PAI, TU TÁ VIRANDO PEIXE

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PAI, TU TÁ VIRANDO PEIXE

Publicado originalmente no site www.paginaum.pt 

Lourenço Cazarré*

Agora que vivo aqui, cercado de morros, tranquilo, eu me limito a assistir ao desfile do tempo. Não ambiciono mais nada. Estou em paz comigo e com o mundo. Foi um longo trajeto o que me trouxe até aqui.

Tudo começou há quinze anos.

De repente comecei a sentir uma dor nas costas. Não era muito forte, mas era permanente. Toda manhã, ao despertar, eu já a encontrava deitada do meu lado. Ao longo de todo o dia, ela me acutilava por qualquer movimento brusco. Recorri ao primeiro médico e o tratamento que ele me indicou – remédios mais exercícios – não deu resultado. De vingança, a dor se tornou mais insinuante. Apresentava-se em todos os meus movimentos, mesmo os mais suaves. Fui a outro médico. A dor respondeu atacando-me durante o sono. Fui a um terceiro especialista.

No pior dos amanheceres pensei que jamais deixaria a cama. Arrastei-me até o guarda-roupa, vesti-me e implorei uma consulta de urgência a um acupunturista, indicado por um amigo. Sim, eu decaíra ao ponto de recorrer à feitiçaria.

– Corpo bom, mas tenso – disse o doutor Woo. – Foi magro muito tempo faz.

Sim, eu fora magro e ágil até os trinta anos. Alcancei o auge da minha forma física aos 18 anos, com 75 quilos, no Exército, quando assumi a muito honrosa posição de goleiro da equipe de futebol de salão do regimento. Aos trinta anos, depois de abandonar o cigarro, ganhei oito quilos num semestre. Dali em diante eu me contentei em engordar um quilo por ano.

Vestindo apenas cueca, deitado de barriga para baixo numa cama estreita e dura, eu pude ver, pelo espelho embaçado da cômoda, quando o doutor Woo me espetou no dorso e pernas uma dúzia de agulhas. Depois ele prendeu a cada uma delas a fios que saíam de algo que me pareceu, de início, uma caixeta de goiabada recoberta com papel negro.

– Não vai dói – encorajou-me.

Começou a girar lentamente um botão que havia na lateral da caixa. De imediato senti uma sensação de formigamento, que logo se transformou num choque elétrico mínimo, mas cuja intensidade crescia conforme se movimentava o pulso do chinês. Gemi quando aquilo me pareceu insuportável.

– Isso bom. Quando dói, senhor glita: pala!

– Para, para, para!

O acupunturista sumiu por trás da cortina florida que vedava o interior do apartamento e só reapareceu bem depois, quando eu mais nada sentia. Voltou a girar o maquinismo.

– Para, para!

– Pouco tempo gente costuma dor – esclareceu. – Mais dor até fim botão. Ninguém morre.

Preciso confessar que quando ele se aproximou da caixa preta pela terceira vez eu fechei os olhos, meio enlevado, já antecipando o prazer de uma descarga mais forte.

Uma hora depois, ao me vestir, eu não percebia nem sinal da dor que me atazanara a vida ao longo de tantos meses. Lembrei então de uma passagem bíblica – Levanta-te e anda! – ouvida nas missas da infância e quase chorei de alegria.

Depois de preencher o cheque, eu quis saber o que havia dentro da misteriosa caixeta. Levantando a parte de cima, o doutor Woo mostrou-me uma maçaroca de fios. Aquilo, explicou, produzia uma corrente elétrica de baixa voltagem. Perguntei então quando deveria voltar.

– Senhor precisa é nada piscina. Se nada, não volta casa chinês.

Entre a descrença e a displicência, comecei as aulas de natação.

A dificuldade inicial foi perder os maus hábitos que adquirira quando moleque. Eu havia aprendido a nadar em rio, tendo como mestres guris mais velhos que haviam inventado diferentes métodos de se manter à tona esmurrando a água.

– O senhor tem um estilo maravilhoso! – brincou o professor, no primeiro dia. – É o que eu chamo de nado parado no mesmo lugar.

Aos poucos, lentamente, fui assimilando os movimentos corretos. Entusiasmei-me quando alcancei os primeiros bons resultados em competições de amadores adultos.

Tempos depois, tendo perdido cinco quilos e constatado que conseguira me livrar para sempre da praga do sedentarismo, decidi mudar também minha alimentação. Abandonei as idas diárias a restaurantes, onde comia rapidamente tudo que me punham na frente, sem me preocupar em mastigar, e passei a fazer em casa demoradas refeições.

