ARTIGO – TREZE

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TREZE – Pedro Moacyr Perez da Silveira

Microfones à frente, távola abaulada, cantos imprecisos, lugares sem dono, pessoas passageiras e personagens que se engastam nas cadeiras por anos, gente convidada e gente que convoca a si mesma para ir.

Bocas sem conta mastigam nesses microfones suas palavras há quarenta anos. O Treze dá à luz vozes que nascem nas casas pelo mistério do rádio. Elas saem desses aparelhos como seres voadores que ingressam nos ouvidos e movimentam o pensamento dos ouvintes. Fortes debates à távola se travam, e a opinião, sempre libérrima, produz torcedores à distância. No recôndito de seus cantos no mundo, a arena escuta, invisível, os contendores, e escolhe seus favoritos.

O Treze é uma maquete da vida humana geral, assim como os júris populares são uma miniatura da sociedade. Em ambos há julgamentos, por que somos todos juízes, e há a presunção de que uns falam por muitos, por que somos pobres de nós mesmos.

Há quatro décadas, em uma história estruturante que foge ao objetivo desse pequeno texto, um homem se pôs à frente da ideia desses debatimentos, imaginou a távola e passou a conduzir o que hoje é o segundo mais longevo programa de debates da radiofonia brasileira. Clayton Rocha, o radialista que, pela devoção extraordinária a seu ofício, fez o Treze viajar o mundo sem sair do lugar e andar pelo mundo como se em Pelotas sempre estivesse, ganhou enorme e justíssimo prestígio, orgulhando seus amigos, encantando quem o escuta e impressionando seus colegas.

O Programa Treze Horas é o Clayton e o Clayton é o Programa Treze Horas. Sobrevivem-se, um ao outro, de tal forma que já não é mais possível separá-los. Passaram, ambos, por toda ordem de vicissitudes, dificuldades, empecilhos, dramas, e cá estão, feito meninos com suas bolinhas de gude na mão a fazerem com os dedos um círculo na areia do chão, apontando o lugar onde irão se enfrentar. Assim é o Treze. A távola é o círculo no chão que em 1978 o Clayton riscou.

Milhares chegaram à peça dos microfones, entrando pelas janelas e portas, bichos alados competindo, opondo-se, pelejando. Ele enfrentou uns pessoalmente, outros deixou se enfrentarem. Não perdeu jamais, mas também nunca ganhou. Clayton sabe o que é um jornalista, e tem os prazeres próprios dessa estupenda profissão.

Longa vida ao Treze, que vida muita ainda há!

 Avante!

Pedro Moacyr Perez da Silveira – Professor