ARTIGO – ‘EU NÃO TENHO MEDO’

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‘EU NÃO TENHO MEDO’

Ivon Carrico*

Em 1898, na França, o célebre escritor francês Émile Zola escreveu um artigo intitulado ‘J’accuse’ (Eu acuso), no jornal L’Aurore’, se insurgindo contra um processo escabroso, injusto, infame em desfavor do Capitão Alfred Dreyfus, então acusado de traição por, supostamente, fornecer informações sigilosas à Alemanha.

Na ocasião, foi imensa a repercussão política, social e jurídica deste artigo tratando-se, na realidade, de um libelo contra o estado de coisas reinante na França, onde grassava a corrupção, os desmandos, a desordem.

Difícil imaginar, todavia, que a República Francesa – egressa da inconteste Revolução e, que contemplara o mundo com o famoso lema Iluminista (Liberté, Égalité et Fraternité) – pudesse escamotear com esse ideais – tão duramente, validados em 1789 – para se lançar em desmedidas aventuras institucionais.

Já, nesta Terra de Santa Cruz, depois de uma sucessão de golpes militares, após a Proclamação da República, com – ainda – inomináveis insurreições, desordens, parecia (como em 1789, na França) que – em 1988 – finalmente o Brasil conquistara a maioridade, digamos, institucional quando da implantação do Estado Democrático de Direito, trazida pela nova Carta Constitucional, sob os auspícios do nosso Ulysses Guimarães.

Entretanto, como na terra do Montesquieu – aquele da tripartição do Poder, hoje aqui ignorada – o que se tem visto, dentre outros, por estas latitudes, após a promulgação da Constituição Cidadã – em 1988 – é um estado de coisas que privilegia uma desenfreada corrupção e desmandos nos 03 níveis e esferas de Poder, causada por falhas estruturais e pela omissão crônica dos poderes públicos em estancar a impunidade.

Isto posto, as palavras ontem proferidas pelo Ministro/STF, André Mendonça, durante Julgamento da Segunda Turma, em que afirmava não ter medo por se insurgir contra as tantas iniquidades que ora acometem a governança nacional, parecem – em síntese – com o famoso libelo do Zola. Como lá, tomara que por aqui – também- produza consequências.

*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. Brasília – 24/06/2026