UM MAGNÍFICO ESPETÁCULO DE AVILTANTE BAJULAÇÃO – UM CONTO DE LOURENÇO CAZARRÉ

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Na foto: o jornalista e escritor Lourenço Cazarré. Credito: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia – DF

Um magnífico espetáculo de aviltante bajulação

Lourenço Cazarré*

– Mãe, o pai chorou!

– Não me diga – a mulher fecha o livro.

– Foi quando parou de cavar – diz o rapaz em voz baixa, inclinando-se em direção à mulher.

– Não acredito – a mulher passa a mão pelo rosto do filho.

– Pois a senhora pergunte a ele.

– Vou ao banho – diz o homem, atravessando a sala a passos largos. – Não nasci para coveiro.

– Me conte o que aconteceu – pede a mulher num sussurro.

– Foi muito rápido – responde o rapaz. – O pai passou a mão nos olhos, mas eu vi as lágrimas, poucas.

– Seu pai chorando? Por essa eu não esperava.

A grande cadela maluca corria que nem uma degenerada. De um salto saía da sua casa e zunia rente ao muro com a vizinha e dobrava à esquerda e cravando suas garras poderosas no chão pelado atravessava os dez metros até a esquina e quebrava mais uma vez à esquerda chispando junto à cerca gradeada, ao fim da qual encerrava sua exibição de fúria e perplexidade. Ainda latindo, ofegante, voltava então para sua casa, construída sob a amoreira.

A grande cadela maluca tinha o pátio a seu dispor, mas preferia preguiçar dentro de sua casa. Estendia-se sobre a frescura do piso de cimento alisado, a cabeça próxima da abertura, apoiada nas patas dianteiras. Piscava para a claridade e bocejava. Mordia o ar quente na tentativa de caçar moscas insidiosas. Após a pancada seca dos dentes se chocando, sacudia vigorosamente a cabeça. Moscas do diabo!

De vez em quando, porém, havia um dos tais espetáculos.

Bastava alguém costear o muro do fundo do pátio falando alto ou rindo. Para quê? Esquecida das moscas, ela arrancava para mais uma demonstração de força, velocidade e indignação. Quem era o desaforado que se atrevia a romper o silêncio daquele canto calmo da cidade? Vinham latidos estrangulados pelo espanto e pela ira. Vais e vens de tontear. Repulsa colérica daquela monta, no entanto, não podia durar muito. E ela se dirigia à vasilha de água, mantida sempre na sombra, ao lado da casinha.

No fim da tarde descia da escola uma garotada vasta, de toda espécie. Havia as criaturas muito pequenas que se agachavam e colocavam as mãozinhas pelo meio das grades para receber o carinho gosmento da longa língua vermelha. Havia diabretes maiores que gostavam mesmo era de bater com força as mãos abertas na chapa de metal da cerca para endoidecer a cadela, que de calma não tinha nada. A pobre não sabia o que fazer. Acarinhava as vacilantes mãozinhas assustadas ou latia para a barulhada dos mais taludos?

– A Pirata, cachorra louca! – gritavam os galalaus depois de estapearem o metal sonoro.

– A Piratinha – balbuciavam os pequeninos, entre exultantes e enojados, retirando a mãozinha lambida.

– Vamos chamá-la Pirata – disse a mulher.

– Isso nunca – retrucou o homem. – Não pode ser Pirata porque não tem jeito de cachorra macha. É frouxa, não agüenta cócegas.

– Vai ser Pirata – insistiu a mulher. – O apelido é perfeito. Olha só este olhinho.

O homem pegou a cadelinha e aproximou seu rosto anguloso do trêmulo focinho úmido. Impressionante a negra mancha que circulava o olho esquerdo.

– É um tapa-olho perfeito! – voltou a mulher. – Pirata!

Os olhos míopes do homem, aumentados pelas lentes grossas, assustaram a coisinha branca pintalgada aqui e ali por bolinha negras, que se pôs a ganir.

– Podia ser Maria Bonita – disse o homem. – No cangaço havia mulheres machonas. Eram ainda mais cruéis que os homens.

– Pirata – teimou a mulher. – Ela nasceu com uma cara perfeita para receber esse nome. Pirata.

– A Pirata – concordou o homem. – Eu cedo. Mas para mim ela será sempre A Pirata. Pirata só se fosse macho, mas não é. A Pirata.

A cadela de pernas altas e musculosas em que aquele nada de filhote se transformou era apaixonada pelo menino da casa. Não digo que desprezasse os adultos e as meninas, apenas não prestava muita atenção a eles.

Quando o menino surgia no pátio, ainda vestindo a farda do colégio, ela encenava seu melhor número: um magnífico espetáculo de aviltante bajulação.

