TREZE NO MUNDO DA COPA – MUITO PRÓXIMO DE UMA FRUSTRAÇÃO

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MetLife Estádio em Nova Iorque – New Jersey no dia da abertura da Copa do Mundo. Foto: Internet

MUITO PRÓXIMO DE UMA FRUSTRAÇÃO

Dos EUA – Paulo Gastal Neto*

Sinceramente vou colocar uma questão que carregava comigo. Um sentimento. Não estava levando a mesma fé de outras copas. Não sei se as questões envolvendo o conflito dos EUA com o Irã, as burocracias migratórias, enfim nunca senti um clima que pudesse se transformar em uma festa universal como presenciei na França em 1998 ou na Alemanha em 2026. Mas havia sim aqui nos Estados Unidos o sentimento de que essa seria a maior e mais lucrativa Copa do Mundo da história.

Um torneio com 48 seleções e espalhado por três países da América do Norte apontavam para ser um divisor de águas no imaginário da FIFA, que só tem cifrões em seu ideário. Mas não foi assim: a Copa nos Estados Unidos começou com um gosto amargo para milhares de torcedores e empresários do setor de turismo. Desde os primeiros dias foram demonstrados números aquém dos esperados. O entusiasmo inicial deu lugar a uma onda de frustração capitaneada por ingressos com valores astronômicos, investigações de órgãos de defesa do consumidor e uma demanda turística que ficou abaixo das projeções bilionárias. O futebol, historicamente conhecido como o “esporte do povo”, parece ter esbarrado na lógica implacável do mercado de entretenimento americano, voltado exclusivamente para vultuosos faturamentos. Torcedores de futebol nunca pagaram valores de um jogo da NBA, por exemplo.

O ponto principal de toda essa insatisfação por parte dos torcedores está uma decisão inédita da Fifa para esta edição: a adoção do modelo de preço dinâmico na venda de ingressos. O sistema é amplamente utilizado em shows de grande porte nos EUA. É um modelo que reajusta o valor das entradas em tempo real de acordo com a oferta e a procura. Na prática, o mecanismo inflacionou os custos a níveis sem precedentes. Em cidades de grande apelo turístico como Nova York e Miami, os bilhetes mais baratos remanescentes nas plataformas oficiais dispararam, superando a marca de US$ 1.000 (cerca de R$ 5,5 mil). A situação piora no mercado de revenda legalizada, onde os preços flutuam sem qualquer teto protetor ao consumidor, com ingressos que podem ultrapassar os U$ 7 mil dólares (cerca de R$ 35 mil).

Esses valores acabaram gerando uma insatisfação e a indignação foi tamanha que foi parar na esfera jurídica. As procuradorias-gerais de Nova York e Nova Jersey abriram uma investigação oficial conjunta contra a Fifa. Além do questionamento sobre os preços abusivos, as autoridades estão investigando relatos de torcedores que se sentiram enganados na escolha dos assentos. O órgão aponta que mapas de estádios, como o do MetLife Stadium, palco da grande final, foram alterados após o início das vendas, criando subcategorias mais caras dentro de setores que inicialmente eram considerados comuns.

A conta alta cobrada pela Fifa gerou um efeito dominó contrário para a economia local. O esperado “boom” no turismo internacional não se materializou com a força prevista. Companhias aéreas e redes hoteleiras nas cidades-sede registram uma ocupação abaixo das expectativas iniciais. O choque de realidade mais duro veio de Nova York. A associação hoteleira l de lá revisou suas projeções de público de maneira drástica: a estimativa inicial de 1,2 milhão de visitantes caiu em 60%, passando a esperar cerca de 500 mil turistas para o período do torneio.

Indicador Econômico (Nova York)Projeção Inicial da FifaRealidade Atual do Mercado
Fluxo de Visitantes Estimado1,2 milhão500 mil (Queda de 60%)
Preço de Entrada Mínimo (Sedes Principais)Setores populares acessíveisPróximo a US$ 1.000
Comportamento do ConsumidorViagens longas e estendidasOpção por transmissões locais e estadias curtas

 

Para além dos ingressos, os custos proibitivos de hospedagem e o transporte interno transformaram a jornada do torcedor estrangeiro em um desafio financeiro inviável. Ir a um estádio afastado dos centros urbanos, como o próprio MetLife em Nova Jersey, exige encarar tarifas de transporte que multiplicaram de valor nos dias de jogos.

Se o bolso dos torcedores sofre, a burocracia também não ajuda. Mais da metade dos países que se classificaram para disputar o Mundial exigem visto consular prévio para a entrada de seus cidadãos em território americano. Filas de espera extensas em consulados ao redor do mundo, taxas adicionais de emissão e o fantasma da negação do visto na última hora fizeram com que muitos torcedores latinos, africanos e asiáticos desistissem de planejar a viagem a tempo. Muitos preferiram guardar o dinheiro e assistir às partidas em destinos alternativos ou em grandes “Fan Fests” fora do eixo norte-americano.

A Fifa se defende sob o argumento de que seguiu práticas comerciais padrão e consolidadas no mercado de esportes dos Estados Unidos, prometendo que o faturamento recorde da edição será amplamente reinvestido no desenvolvimento do futebol globalmente.

Contudo, para o torcedor tradicional, o sentimento que fica é o de exclusão. A Copa do Mundo de 2026 cumpre seu papel de se consolidar como um sucesso financeiro bruto para as corporações envolvidas, mas falha em um quesito básico: a acessibilidade. Ao tentar transformar os estádios em arenas exclusivas para a elite econômica, o torneio corre o risco de ser lembrado não pela festa das arquibancadas, mas pelas polêmicas de bastidores e poltronas vazias devido ao preço do espetáculo.

*Radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br