A perda de peso ganhou velocidade.

Passei a nadar todos os dias da semana, uma hora exata, a melhor hora do meu dia, das seis às sete da manhã. Inverno ou verão, lá estava eu de sunga, óculos e touca preta, deslizando de uma borda à outra da piscina aquecida.

Concentrado em ajustar cada movimento dos meus braços ou pernas às ordens gritadas pelo treinador, eu me esquecia deste mundo. Sim, meu maior prazer durante a permanência na piscina era o total afastamento deste vale lacrimoso. Só sei disso agora. Naquela época, eu me interessava apenas pelo ato de nadar: esforçava-me para deslizar com menor esforço e maior velocidade. Contava e recontava as braçadas e pernadas que me levavam de um lado a outro. E depois, descansando agarrado à borda, avaliava a pulsação, que sempre me parecia excessiva. Apesar do esforço, eu queria que o meu coração batesse como o de um homem que caminha por uma rua plana no início de uma manhã. Imerso no silêncio borbulhante da água azul, com meu corpo e meu cérebro unidos como nunca haviam estado antes, eu não pensava nem no meu trabalho nem na minha família. No tiro final de cinquenta metros, que encerrava a aula, eu dava tudo o que podia. Depois me deliciava com a sensação de total esgotamento físico.

Apesar dos avanços notáveis, tendo alcançado um tempo excelente para minha idade, eu saía contrariado da piscina, lamentando que dentro da água o tempo passasse tão depressa. Eu queria nadar ainda mais rápido. Para obter mais essa vitória, só havia uma solução: permanecer dentro da água mais de uma hora por dia.

Desencadeei uma manobra ardilosa para convencer minha mulher de que viveríamos bem melhor se trocássemos nosso apartamento no centro da cidade por uma casa num dos novos condomínios que começavam a se multiplicar em bairros afastados. Aleguei que, além de tranquilidade para estudar, nossos filhos teriam um lugar mais seguro para reunir os amigos nos finais de semana. E, se quisessem, poderiam praticar esportes. Natação, por exemplo.

Meses depois trocamos o apartamento por uma casa espaçosa, arejada, com ótima posição em relação ao sol, construída com tijolos à vista e muita madeira. Minha mulher, que gostava de “ambientes rústicos”, apaixonou-se e quis fechar o negócio imediatamente.

A uns vinte metros da traseira da casa, num patamar mais elevado, entre árvores copadas, a piscina era simplesmente maravilhosa. Suas paredes e fundo eram de pedras lisas de várias tonalidades. Um poderoso sistema de iluminação permitia que fosse usada à noite. Era larga e de bom comprimento. O antigo proprietário não havia economizado ao construí-la.

Mudamos no verão. Eu me levantava antes do nascer do sol e, depois de um iogurte com granola, caía na água. Nadava pesado durante duas horas. Sem que minha mulher soubesse, continuei matriculado na academia de natação, para aproveitar eventuais folgas no meio da tarde. No início da noite, antes do jantar, dava uns mergulhos demorados, boiava e fazia exercícios de hidroginástica. Comprei uma cama de ar e às vezes, nas noites de lua cheia, bebia um copo de suco de laranja deitado nela.

Certo dia minha filha me disse:

– Pai, tu tá virando um peixe.

Considero esse o maior elogio que recebi de alguém até hoje.

Quando o tempo começou a esfriar mandei instalar um sofisticado sistema de aquecimento, que operava tanto com energia elétrica quanto solar. Passei momentos muito ruins quando minha mulher descobriu que eu havia torrado uma pequena fortuna naquele equipamento.

– Isto tá virando uma obsessão.

– Uma obsessão saudável – retruquei.

– Não existe obsessão saudável.

– Tu tá com ciúme de uma piscina, mulher?

– Mulheres têm ciúme de tudo – respondeu. – Até de água.

Nos finais de semana, abandonei a demorada leitura dos jornais para ter mais tempo de intimidade com a minha piscina. Depois, exausto, estirado na rede montada na varanda, desatento ao que falavam ao meu redor, eu observava os raios do meio-dia tentando penetrar na superfície dançarina da água. E ficava furioso com o sol.

Mulheres são difíceis, especialmente se professam a crença nessa magia moderna que convencionamos chamar psicologia. Minha mulher era psicóloga, ganhava seu pão alugando os ouvidos a neuróticas abandonadas pelos maridos. Um dia ela descobriu que devia tratar-se a si mesma. Reconheço que nos últimos tempos eu andara empolgado demais com a minha performance aquática para perceber a erosão do nosso relacionamento.

