MEIA ENCARNADA DURA DE SANGUE

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MEIA ENCARNADA DURA DE SANGUE

Conto publicado originalmente no site: www.paginaum.pt 

Lourenço Cazarré*

Tudo numa plastada de sangue… tudo manchado de vermelho, toda a alvura daquelas coisas bonitas como que bordada de colorado, num padrão esquisito, de feitios estrambólicos… como flores de cardo solferim esmagadas a casco de bagual!…

“Contrabandistas”, Contos gauchescos 

João Simões Lopes Neto

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Pois este meu avô, disse o Poeta, dava a alma por um dedo de prosa. Parece que estou a vê-lo, pequeno, não media mais de um metro e meio, sentado na frente da nossa casa ali no Corredor das Tropas, naquela rua que desce da igrejinha de Nossa Senhora da Luz, com a cuia de chimarrão na mão esquerda, chaleira tisnada na direita, catando entre os passantes apressados do fim de tarde alguém que quisesse jogar fora um pouco de conversa.

Meninos de canelas embarradas, nós estávamos sempre pela volta, aproveitando a última réstia de sol, ou na calçada, brincando de esconde-esconde, ou no campinho, que demarcamos no terreno baldio. Era só juntar dois ou três ao redor de meu avô que interrompíamos a brincadeira. Para escutar.

Foi com ele que aprendi a dar valor à conversação. Primeiro aquela lengalenga sobre o tempo, se vai chover, ou fazer frio, e depois as trivialidades – como lhe vai a família? Por fim, quando um dos passantes se mostrava decidido a seguir seu caminho, o velho começava um causo.

Meu avô era brigadiano, não sei se já te disse. Passou anos e anos ao relento, sozinho, seja na nossa cidade, seja nas cidadezinhas da volta, atravessando madrugadas frias sem ter com quem trocar um só cumprimento. Porque esses vultos esquivos que vemos pelas trevas da noite, no geral, nada querem com um sujeito de farda, nem mesmo trocar um buenas.

Por isso, creio, ele tinha aquela quase desesperada necessidade de estar sempre conversando. Sim, porque passava a manhã na venda do Corcunda, dando trela aos que entravam e saíam; e depois da sesta se ia para a barbearia do Português repassar os dramas do dia, do passado, da nossa cidade, de todo o Rio Grande.

Tinha uma história para cada assunto, muitas para vários: creio que o amor e a morte eram seus temas preferidos, e também as catástrofes inexplicáveis desencadeadas por forças desconhecidas, e honra, dignidade e hombridade, lealdade e amizade, os valores que, dizia ele, estavam desaparecendo de nossa cidade e, de resto, do mundo.

Então, numa dessas tardes, falavam de futebol. Alguém comentava o dinheiro estúpido que estavam pagando a um porto-alegrense cheio de bossa que gostava de dar chapéus, que driblava o marcador até que se esparramasse sobre a grama, e que arrematava enfiando a bola por entre as pernas do goleiro. Um carrasco!

O meu avô mateava e sacudia a cabeça, descrente, contrariado, e já aceso para pegar a palavra, enquanto o outro seguia discursando, indignado, porque o tal cretino ganhava mais do que a maioria dos trabalhadores honestos, porque com um dinheirão daquele podiam alimentar umas quantas famílias de miseráveis.

Aí, quando o outro se calou, o meu velho contou a história do crioulo. Sabia muitas histórias de futebol porque ele mesmo havia sido um jogador, um ponta irritante, daqueles pequenos que são como flechas e que, por não terem nem altura nem força, se obrigam a ser mais velozes e matreiros e mais gambeteiros e mais debochados, para irritar os laterais.

O velho dizia que naquele seu tempo, sim, aquilo era um esporte para homens, porque os juízes só marcavam falta se o cara sangrasse, e só expulsavam o agressor quando o outro ficava estirado sobre o barro, desmaiado. E falava de como eles se cuspiam e davam cotoveladas e socos e como gostavam de esfregar as agarradeiras nas canelas dos outros e demais barbaridades.

Mas voltemos ao rio, deixemos as vertentes. O tal crioulo foi o primeiro jogador profissional da cidade. Não sei quando, mas creio que pelo meio ou pelo final da década de trinta, porque o meu velho contava que por esse tempo, esse sujo tempo em que os atletas começaram a ganhar dinheiro pela sua arte, ele já estava fora dos campos com os joelhos arrebentados.

