ARTIGO – O NATAL NO LEPROSÁRIO

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NATAL NO LEPROSÁRIO
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Ivon Carrico*
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Vou evocar – mais uma vez –  uma cena que me marcou profundamente e que já transcrevi nas redes sociais. Corria o ano de 1982. Eu já estava na Capital Federal e trabalhava no Projeto Rondon, do antigo MINTER/Ministério do Interior.
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Em uma manhã de março daquele ano fui chamado em um Gabinete de uma alta Autoridade que – sem rodeios – falou: “você está sendo lançado na Amazônia! O Programa ‘Polo Amazônia’, do MINTER, precisa da presença de um Engenheiro residente para fiscalizar uma obra em Cruzeiro do Sul, no Acre”.
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Pra lá fui, então.  Havia um Batalhão de Engenharia do Exército na cidade. Logo ao chegar passei a frequentar aquelas instalações. Mesmo porque em outras oportunidades já trabalhara em convênios com o Exército. Assim, conhecia bastante da estrutura, da hierarquia e da vida militar.
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Bem, quando das proximidades das festas do final daquele ano o Comandante do Batalhão chamou Representantes dos órgãos federais na cidade para que, cada um, pudesse auxiliar nas festividades do Natal do Leprosário, entidade que era mantida pela Igreja, por meio da Prelazia do Alto Juruá, composta por 2 Bispos e 40 Padres e Freiras alemães.
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Assim, o Exército, o Banco do Brasil, a CEF, o Banco da Amazônia, o IBGE…Enfim, cada um mostrou, então, em que poderia ajudar. Ao final da reunião, a mim coube o papel de ‘motorista’ de uma caminhonete, cabine dupla, para – também – ajudar no traslado dos convidados.
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O Leprosário ficava um pouco afastado da cidade. Eram instalações, cuja arquitetura lembrava o estilo enxaimel alemão. Magnífico. Tudo limpo, organizado.
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Era Noite de Natal! Lembro que, logo na primeira viagem, ao estacionar o veículo para desembarque de convidados, vi e ouvi – na recepção – um grande Coral, dando as boas-vindas, cantando ‘Noite Feliz’. Aproximei-me para melhor apreciar a beleza encantadora e sublime daquele momento, quando – então – deparei-me com uma surpresa: aquele Coral era composto pelos internos do Leprosário.
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Fiquei perplexo, sem entender o que estava vendo e ouvindo. E, aí, resolvi me retirar do recinto. Não retornei mais. No outro dia o Bispo D. Henrique Rüth, um grande amigo, me procurou e perguntou por quais razões eu não havia participado daquela festividade.
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Eu lhe disse porque, ao contrário do que o momento sugeria, uma grande tristeza sobreviera ao ver aqueles internos cantando, celebrando e agradecendo a vida. Foi quando o Bispo, um homem de imensa sabedoria e bondade, me situou nos valores imanentes da vida. Daí, que após esse episódio me tornei um assíduo frequentador daquele local até o meu retorno pra Capital Federal, dois anos após.
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Hoje, com a maturidade e com Deus, aprendi que não devemos nos acovardar diante das tantas adversidades que a vida, às vezes, nos impõe. E, que devemos ter a fé necessária para acreditar na possibilidade de um mundo melhor. Como os internos daquele Leprosário.
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*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. (Brasília, 25/12/2021).