MENINO NOS BRAÇOS DO PAI

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MENINO NOS BRAÇOS DO PAI

Lourenço Cazarré*

Publicado originalmente no site:

https://paginaum.pt/ 

Assim, mana eguinha… Não temos mais Kusma Ionitch…Foi-se desta para melhor…Pegou e morreu, à toa… Agora, imagina tu, por exemplo – tu tens um potrinho, e tu és a mãe desse potrinho…E de repente, imagina, este potrinho se despacha desta para melhor…Dá pena ou não dá?

“Angústia”. Anton Tchekhov

vem ele, anônimo como todos os homens que cruzam esta rua, esta coisa que já foi rua. Anônimo como os que sobem e os que descem tantas vezes por dia esta mesma rua. Tantas que são anônimos. Ele não tem nome porque seu rosto é igual aos de tantos outros: duro, fechado por dentro, trancado. Tem menos de trinta anos, mas isso também não importa porque, tenham trinta ou cinquenta anos, os homens que passam por esta rua são e serão sempre assim: magros, tensos, assustados. São tisnados todos porque o sol sempre os surpreende ao meio-dia quando vêm ou quando vão nas suas desconjuntadas bicicletas.

Este que vamos acompanhar tem menos de trinta anos, mas isso não interessa. O certo é que tem grandes mãos, calosas e honestas mãos, que seguram firme o guidão da bicicleta. Muito firme, hoje bem mais firme que ontem e nos outros dias todos. Muito firme, não. Desesperadamente firme, isso sim. Mas disso ninguém sabe neste trecho da rua.

Lá vem ele, anônimo, descendo da cidade na sua decrépita bicicleta. Não há nada de digno na sua postura, embora esteja sofrendo. Não tem o jeito descansado dos outros ciclistas, o jeito preguiçoso que ele mesmo tinha nos outros dias. Vem apressado. E atento por causa dos buracos. Ah, os buracos! Um dentro do outro, um ao lado do outro, um emendando no outro. Uma grande face escaveirada isso é o que é esta rua. Esta coisa que já foi rua, no tempo em que funcionava o porto, é hoje um buraco só.

Por isso lá vem ele aos trambolhões. Não pode se concentrar na sua dor o pobre homem. Tem que cuidar os buracos porque, se facilita, esparrama-se pelo chão. E isso, um tombo, ele não poderia suportar.

Lá vem ele, anônimo e desesperado. Mas ninguém sabe disso. Há meninos jogando bola. Sim, jogam bola no meio da rua porque carros e ônibus não passam mais por ali. Há meninas também, sossegadas, acarinhando suas desconjuntadas bonecas de pano. Há mulheres olhando extáticas, por cima das cercas de madeira, o pequeno mundo da rua esburacada. Ninguém o vê pois ele faz parte da paisagem. Como os outros homens cinzentos, ele passa tantas e tantas vezes por dia que se tornou invisível. É como se ele fosse um buraco. Por isso não podem mesmo saber da dor que o estraçalha.

O homem não olha os meninos, mas sente a quente vibração de seus gritos na manhã. Parece uma algazarra de passarinhos na margem do rio, depois da chuva.

Isto aqui já foi rua movimentada. E não faz tanto tempo assim. Levava até o porto antigo. Mas abriram uma avenida nova, num lugar mais alto e mais seco. E não foi só isso: construíram também um outro porto, maior e mais fundo. Daí, ficou só o risco negro do asfalto que as chuvas de inverno comeram em pouco tempo. Quando esta rua deixou de ser movimentada surgiram estes homens curvados, pais dos meninos que jogam bola e das meninas que ninam bonecas de pano, maridos das mulheres dos olhos bovinos. Foi aí que vieram aqueles que construíram estas coisas que, com certo orgulho, orgulho impróprio, chamam casas.

Contei que abriram uma avenida para o novo porto, mas creio que isso não tem mais importância porque também o novo porto está fechado agora, com todos aqueles guindastes enferrujando contra o nublado do céu, guindastes que lembram braços erguidos pedindo clemência. Quero dizer, poucas coisas interessam além do sofrimento dos homens. Deste nosso homem.

Os primeiros homens a chegar instalaram-se deste lado aqui, que é menos pestilento do que o outro, o que costeia o rio. Quero dizer, isso tudo é um banhado só, mas daquele lado da rua é bem pior. E eles foram se instalando daqui para lá, seguindo a estrada, na direção do antigo atracadouro. Assim, os últimos tiveram que ficar junto às águas barrentas do rio.

O homem da bicicleta chegou entre os últimos dos últimos. De certeza posso afirmar isso porque ele mora lá longe, depois do final da curva, onde a cidade se acaba, bem no meio da estradinha de terra batida que leva ao matadouro. O matadouro fechou faz uns dez anos, mas isso também não é muito importante.