Pois o crioulo jogava pelo Grêmio Esportivo Brasil, o time dos negros e mulatos. O campo deles ficava nos banhados da Estação Ferroviária. Aos dezenove anos, era o maior driblador e fazedor de golos da época. Nem alto nem baixo, era magro como a peste, leve como a brisa e dançarino como as borboletas. E frio. Jogava de olhos abertos, cabeça erguida. Calculista, ele não só queria fazer o golo, como queria também que seu marcador ficasse por terra, e gostava de ver o goleiro esmurrar a grama. Jogava rindo. Conheces o tipo, não é? Não era um sorriso, era mais um arremedo, uma máscara risonha que nada tinha a ver com o que lhe ia pelas entranhas. Ele ria daquele jeito só para enfurecer os adversários, para fazê-los perder a cabeça e começarem a querer matá-lo. Nada pior para o time da gente do que jogadores de cabeça quente. A gente grita que quer sangue – me mata esse filho da puta! – e eles partem para o pau, mas aí o jogador frio dá sempre aquele pulinho para o lado, aquele toque sutil, e ganha a parada.

Era assim dentro do campo, implacável. Fora, era outra coisa. Um rapaz gentil, tímido, de fala mansa, cerimonioso. Sempre saía do campo de cabeça baixa, como que pedindo desculpas por jogar tanta bola.

Trabalhava num matadouro. Mas não sei te dizer qual. Ficava para as bandas do Porto. Ele também morava por lá, na ruazinha que corre paralela ao canal e que devia ser naquela época ainda mais triste e suja. Morava com sua mãe, viúva. Durante a semana, gastava o dia dentro daqueles galpões sombrios – iluminados apenas pelo cintilo fugaz dos facões afiados – resvalando pelo chão ensanguentado.

Era tão hábil com a faca quanto com a bola, dizia o meu avô. O negócio dele era a desossa. Desmanchava um boi em questão de minutos. E não deixava um só fiapo de carne nos ossos. Com a mesma precisão e elegância com que escapava dos coices do adversário, recuando o corpo apenas os milímetros necessários, ele destrinchava os animais.

Aos domingos brilhava nos campos.

Depois de perder quatro ou cinco jogos, de enfiada, os dirigentes do Esporte Clube Pelotas começaram a se perguntar se não estariam fazendo uma grande asneira em não aceitar jogadores de cor. E o meu avô dizia: está certo que esses negros são uns mandriões, e eu conheci não mais de sete que gostavam de trabalhar, mas a verdade é que nas safadezas, coisas como serenatas e jogos de bola, eles são bons. Então um inglês, que palpitava muito nas reuniões de diretoria, tanto encheu que acabaram aceitando conversar com o crioulo. Um dos diretores do clube, da família Almeida Guimarães, um cara que tinha tantos contos de réis quanto milhos há numa espiga, disse que cederia ao tal crioulo uma casa velha que tinha lá para os lados da Cerquinha. Se aceitasse o convite, podia morar lá de graça, enquanto servisse ao time.

Então mandaram alguém falar com o rapaz.

Moravam ele e a mãe num rancho de paredes vacilantes e teto de palha. Muitas vezes, nas cheias do rio, tinham que botar os trastes nas costas e sair para a casa de uns parentes, nas Terras Altas. Baixava a enchente, lá vinham ele e a mãe de volta. Mas não foi isso que o decidiu.

Ele demorou muito para aceitar. Não que estivesse negaceando, como fazem esses jogadores de agora para ganhar mais uns trocados. Não! Gastou dois ou três meses pesando os prós e os contras porque sabia que a partir do momento em que concordasse em jogar pelo Pelotas não seria apenas mais um crioulo: seria o crioulo vendido. E o meu avô dizia: a gente de hoje não tem ideia do que se passou pelo coração do coitado, que nem mais dormia direito pensando no que fazer. Naquele tempo o valor dos homens era medido não pelo dinheiro que tinham, mas pela capacidade de manter a palavra empenhada.

Por uma mulher, decidiu-se.

Essa negrinha, que trabalhava numa casa de família, no centro da cidade, pesou mais que a honra ou o orgulho que ele pudesse ter. Se ficasse no seu time do coração, teria apenas os aplausos e os abraços de homens tão pobres quanto ele, ou mais, num desses melancólicos finais de tarde de domingo que trazem não só tristeza e neblina mas também a desesperada perspectiva de mais uma semana de trabalho duro.

