
O BANIMENTO DO FILÓSOFO
Lourenço Cazarré*
Solta o copo e te levanta! Tu não vais tomar mais uma gota desse suco. Faz o que estou mandando! Isso.
Agora, anda para o quarto.
Nosso quarto? Desde quando tu tens alguma coisa neste apartamento?
Não, não responde. Não quero ouvir mais uma só palavra dessa tua boca suja.
Vamos, não para nem fica me olhando com ar de pateta. Tu deves saber o que aconteceu. Alguém do edifício me contou o que tu fazes quando estou fora. O que fazias, porque agora nunca mais vais fazer nada.
Não te vira! Não me olha! Não quero teus olhos em cima de mim.
Não tenta falar comigo!
Eu jurei para mim mesma que não gritaria. Seria apenas mais uma humilhação. Os vizinhos não precisam saber de nada. Não, não haverá barraco no apartamento da doutora. Tu simplesmente vais apanhar as tuas coisas e sair. Discretamente.
Vamos, entra no quarto!
Não tenho tempo a perder. Esqueceu quanto eu ganho por consulta? Esqueceu que eu faturo num dia o que tu ganhavas num mês antes que eu passasse a te sustentar? Quero perder três consultas no máximo para me desfazer de ti. Mesmo assim é muito dinheiro para um chinelão como tu.
Depressa! Sei que tu és lento de raciocínio. Percebi já nos primeiros dias, mas sentia peninha de ti, o pobre professor que precisava dar aulas numa escola de periferia.
O quê? A gente se gostava? Eu deixei que tu viesses morar aqui para economizar. Como amante fixo tu me saías mais barato.
Vamos começar pelas tuas cuecas imundas, mas pega só duas! Todas essas foram compradas por mim. Então, leva duas e deixa as outras que eu vou queimar. Lembra da cueca que usavas na primeira noite? Desbotada, elástico frouxo. Aquilo me comoveu. Como pude ser tão idiota?
A verdade é que eu nunca havia transado com um sujeitinho da tua classe. Nunca havia sentido pena de homem nenhum. Mas tu eras um professor de Filosofia! Trabalhavas numa escola dos cafundós porque querias ensinar os jovens marginais a pensar sobre as grandes questões da vida humana. Comovente.
Lembra do susto que tu levaste quando chegou a conta do restaurante naquela primeira noite? Não? Pois eu lembro muito bem, com raiva. Eu estava bêbada, sim. E necessitada de homem.

Não, não, essa mochila fica no armário. Vais levar tuas coisas numa sacolinha de plástico.
Eu não podia imaginar que tu, um homem de quarenta anos, não bebia. Por isso, acabei tomando quase toda a garrafa sozinha. Era uma noite de lua cheia e eu fiquei pateta. A falta prolongada de macho faz muito mal a uma mulher sadia de trinta anos.
Agora, as camisas. Pega só as antigas, as tuas, porque as que eu comprei com o meu dinheiro vão para o porteiro.
Não canso de me perguntar: como foi que entraste nessa, Beatriz? Como foste te juntar a um pé-rapado?
Conversar? Olha, eu te disse para não abrir a boca. Cala e escuta. Tu não tens ambição. Tu és um merda, como diz meu pai. Tu não tens onde cair morto. Mas filosofas, vives te fazendo grandes indagações. Depois da morte, vamos para onde? Respondo: tu vais ser enterrado na vala dos indigentes.
O amor que havia entre a gente? Nunca houve amor entre nós. Havia sexo. Sexo mais ou menos. Para transar legal é preciso imaginação. Mas tu és um vegetal. Agora, reconheço, tens uma vantagem: demoras para terminar o trabalho. Nós, mulheres, gostamos disso, do ato demorado. Faz com que a gente se sinta importante. Afinal, os homens nunca nos dedicam nenhuma atenção. Conheço meia dúzia de mulheres que gostariam de trepar contigo, o moreno dos cabelos encaracolados. Até pagariam, como eu. Mas eu quero que vás te prostituir longe de mim.

Não! A calça Levis nem pensar! Ainda não está paga. Falta uma prestação. Antes, compravas roupa nas feiras, lembra? Batas indianas, calças de saco de farinha, sandálias de couro. Eu fiquei com peninha. Um pobre professor meio comuna dedicado a tirar a gurizada das garras do tráfico.
Êpa, o cinto, não! Deixa também! É couro legítimo. Tu só levarias se fosse para te enforcar com ele.
Agora, admito que fiz mal para ti. Tu eras puro e eu te corrompi. Aprendeste a usar roupas decentes, foste pela primeira vez ao teatro e viste bons filmes. Viajaste de avião e conheceste Santa Catarina. Infelizmente, agora, tu vais ter que voltar para a rua esburacada onde mora tua mãe. Um homem de quarenta anos!
O que aconteceu? Não me faz essa pergunta que eu fico louca! Sou capaz de quebrar um vidro de perfume na tua cara de pau! Não sabes, não sabes mesmo? Pois eu vou te dizer.
Aqui neste edifício moram algumas senhoras idosas. Pois bem, uma delas me escreveu uma carta. Mas não colocou no meu escaninho porque imaginava que tu poderias pegar antes de mim. Essa senhora foi até o centro e entregou a carta na portaria da clínica.
Tu queres saber o que está escrito nela? Nem imaginas! Pois bem, ela me escreveu que tu passas as manhãs num banco da praça, perto dos brinquedos das crianças, fingindo que lê. Isso mesmo, fingindo! Mas o que tu fazes mesmo é espichar os olhos para o rabo das babás.

Não, não é só isso. Ela te viu beijando aquela indiazinha que trabalha no quarto andar.
Não aconteceu nada entre vocês? Não sei nem quero saber. Pode ser que sim e pode ser que não. Mas tem também o caso da coroa do sexto andar, a miss botox. Aquela que tem uma cara que é um mostruário de cirurgias plásticas. A minha informante te viu saindo do apartamento dela com as bochechas vermelhas. Que consertar a pia? Tu foi desentupir outra coisa.
A jaqueta tu podes levar. Para não passar frio no casebre da tua mãe. Olha a etiqueta! Conhece o jacaré? É Lacoste. Tu levarias cinco anos para pagar uma dessas.
Pronto, vamos ao banheiro.
Assim que saíres, vou desinfetar a casa toda.
Pega só a escova. De pasta tu não precisas. Podes escovar os dentes com sabão, seu mentiroso.
Pronto, agora, saindo. Vamos para a sala. Porta da rua, serventia da casa. Isso dizia minha mãe: porta da rua, serventia da casa.

O quê? Dinheiro para o ônibus? Estás debochando da minha cara?
Vai caminhando. Tu não és contra a poluição? Os ônibus poluem muito. Daqui até o muquifo da tua mãe são só uns quinze quilômetros. Podes ir filosofando. Tu não vives querendo saber qual é a finalidade da existência? Quando chegares lá, já terás descoberto que, para cretinos como tu, o fim último da existência é viver na merda.
*Lourenço Cazarré é escritor
(*) Do livro Exercícios espirituais para insônia e incerteza, Editora Insular, 2023.











