 a 1 sobre o Japão viralizaram globalmente, mostrando que o país continua parando para ver a Seleção Brasileira jogar.
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Em recente entrevista para várias emissoras de rádio e TV, o atual embaixador brasileiro em Bangladesh, Paulo Fernando Dias Feres, confirmou que fica extremamente surpreso ao assistir e interagir com a população local e o amor para com a Seleção Brasileira. Reforça ele que muitas vezes Daca, a capital do País, se veste de verde e amarelo, talvez até em maior quantidades de casas pintadas e embadeiradas do que em muita cidades do Brasil..
Um fenômeno que reforça a expressão que ganhou espaço nessa Copa do Mundo em três países: Não é só Futebol. E não é mesmo.
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Radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br
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