Para começar, enterrava a cara na cerâmica fria da varanda. E com um olho só, desconfiado e brincalhão, observava o recém-chegado. Esperava que ele abaixasse para então saltar e escapar-se do abraço dele. A Pirata, sua doida. Fingia-se de morta, focinho sobre as patas. A sua segunda fuga da tentativa de carinho era ainda mais espetacular. A bem dizer escorregava por entre os braços do garoto, dava-lhe uma lambida gosmenta na bochecha e chispava para o centro do pátio. Ali, latia furiosamente diante do ataque de incontáveis inimigos invisíveis. E, para livrar-se deles, encenava as mais estrambóticas performances sobre a grama. Exibia dentes e garras, rosnava, unhava chão e ar. Mas, de repente, imobilizava-se, exausta. Admitia, por fim, o exagero cenográfico. Envergonhada, baixava a cabeça e varria o chão com as orelhas. A imobilidade, porém, não se delongava. A cadela encostava-se à pitangueira e roçava com gosto e vigor o lombo lustroso. Era o patético ponto final. Dali em diante, dedicar-se-ia a receber as carícias do menino, latindo mansamente aos pés dele.

Um dia, anos depois, a cachorra ficou velha.

Não corria mais pelo quadrilátero do pátio. Não latia para ninguém, nem mesmo para os moleques nojentos que esmurravam a chapa metálica. Penava para subir os degraus que lavavam à varanda. Não mais abocanhava moscas. Dormia onde caía. As pessoas batiam à porta da casa para avisar que a coitada, caída no meio do pátio, sob um sol tenebroso, estava tentando se levantar e não conseguia. Não se exibia mais para o menino porque ele, já meio rapaz, de penugem acima dos beiços, não descia mais ao pátio depois da escola.

– Ontem eu vi um rato enorme comendo a ração da Pirata – disse a mulher. – Ela deixou que ele comesse o quanto quisesse.

– Chegou a hora – retrucou o homem. – Vou comunicar essa triste verdade ao proprietário da besta.

O rapaz não quis conversa.

– Que história é essa, pai? Matar a Pirata?

– Matar, não. Sacrificar é palavra mais ajustada.

– Nunca.

– Nunca diga nunca. Você já deve ter ouvido esta frase ridícula e certeira: nunca diga nunca.

– Nunca.

– Então vá ao pátio – disse o pai. – Da varanda observe a cachorra. Verá que não corre mais, se arrasta. Verá que não presta atenção às crianças da escola. Verá que fica onde cai porque não consegue mais se botar sobre as patas. Ela está viva, porém morta. Isso acontece também com os homens. Muitos morrem antes de perder a respiração. A cadela já não enxerga mais os ratos, nem sente a catinga deles.

Certa tarde veio o veterinário. A palavra nunca fora afastada.

Aconteceu debaixo da pitangueira.

O doutor explicou tudo direitinho.

– A primeira injeção é para que ela não sinta dor.

A grande cadela magra e ossuda estava deitada sobre as pernas do rapaz que, sentado no chão, recostado contra o tronco da pitangueira, tinha a cara tisnada de tristeza.

– A segunda injeção arrefecerá os batimentos do coração dela.

O rapaz aquiesceu com um vago gesto de cabeça.

Foi o que ocorreu. Duas agulhadas. O batuque do coração se enfraqueceu aos poucos. Devagar.

De repente, a grande cadela branca com tapa-olho preto de flibusteiro não estava mais entre os vivos. Repousava deitada no chão umbroso, a cabeça no colo daquele que fora seu pai e sua mãe, um rapaz que um dia fora um menino. A grande cara comprida, espichada pela magreza, exibia para quem quisesse ver a pinta negra perfeitamente redonda em torno do olho esquerdo.

– Deixe comigo – disse o pai. – Ela vai ser plantada ali onde parava a fim de lamber as mãos das criancinhas.

O enterro foi naquela noite.

– Para onde vão as almas dos animais? – quis saber o rapaz, que segurava a lanterna.

O homem parou de cavar. Enterrou a pá no montículo de areia fofa. Passou as mãos pela base das costas. Buscou um cigarro no bolso da camisa. Riscou o isqueiro.

– Sim, senhor, isso é o que eu chamo de bela pergunta. Pois eu vou lhe esclarecer o que se passa com o espírito dos cães falecidos. Vão para um lugar onde há muita água e pouco inseto. Várias vertentes, nem mosca ou pulga. Lá, como ninguém lhes dá comida, voltam a caçar. Apanham bichos pequenos que se entocam nos morros. Preás. E correm e deitam-se à sombra das grandes pedras ou rente ao calor dos fogos de chão.

O rapaz movimentou a lanterna. O homem passou a mão pelo rosto, indicador e polegar drenando os olhos úmidos, e depois acabou de agasalhar na terra o corpo ossudo.

Lanterna apagada, o rapaz saiu na frente a passos ligeiros.

Na sala, aproximou-se da mulher que estava sentada no sofá, iluminada pelo abajur de pé, lendo um livro.

– Mãe, o pai chorou!