ARTIGO – TRIBUTO A EDMAR FETTER

56

TRIBUTO A  EDMAR FETTER

Por Clayton Rocha1998

Foi Prefeito em 1963 e Vice-Governador em 1970. Marcou época na história política de Pelotas e seus ideais sobrevivem. Ensinou-nos, em sua caminhada, que a obtenção da confiança antes do triunfo é a obra política mais difícil. E mostrou-nos, em seu início de mandato, que um governo recém nascido deve deslumbrar. Entre 1963 e 1969, na condição de Prefeito de Pelotas, e entre 1971 e 1975, exercendo o cargo de primeiro Vice-Governador da história do Rio Grande do Sul, reforçou a ideia de que a administração pública deve ser uma contínua demonstração.

O prefeito Edmar Fetter ao lado do Bispo Dom Antônio Zattera na inauguração da Rádio Universidade em 1967. Ao fundo o jornalista Jandir Barreto, ‘a primeira voz da RU!’

Austero, firme, líder inconteste, valorizou o cargo de Prefeito e honrou o Partido Libertador através de uma trajetória sem máculas. Sua carreira foi pontilhada por grandes atitudes e, durante o  processo sucessório gaúcho de 1975, quando esteve no centro dos acontecimentos, sendo quase uma unanimidade, posicionou-se com rara dignidade ao suportar uma rejeição furiosa e inédita, promovida pelo Governador Euclides Triches.

Parece-me correto afirmar, vinte e três anos depois daquele episódio, que Edmar Fetter sofreu, em 1975, uma derrota apenas momentânea, na medida em que as consequências daquela crise política o inseriram nas páginas das grandes injustiças da história  do Rio Grande. Penso que uma avaliação distanciada no tempo, descomprometida com o traço ideológico, à margem das paixões vividas naquele período, preocupada tão somente com o resgate de seu vulto político, permite afirmar  que a sua postura, a sua retidão de caráter e a sua capacidade de tolerância o engrandeceram de tal forma que, mesmo aos olhos de seus adversários, saiu ele fortalecido da alta traição política, tendo escrito uma significativa página sobre postura ética, desapego a cargos e preservação da honradez, numa lição que soube dar com o próprio sangue de seu sacrifício político.

Procurando entender o seu gesto,  faz sentido lembrar, a esta altura, a escola política de Edmar Fetter. Nela, havia uma legenda chamada Carlos de Britto Velho, cuja dignidade nos mostrava que a fôrça mais poderosa de todas é um coração inocente ! Além deste símbolo de uma época de ouro, despontavam nesta escola  outras  figuras exemplares e retilíneas que se assinavam Mem de Sá,  Raul Pilla,  Anacleto Firpo, Décio Martins Costa e  Luis Fernando Cirne Lima, para ficar apenas nestes nomes. Eram chamas acesas que iluminavam a consciência política do Rio Grande daqueles tempos.

Sintonizado em pensamento com esses vultos, e num outro  momento de sua vida pública, Edmar Fetter mostrou que os seus princípios eram inarredáveis. Ao receber convites para ser Prefeito de Porto Alegre, Secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul, Presidente do Banrisul, ou detentor do cargo que desejasse no Governo de Sinval Guazzelli, o líder pelotense registrou a sua marca de político superior: nada quis. A não ser retornar à sua terra,  à sua família e à sua empresa, porque este  era agora o seu mundo, ao qual se recolheria, em nome de todas as suas convicções. Ele, que era aluno de uma escola de homens de palavra, e que sofrera duro golpe, voltava-se agora  para o recolhimento e a meditação. Era hora de encerrar a carreira política e a decisão estava tomada. A sua vontade interior dirigiria o seu destino naquele instante. Fetter sabia que cada homem deve inventar o seu caminho.

Mozart Víctor Russomano, em homenagem a Edmar Fetter, destacou o exemplo que ele deixou  de rígida fidelidade partidária. E expressa o quanto ele foi  solidário com os seus amigos, e leal com os adversários. Honesto na vida pública, cheia de lutas, foi igualmente honesto nos empreendimentos da vida privada. Pautou sua conduta por princípios inflexíveis e, em nome deles,  de alma leve, renunciou a importantes cargos que estavam ao alcance de sua mão. Pelo mesmo motivo, perdeu outros cargos, a que almejava firmemente, para os quais não lhe faltavam títulos. Como acontece com todos nós, lembra Russomano, Fetter equivocou-se, algumas vezes, na avaliação daqueles a quem ajudou. Nunca deixou, por seu turno, de lembrar os que lhe tivessem, algum dia, prestado qualquer tipo de auxílio. Sabia ceder, pelo bem público. E fazia-o com o mesmo desembaraço com que não transigia nas horas incertas da vida. Edmar Fetter tinha, na visão do ex-Presidente da Organização Internacional do Trabalho, as qualidades pessoais e cívicas que, hoje, faltam à generalidade dos políticos brasileiros.

Em 1980, quando Guazzelli, fazendo-se acompanhar deste jornalista, rendeu-lhe um tributo, indo ao endereço de seu recolhimento para externar-lhe  o reconhecimento do Rio Grande, notei que o ex-Governador que o visitava reverenciava, naquele instante, uma trajetória exemplar. E Edmar Fetter compreendeu aquele gesto. Não havia mágoa sendo expressada em sua fisionomia. O que havia era apenas silêncio político. E compreensão de todas as coisas, tanto tempo depois. Ele carregava consigo a convicção de que cada idade atribui ao homem um papel diferente. E, de resto, anfitriões de sua estirpe receberiam sempre os seus visitantes com dignidade. Vendo-o, naquele dia, compreendi  que o coração de um homem nunca envelhece. Basta um sorriso, um nada, um alvoroço, um gesto de justiça,  e tudo nele se ilumina e aquece.