ARTIGO – SAÚDE MENTAL NA TERCEIRA IDADE

199

SAÚDE MENTAL NA TERCEIRA IDADE

Dr. Nei Guimarães Machado

Muito se tem escrito, e falado, sobre terceira idade, principalmente sobre qualidade de vida na terceira idade. Mas o que vem a ser “terceira idade?” E o que significa ter “qualidade de vida?”.

Para a Organização Mundial da Saúde a “terceira idade” começa aos 60 anos para os “países em desenvolvimento”, e aos 65 para os “países desenvolvidos”. Entretanto, a velhice é mais bem definida, em termos funcionais, como um “inevitável e progressivo processo de enfraquecimento das capacidades de adaptação, ajustamento e sobrevivência dos seres humanos”. Ter “qualidade de vida” significa estar de acordo com o conceito de saúde da mesma Organização, que diz: “… saúde é o bem estar bio-psico-social…”. Nós, os brasileiros que já chegamos à terceira idade, estamos atingindo este conceito tão amplo de saúde? Nossa sociedade, que tem uma das mais cruéis desigualdades, está pronta para absorver e dar meios de desenvolver qualidade de vida para os já mais de 20 milhões de idosos hoje existentes (IBGE)?

O aumento da longevidade é uma conquista da humanidade. Viver muito, e bem, é um direito de todo ser humano, mas ninguém quer ser velho. Numa sociedade que idolatra a juventude, a beleza e a força física, ser velho significa estar envolvido em um universo de rejeição, preconceitos e exclusão. Hoje o ser humano vive mais, e a sociedade não sabe o que fazer com essa parcela da população.

A adaptação à velhice é alguma coisa de muito delicada e depende, em grande parte, da personalidade prévia: “… a gente envelhece tal como viveu…” (Ajuriagerra).

A velhice é a última etapa da vida, mas como um grande numero de pessoas sobrevivem por mais tempo, tornou-se a etapa mais longa da existência humana. O que fazer durante esse tempo? Ficar a margem dos acontecimentos? Viver segregado?

Para se manter vivo, e bem, há que se acreditar na Vida. Ela existe para ser vivida. Quando o idoso, submetido à ideia de que ser velho é ser descartável, deixa de vivê-la com intensidade, sua saúde mental se deteriora rapidamente.

Sabemos que as doenças mentais da terceira idade têm sua base genética, mas sabemos, também, que desistir da vida é apressar o envelhecimento cerebral, é ser um prisioneiro “desmemoriado” do tempo.

Aceitar a idade, abandonar sem amargura o trabalho, mas ainda permanecendo ativo, reagrupando forças em torno de outras atividades, por vezes novas e altamente criativas; adaptar-se a um novo tipo de vida, levando em consideração, sem ressentimentos, seu estado orgânico, sua capacidade mental e a atitude dos que o rodeiam modificada pelo seu envelhecimento (fazendo um esforço para colaborar com os das novas gerações), conseguindo, com isto, um lugar no grupo humano ao qual pertence; aceitar a redução das capacidades físicas de responder ao desejo erótico, que não será extinto devendo carrear a energia libidinal para outros sistemas de valores próprios à idade; estes seriam os “objetivos da saúde mental” própria para esta etapa da vida humana.

Quando atingirmos este ideal, aprenderemos a valorizar os talentos da “terceira idade” cuja consequência será a de que os idosos “envelheçam vivendo, e não vivam envelhecendo”, o que significa estar velho, mas ter uma mente jovem.

*Dr. Nei Guimarães Machado – Médico Psiquiatra