TEMPOS VAZIOS

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TEMPOS VAZIOS
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Clayton Rocha*
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Um lampião dos velhos tempos em busca de sinais de “Luz”.
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Um homem maduro, diante de muitos jovens de hoje, capta o silêncio, percebendo no interlocutor que esse silêncio repassa uma expressão de desprezo. E também percebe que esse desprezo é pílula amarga, que se pode engolir, mas que não se pode mastigar sem fazer caretas.
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Cabe perguntar, nestes tempos de tantas e assustadoras interrogações, quanto ao futuro no “curto prazo”. O que seremos, todos nós, jovens, adultos, maduros, pessoas de alta idade, dentro de uns cinco anos?
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Observa-se que frieza absoluta, deboche, indiferença, ausência de memória, preocupação exclusiva com as novidades da vida moderna – esta dominada pela Internet – são sinalizadores de que computadores, redes sociais e celulares, além da inteligência artificial – já ocuparam em definitivo as vitrines do mundo.
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Afinal de contas, que tempos são esses? observa-se que a conversa construtiva e elevada entre as pessoas é o que menos importa, na medida em que o telefone celular tornou-se o mais importante ” órgão” do corpo humano. Sem ele, a frieza é absoluta. Sem ele por perto é como se a vida não tivesse mais sentido.
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Fico a imaginar os velórios do futuro – no curto prazo – tudo via Internet: na tela do Facebook uma foto do falecido, mais uma vela acesa e um pequeno vaso de flores. Além daquela pergunta necessária: – Quem se fez presente? Ora, ora, centenas de pessoas nesse moderníssimo velório digital, valendo destacar aqueles que o curtiram, os que se solidarizaram através de mensagens generosas e sentimentais, mais os compartilhamentos, inúmeros também, e capazes de testemunhar o quanto o morto era venerado pelos seus afetos de todas as idades.
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Outro precioso item, caro leitor, volta-se ainda para a economia de palavras (num sinal de inflação quase zero!), por conta dessa pressa do mundo moderno, a cada dia mais incontrolável. Não se tem mais tempo a perder, na medida em que se deve eternizar o minuto seguinte, sempre tão decisivo numa vida miseravelmente efêmera. (Daí a força de expressões tipo: Oi, Falou, Aí Mano, Até Mais….)
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No quesito “sentimentos” humanos, e nestes tempos estranhos, constata-se – tristemente – que nada devemos ao conteúdo de um freezer, ocupado permanentemente pelo gelo endurecido e frio. E se o silêncio também é uma expressão de desprezo, vale lembrar que a falta de coração desconsidera e humilha o seu próximo. Imagine-se então esse nosso futuro no curto prazo, quando casas de geriatria, enfermarias, asilos, bibliotecas, casas de mendigos, quartos de hospitais e até mesmo um Pronto Socorro tornarem-se ambientes indigestos, tipo ” nesse endereço eu não entro” pois me causa náuseas.
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Vamos testemunhar, em breve, a esmagadora vitória de uma juventude que acha que tudo sabe e que tudo pode – salvo exceções, evidentemente – e imaginando-se muito à frente de uma “maturidade” que se tornou “cansativa e desinteressante”.
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Anote em sua agenda: – Esse curto prazo reservado a essas impactantes mudanças nos faz pensar, já a esta altura, no alto risco das facilidades modernas, capazes de congelar sentimentos, em nome de uma soberba e de uma arrogância indesejáveis diante da brevidade da vida.
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A propósito destas confissões, aproveito o ensejo para expressar aqui um sentimento muito presente: – Eu já me sinto deslocado neste emblemático Século XXI. (CR).
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*Jornalista e coordenador do Treze Horas
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