
VIVENDO EM MUNDOS PARALELOS
Rubens Spanier Amador*
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Algo mudou seriamente na relação entre o jornalismo e a população pelotense.
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Até há cerca de 15 anos, havia interesse nos assuntos que diziam respeito à cidade. Antes uma mera notícia de buraco, e nem precisava ser o negro, atraia a atenção dos habitantes. Agora, diante de um caso de corrupção na saúde, ninguém dá a mínima.
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Não é uma situação exclusiva de Pelotas, mas do mundo. Talvez nós apenas sintamos seus efeitos de forma mais drástica, por razões de ordem econômica e social.
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Houve uma cisão no vínculo entre as pessoas e o meio em que vivem. Um corte entre elas e a vida social. O espaço, antes público, agora parece ser de ninguém.
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A razão disso parece ser as novas tecnologias de comunicação. Ao darem amplo acesso ao mundo virtual, elas nos distraíram das questões reais.
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Outra razão é que, ao menos naquilo que é essencial, nada muda na realidade, se é que muda. Os problemas se repetem sem solução, fatigando a vida.
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Como a dinâmica da cidade não responde como deveria, as pessoas estariam buscando compensações imediatas no ambiente virtual, à disposição na palma da mão, muito mais recompensador.
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No mundo moderno, as pessoas não habitam mais as cidades, elas estão habitando um mundo virtual, onde não há as frustrações. Onde a “realidade” é paralela, fácil e de gratificação instantânea.
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Antes, quando iam a um restaurante, as pessoas conversavam mais. Agora ficam absorvidas pelos celulares, navegando nas redes, falando pelo WhatsApp. Andamos concentrados demais em nossa vida pessoal. Abduzidos demais pelos temas do nosso interesse, retroalimentados minuto a minuto pelo algoritmo.
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Antes vivíamos num mundo de trocas diretas entre as pessoas. Hoje habitamos numa “nuvem”, no cyber-espaço. Andamos cada vez mais parecendo com o personagem Thomas Anderson, do filme Matrix. Conectado por cabos a um imenso sistema de computadores do futuro, ele vive literalmente em uma realidade paralela.
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Isso daria uma ótima pauta jornalística, mas eis a questão. Ainda interessaria a alguém?
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*Jornalista, editor do site www.amigosdepelotas.com.br