Como costumava usar tampões de ouvido ao nadar, não escutei quando ela quebrou no piso do alpendre, um a um, os bibelôs que havíamos comprado em nossas muitas viagens ao exterior.

Naquele dia mesmo ela mudou-se para um apart-hotel caríssimo e contratou como advogado seu próprio irmão, o mais implacável profissional do ramo do direito que mais favorece às mulheres, o dos divórcios.

Quando saiu a decisão judicial, transferi meu escritório para a casa, o único bem que me restara. Entreguei à megera meu conjunto de três salas num dos edifícios comerciais mais valorizados da cidade, minhas aplicações financeiras e dois terrenos de praia.

O fundamental para mim era manter a piscina.

Demiti meus funcionários, com exceção da secretária, que passou a trabalhar na minha casa, e instalei um telefone fixo na beira da piscina. Quase sempre me bastava estender a mão para conversar com os clientes. Nem precisava sair da água. Para assuntos mais complicados, eu recorria a um roupão e a uma cadeira de praia colocada ao sol.

No dia em que fiz cinquenta anos subi na balança do banheiro e verifiquei que estava pesando os mesmos 75 quilos que tinha ao defender a goleira do meu regimento.

Os anos continuaram a correr, iguais. Meus filhos, que passaram a morar num apartamento luxuoso comprado pela bruxa que os gerara, de vez em quando vinham me visitar na casa. Mas, como não gostavam de entrar na água, suas visitas foram ficando cada vez mais espaçadas. O rapaz ingressou na universidade aos 17 anos. Dois anos depois, com a mesma idade, sua irmã o seguiu.

Eu só ia à cidade para resolver casos em que minha presença era indispensável. Para todo o resto, havia a minha secretária, mulher competentíssima. Quase sem perceber, aos poucos, rompi todos os meus vínculos com o mundo. Deixei de ir a aniversários, batizados, casamentos, formaturas e velórios. Recusei-me até mesmo a visitar amigos safenados.

Meu filho formou-se em Odontologia, foi contratado pelo Exército e hoje está destacado numa cidade do Amazonas onde só existem três automóveis. Minha filha graduou-se em antropologia, foi morar na Espanha e ganha sua vida servindo bêbados num restaurante de comida marroquina. Minha ex-mulher começou a namorar um jovem geriatra. Parece que intercambiam clientes.

Num dia chuvoso minha secretária e eu fomos à cidade e ingressamos com nossos pedidos de aposentadoria.

O processo não foi demorado, mas o valor que me estabeleceram como benefício foi decepcionante. Minha renda caiu de maneira acentuada, mas em compensação meus gastos também despencaram. E eu pude ter à minha disposição 24 horas por dia a piscina das águas azuis.

Vivi dois anos em estado de graça naquela casa, mas as despesas – especialmente quando se tem uma piscina iluminada e aquecida – sempre crescem mais rapidamente do que os reajustes do benefício de um aposentado.

Assim, me vi obrigado a vender a casa. Com metade do dinheiro que recebi, comprei este sítio e paguei à vista o chalé pré-fabricado de madeira.

É por isso que agora estamos aqui, muitos metros acima do nível do mar, respirando este ar puríssimo.

O chalé? Foi montado em três meses. Tem só um quarto e poucos trastes. Um sujeito como eu, que passa o dia na volta da piscina, quase não precisa de móveis.

Venha comigo. Venha ver a minha obra-prima. Está ali, depois das árvores…

Não, não foi difícil construir esta piscina. Bastou represar este córrego, que era pouco mais do que um fio de água. Veja o fundo: foi feito só com pedras da região. Ao contrário do que ocorria no condomínio, não gasto com iluminação, aquecimento e cloro. A água é corrente, se renova a todo instante. Sim, eu já me acostumei com a água fria.

À noite? Acendo umas tochas de cana. Mas você precisa ver as noites de lua cheia aqui! Não resisto. Venho para cá e nado até quase cair no sono.

Por falar em dormir, ontem sonhei que não possuía braços, mas nadadeiras, e que, no lugar das pernas, eu tinha uma poderosa cauda cintilante que me impulsionava e que determinava minha direção.

Pois é, todos que vêm aqui me dizem o mesmo. Acham que, entre um mergulho e outro, eu deveria me deliciar com a visão desses morros todos, desse verdor maravilhoso. Mas a verdade é que só tenho olhos para a água. Cumpriu-se a profecia da minha filha. Agora eu sou um peixe.

*Lourenço Cazarré é escritor

Publicado originalmente no livro Exercícios espirituais para insônia e incerteza, Editora Insular, 2022.