ARTIGO – EU TENHO UMA ARGENTINA GRUDADA EM MIM

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EU TENHO UMA ARGENTINA GRUDADA EM MIM!
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Por Clayton Rocha
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Ora em Buenos Aires, ora na Cidade do México, ora em Genebra, ora em Roma…
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Cidade do México, Estádio Azteca, tarde de domingo azul. Argentina 3 x Alemanha 2. Terminou a Copa do Mundo de 1986. Carrego marcas intensas: fiz a Copa do Mundo da Argentina de 1978 pela rádio Gaúcha de Porto Alegre: Argentina, Campeã do Mundo! Fiz a Copa do Mundo do México de 1986 pela rádio Gaúcha de Porto Alegre: Argentina, Campeã do Mundo!
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Em plena festa do futebol mundial, em junho de 1986, morre Jorge Luis Borges, esse notável escritor que imortalizou o cotidiano de pessoas do povo, respeitado por conta de uma imaginação criadora, inventor de crepúsculos e de obsessões carregadas de poesia. Em mais um sinal de meu intenso envolvimento com questões argentinas recebo tarefa diferenciada, a de transmitir os funerais de Borges no cemitério de Plains Palais de Genebra, na Suiça.
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Sensibilizado com alguns textos de Octávio Paz, o admirável poeta dos mexicanos, deixo-me tocar pelas suas homenagens ao extraordinário escritor argentino, e aprofundo-me no estudo feito pelo próprio Borges em relação à visão budista da morte. (Convenço-me, a esta altura, que a Argentina continua grudada em mim).
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Pois vinte e seis anos depois, agora na Itália, surpreendo-me com a renúncia do papa alemão Bento XVI e todas as suas consequências: eis a Argentina mais uma vez diante de mim, numa eletrizante cobertura pontifícia.
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Acompanhado dos jornalistas Pablo Rodrigues e Sérgio Cabral, faço o surpreendente anúncio daquele dia 13 de março de 2013: Habemus Papam! Fumaça Branca na chaminé da Capela Sistina. E ele, acreditem, é um argentino, Jorge Mário Bergoglio, cardeal Arcebispo de Buenos Aires, o primeiro papa da América em mais de 2.000 anos de história.
Pois depois de vencidas todas estas etapas jornalísticas, nas quais a Argentina tornou-se o centro de acontecimentos de interesse mundial, incluí esse patético ano de 2020 na galeria das coisas vencidas, cabendo tão somente esperar pelo seu melancólico desfecho. Mas enganei-me mais uma vez, na medida em que veio de Buenos Aires, neste dia 25 de novembro, esta inesperada notícia da morte de Diego Armando Maradona!
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O que dizer diante do impacto mundial deste fato? Pois vale lembrar que nem ele, Maradona, – com toda a sua genialidade – e através de jogadas desconcertantes pelos gramados do mundo, conseguiu driblar esse indecifrável ano de 2020.

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DOM DIEGO ARMANDO MARADONA, A LENDA!
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Lembro de conversas nossas. A churrascaria de Guadalajara era o endereço de todos, e bebia-se um honesto vinho mexicano de nome Don José. Esse vinho é da Baja Califórnia, dizia o Armando Nogueira ao Ruy Carlos Ostermann. Na outra ponta da mesa, um Zagallo inspirado, encantado com Maradona. E naquela confraternização entre brasileiros, a presença do Ranzolin, o líder da grande cobertura.
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Naquela noite ficou faltando o João Saldanha, talvez porque Zagallo estivesse conosco. ( Zagallo era o comentarista da ZH e a missão de gravar as suas falas era minha). Lembro-me, e bem, de um grande momento de inspiração do inesquecível Armando Nogueira, texto esse muito bem guardado por todos nós, desde aquele 1986 mágico em terras mexicanas.
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Dom Diego Armando Maradona, onde quer que possas estar nesta noite de 25 de novembro de 2020, bem que mereces receber esse hino à tua genialidade, tu que és o grande vulto da Copa do Mundo do México de 1986.
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Diego Armando Maradona, um índio baixinho, futebol de gênio. Juro que aquele anjo torto do poeta Drummond passou também pela Argentina e disse ao indiozinho:
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– Vai, Maradona, var ser gauche na vida.
E, desde então, ele vai levando a bola
só com a perna esquerda,
inventando sonhos
no mundo fugaz do futebol.
Faz de conta que é verdade.
E o menino vai tirando do fundo do coração,
feito mágico, um por um,
todos os segredos de sua arte.
Primeiro, o drible, que desterra os rivais;
depois, o passe, que entrelaça os parceiros.
Por fim, o gol, que hipnotiza a multidão.
Feitiço e poesia pelos campos do Mundial.
Ilusão e vertigem no céu infinito da tua camisa
azul – profundo azul de Maradona.
Agora eu sei por que encantas tanto, tanta gente,
em cada instante: no teu pé esquerdo, uma bola de cristal.