O certo é que ele vem arrastando sua miséria pela buraqueira. Pobre! Um homem precisa de uma rua decente onde possa andar de bicicleta sem parecer um domador de baguais. Especialmente quando carrega a dor e, mais terrível ainda, a morte no coração.

Passa por aqui todo dia, bem cedo ou no fim da tarde, mas hoje ninguém percebe que ele está fora dos seus horários. São tantos e tão iguais os homens desta rua que ninguém mais presta atenção neles, mesmo quando trazem os olhos assim luminosos, brilhantes de umidade.

Ele já sabia que teria que cruzar esta rua numa hora insólita porque o médico disse:

– É coisa para poucos dias.

Era um velho médico, vagaroso de gestos, desencantado médico de gente pobre, recitador de muitas frases de consolo.

– Não se preocupe, ele vai se finar como um anjo. Tanta gente ruim neste mundo! Mas Deus, de infinita piedade, sabe o que faz.

Esgotadas as frases, o médico macilento pôs a mão fria nas costas da mão áspera do homem e assim ficaram por um bom tempo no silêncio cheio de odores fortes do posto de saúde.

O homem da bicicleta teve vontade de falar, de dizer qualquer coisa, agradecer ou maldizer, mas não disse nada porque ele próprio não sabia se era um homem ou uma coisa seca, uma coisa que vai trabalhar e que volta todo santo dia, dia após dia, até o final de tudo.

Ainda há pouco, quando preparava a argamassa – metodicamente puxando a mistura de areia e cimento, sempre atento à poça de água no meio, vendo surgir a cor bonita do cimento, a forte cor cinzenta do cimento, forte como o próprio cimento -, a mulher do escritório se aproximou dele e disse, de soco:

– Telefonaram. O teu anjinho se foi.

Largou a enxada no meio do movimento e correu até a sua bicicleta. Pela primeira vez em tantos anos não se preocupou em perder um traçado de massa. Não calculou quanto de cimento e quanto de areia se perderiam pela sua saída às pressas, caso ninguém o substituísse. Nem pensou nos quantos minutos aquele traçado levaria para se tornar duro e áspero como as pedras, uma estranha pedra feita pelo homem.

Por isso, hoje, não se deterá no boteco para a canha amarga de todos os dias, nem para apanhar o pacote de fumo e o papel de enrolar. Vai direto para sua casa que fica lá embaixo, na trilha que leva ao matadouro, uma casa azul que a partir de hoje não mais será azul, será de qualquer cor depois que se for o azul. Nem mais casa será, será apenas uma coisa qualquer abandonada à sua condição de qualquer coisa, tendo no pátio aquele pé de salso, já grandote, quase dando sombra, e mais a fileira das hortênsias fazendo às vezes de cerca. Pois que as tormentas de julho arranquem o salso, que venham as ervas ruins para sufocar as hortênsias, que venham os gambás fazer tocas no telhado, que venham as varejeiras do verão e os mosquitos da noite, que os marimbondos se aninhem no alpendre, que os ratos tomem conta de tudo! Tanto faz!

O que lhe importa, além da dor que traz consigo?

Depois que deixa a rua esburacada já não tem mais medo de levar um tombo, de ser ridicularizado, porque a trilha de terra batida foi aberta pelas rodas das bicicletas e pelos tamancos de todos aqueles homens tisnados que por anos passaram por ali quando se dirigiam aos galpões sombrios do matadouro.

Pelo canto dos olhos, o homem percebe que há mulheres diante de todos os casebres. Compungidas, estão ali para vê-lo passar na sua desconjuntada bicicleta, mergulhado na sua dor. Naquele trecho da rua, para aquelas silenciosas mulheres que o miram por cima das cercas de paus podres, ele não é anônimo.

Há mulheres demais neste mundo, pensa ele.

Há mulheres demais e elas estão sempre fazendo o sinal da cruz, choramingonas, esbugalhando olhos trágicos e rezando orações desencontradas.

Diante de uma casinha de madeira, cujas paredes ainda são azuis, ele salta da bicicleta. Cruza o portão, encosta a bicicleta no pé de salso chorão. Há mulheres pelo pátio todo. O homem passa por elas sem encará-las e entra pela porta dos fundos. Há milhares de mulheres naquela cozinha, as mais velhas e as mais jovens parecendo ter todas a mesma idade por baixo das mantilhas negras. Lamentam-se todas elas, porque são mulheres e mães. Sussurram, arrulham como pombas, murmuram em uníssono, sincrônicas, consolam-se mutuamente, dizendo que é assim mesmo, a vida é isso, dor, dor de parir, dor de ver partir, sempre dor, nada mais que dor.

Na sala, o menino está na sala.

Agora, são quatro na saleta: sua esposa, sua mãe, o menino e ele.

