DISCURSO NA CÂMARA DE VEREADORES DE PORTO ALEGRE – AYRTON SENNA, SETEMBRO DE 1994.

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Clayton Rocha e Neyde Senna da Silva

AYRTON SENNA, Setembro de 1994.

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Discurso proferido por Clayton Rocha em Porto Alegre.
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Incumbido pela família de Ayrton Senna e, por motivos de foro íntimo, cabe-me  agradecer a homenagem que esta Casa presta não apenas  a um símbolo do esporte brasileiro, mas a uma bandeira de restauração do espírito de cidadania de que tanto a nós carece nesta quadra da história.
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Determinam as normas deste ato que, ao homenageado, ou a quem o represente, se conceda o direito do manifesto de agradecimento. Assim sendo, em nome da Família de Ayrton Senna e do legado que ele nos deixou não mais me compete, neste instante, senão constatar que daqui para a frente estaremos definitivamente unidos nas causas que nos são comuns.
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Um homem determinado a dar à vida o sentido que o melhor da sua consciência lhe indicava, pela sua força de vontade, pelo seu idealismo, pela ideia do que representava no plano coletivo, fez-se por inteiro a alma dos seus conterrâneos, a nossa marca, o nosso símbolo, os nossos sonhos de conquista: fez-se NÓS!
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Pelo papel que desempenhava, ele sabia que a vitória era o risco de derrota que podia ser vencido pela criatividade e pelo talento, e que, da mesma maneira, enfrentar o risco de morte era, portanto, a aceitação da própria vida. Assim deu asas ao seu idealismo movido pela convicção de que, embora solitário, ele era MILHÕES confinados num cockpit, projetando a pátria sobre quatro rodas.
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Ciente dos desafios e das armadilhas de percurso, Senna continuará sendo um exemplo de como se persegue o amanhã. E esta é a consciência que permanece no seio de sua própria família, cuja missão é a de manter vivos os seus ideais e acesa a chama de suas mais nobres causas.
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As homenagens que ora são prestadas à sua memória, e que se verificam desde  1º de maio último em todo o mundo, representam a UNIVERSALIZAÇÃO de sua vitória, que foi partilhada com multidões que vibravam  com ele, por mais diferentes que pudessem ser os fusos horários, VIVENDO em todos, em um momento só, em um instante mágico, de identificação e de vibração, a confraternização espiritual em seu triunfo. E foi desse modo que ele, em diferentes cenários, com elegância de estilo e sem necessidade de correção, soube superar os limites, na integração do homem e da máquina, tendo o tempo como desafio; o cronômetro como registro da marca; e o espaço como a ambiência para a expressão da genialidade.
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Por estas razões ele tinha consciência de que aquela interação era tão plena e espontânea, que valia, no Brasil ou fora dele, por todos os pódiuns,  troféus, poles e títulos que pudesse conquistar. Senna sabia, como muitos de nós, que o futuro vale a pena e que, mesmo diante dos obstáculos e do imponderável, era preciso desenvolver um esforço original que prosperasse no desejo e na audácia; na coragem que não teme os riscos; na honra que é sempre resplendor do sacrifício; e na certeza absoluta de que toda imagem a forte se realiza!
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Senhores parlamentares: nesta oportunidade, em nome do Instituto Ayrton Senna, por solicitação de sua Presidente, desejo destacar, pelo que esta data expressa, as ações iniciais que foram empreendidas em São Paulo, desde 21 de março último, quando as duas primeiras obras sociais, o projeto Nutrir e o projeto Esporte-Talento, foram implantados no Brasil, atendendo a um antigo desejo daquele que hoje é reverenciado neste Poder Legislativo. Esta foi a maneira escolhida pela Fundação Ayrton Senna, sediada em Londres, e pelo Instituto Ayrton Senna de São Paulo, para manter acesos os ideais de alguém que viverá para sempre na consciência nacional graças ao espírito visionário que aguçou sua sensibilidade para os problemas de cunho social de seu país.
Senhoras e senhores,
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Em nome de Milton Theodoro da Silva e de Dona Neyde; de Leonardo e de Viviane, recebam, por meu intermédio, sinceros agradecimentos pela iniciativa desta homenagem – fortalecida na unanimidade de seus pares a aquele que, ao empunhar a nossa bandeira, traduzindo os mais nobres sentimentos da nacionalidade, e eternizando nesse gesto a nossa autoestima, não o fez apenas por si, mas por todos nós!
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Senhor Presidente: Em seus sonhos mais elevados, e por tantas vezes sonhados, Ayrton deve ter norteado o seu rumo através daquelas estrelas que, em velocidades impressionantes, riscam o céu, e em uma fração de segundo exibem um generoso traço de luz, desaparecendo depois.
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DEUS SABERÁ SE – por persegui-las – vendo nelas uma forma de perfeição, ele próprio ascendeu ao firmamento singular dos nossos ídolos mundiais num arremesso vertical, em busca do laço divino, com a inadiável urgência de um apelo.
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