Sem dar pela entrada dele, a mulher continua a adorar o filho, como se aquilo ali onde ele está deitado não fosse um velho e roto sofá de molas frouxas, mas uma manjedoura, e como se o próprio guri, que veste o uniforme branco dos escolares, fosse um recém-nascido. Do fundo da mulher, do bem fundo dela, sai aquela coisa que parece um cântico religioso, mas que na verdade é apenas uma antiga cantiga de ninar, tão triste e desconsolada como o correr de um arroio ou o bater do rio contra os juncos.

Ajoelhada num canto, a mãe dele reza.

Só então o homem descobre o quanto sua mãe está velha, magra e feia. Velha embora não tenha cinquenta anos, e pequena e frágil como uma trouxa de gravetos secos, e feia porque foi sugada por dentro de tal modo que só restaram a máscara gretada pelas rugas, os lábios murchos que não param de engendrar rezas inúteis e as mãos ossudas postas em oração.

Ali está o menino, mais lindo que todos os outros: o cabelo negro como a noite, os ombros fortes apertados pelo aventalzinho branco, os grandes olhos tristes escondidos pelas pálpebras abaixadas. O mais lindo menino do mundo. Seu filho, enfim, repousa em paz.

O homem que chegou na desconjuntada bicicleta corre os olhos pela parede nua, não inteiramente nua, até detê-los diante do crucifixo. Ah, se soubesse praguejar, blasfemar! O pequeno crucifixo está ali há anos sem outro objetivo que enferrujar sob o bafo pestilento do rio. As mulheres e o crucificado se entendem, pensa o homem. Mas o que pode fazer, ele, que não sabe falar ou rezar, ele que é apenas um homem anônimo que vai e vem pela rua esburacada?

Ergue a mão para o crucifixo.

– Deixa Ele no lugar, filho.

A voz da mulher que está ajoelhada é forte, surpreendentemente forte, e faz com que o homem lembre de quando era menino, de um tempo bom, que está muito longe, um tempo de banhos de açude e caçadas de passarinho.

– Por que Ele fez isso comigo, mãe?

– Não reclama. Ele sempre nos dá o direito de chorar.

Contrariado, o homem recolhe a mão. Precisa fazer qualquer coisa. Está sufocando dentro daquela casa. As mulheres que rezam por ali estão consumindo todo o ar. Olha a porta da frente, que está fechada há anos, desde que perderam a chave. Para entrar e sair daquela casinha usam apenas a porta dos fundos. Mas ele não quer enfrentar aquela manada de mulheres lamurientas. Quer escapar daquela saleta apertada, abafada, que fede a velas.

Lança-se de ombro contra a porta que cede, em parte. Com um pontapé, arremata a tarefa. Sai para o sol da manhã luminosa. Caminha até o portão. Respira fundo. Volta-se e contempla a casa, que ainda é azul, mas que deixará de ser porque ele jamais voltará a pintá-la, olha o salso que mal se move tocado pela brisa pegajosa do rio, vai cortá-lo, incendiará suas raízes. Para que serve uma árvore senão para receber um balanço? Que venham todos os elementos furiosos! As ventanias de agosto, o gelo das madrugadas, os incêndios de janeiro! Que venham, que destruam tudo! Que lhe importa que a maldita rua seja apenas um buraco, um gigantesco buraco? Que importância tem aquele corpo retorcido no crucifixo? Quem se interessa em escutar o riso cristalino dos garotos no rio ou no lamacento campo de futebol?

Lento, surdo e cego, o homem caminhou até a birosca da esquina e ali se quedou a beber, enquanto o grande sol amarelo cruzava as cidades e os campos. Permaneceu calado e indiferente a tudo, até a passagem da carroça da prefeitura, com o caixãozinho na traseira, indo em direção à sua casa.

Então tomou de um só gole a canha que lhe restava no copo e avançou com passos firmes porque, pela primeira vez naquele dia, sabia de uma coisa que era realmente importante.

Quando reentrou na sala os defunteiros, cercados pela choradeira crescente das mulheres, já fechavam o caixão.

Sem dizer uma só palavra, insensível aos protestos de sua mulher e de sua mãe, o homem moreno pegou a urna branca com o corpo do filho. Caprichou nos gestos, queria que eles fossem serenos e elegantes. Colocou-a nos ombros e saiu para o pátio.

Depois, acompanhado apenas pela mulher e pela mãe, avançou pela trilha que leva ao matadouro desativado, a velha trilha batida pelos pés dos homens, porque nela podia andar com dignidade, sem tropeçar, sem cair. Foi de cabeça erguida.

Demorou muito mais para chegar ao cemitério, mas chegou, de qualquer jeito chegou porque tanto a vereda suave do matadouro quanto a rua esburacada levam até lá. Na verdade, toda a cidade desemboca lá.

O menino foi tranquilo nos braços do pai, e isso é o que importa.

Lourenço Cazarré é escritor

Publicado originalmente no livro Ilhados, em 2001 (WS Editor).