Nas incontáveis noites mal dormidas, sonhou com a casa da Cerquinha que já visitara, numa manhã de domingo, sentindo no braço esquerdo dobrado a pressão mais forte dos dedos da namorada, sonhou com a casa e se viu dentro dela, e fora, na soleira, dedilhando o cavaquinho, que ainda não possuía, numa noite de lua. Chegou a escutar o vagido de um anjinho que ainda não nascera. Sonhou, com um misto de orgulho e desvanecimento de proprietário, que passava as trancas nas portas e que se deitava ao lado da mulher, e que adormecia, como um homem normal.

Aceitou. Aceitou porque se não aceitasse teria de continuar morando naquele casebre. E, como passaria a ocupar com a mulher o único quarto, sua mãe teria de dormir na sala, a sala cheia de goteiras.

Disse que sim ao terceiro emissário.

Faltava uma semana para o jogo.

O tal inglês encarregou-se de espalhar o fato aos jornalistas e eles não pouparam nem tinta nem papel para execrar o mulato, para colocá-lo lado a lado com os flagelos da humanidade: Átila, Solano Lopez e todos aqueles caudilhos argentinos e uruguaios.

Não teve mais paz. Não por causa dos jornalistas, pois os jornais não chegavam àquele canto da cidade, mas por causa dos risinhos, das piadas e das ofensas pesadas dos colegas de matadouro, mulatos e negros como ele. Esse era o desprezo que lhe dizia respeito.

Aí ele perdeu a confiança em si mesmo, disse meu avô. Aquela mão que jamais havia tremido agora jogava a faca contra os ossos. E ele que nunca afiara o facão sem ter desmanchado uns três ou quatro animais precisava afiá-lo seguidamente.

Sentia-se triste e solitário, acabado.

Tinha o carinho da mãe e os afagos da namorada, mas a vergonha, que era muita e doía tanto, ele não poderia compartilhar com ninguém.

O jogo seria no domingo.

O acidente deu-se no final da manhã de sábado, quando estavam por fechar. Os outros já tinham saído, mal tocara o sino, mas ele ainda estava lá, sozinho, trabalhando. Não poderia acompanhá-los até o bolicho para a cachaça de todo o sábado porque sabia que não mais tinha mais direito a um lugar na beira do balcão. Não ouviria nem contaria piadas. Nem cantaria aquelas marchinhas. Não mais teria o direito de pedir emprestado o cavaquinho ao dono do boteco. Estava acabado para ele, era um vendido.

Creio que foi uma lágrima, dizia o meu velho, que causou o acidente. Ele não dominava a faca como antes e aí, no instante em que a lágrima lhe toldou a visão, ele perdeu o comando da mão.

Estava desossando uma carcaça no chão, como gostava de fazer, sobre a laje ensanguentada. Usava não só as mãos, mas também os pés descalços, para firmar a ossamenta. Quando a faca escorregou, ele não sentiu nada além de uma pequena ardência, quase uma cócega, na parte de dentro do pé esquerdo. A faca escapara e correra ao longo de todo o seu pé, do dedão ao calcanhar, abrindo um talho comprido. No primeiro instante, achou que tinha sido coisa pouca, mas então o sangue começou a manar, grosso, vermelho.

Sozinho no pavilhão, ele escutava apenas o roçar da vassoura do negro velho que fazia a limpeza do pátio.

Correu ao seu armário e pegou as botinas. Felizmente tinha vindo com elas. Quero dizer, viera com as botinas que usava nos sábados porque ao levantar, naquela manhã, não se dera conta de que era um homem marcado e que, por isso, não poderia ir para a cachaçada. Calçou-se. Rapidamente acabou o trabalho, sem se preocupar com o fio da faca, sem atentar para as pelancas grudadas nos ossos. Precisava ir embora logo. No vestiário, ao tirar o avental, notou que o sangue já escapava por entre os cadarços. Voltou ao pavilhão, tirou o calçado e verteu o sangue sobre a laje. Observou o ferimento: perdia sangue ainda. Lembrou-se de fazer um torniquete: pegou uma guasca. Tinha prática naquilo, não passava mês sem que alguém se cortasse feio. Ao sair, levava no bolso um pedaço de tripa seca. Já sabia o que teria de fazer. Na calçada, piscou os olhos para a luminosidade baça do dia e saudou o carroceiro que levaria a carne ao Mercado, mas não teve resposta. Aliás, o negro, acintosamente, virou-lhe a cara.

Foi direto para casa. Almoçou e deitou-se, mas sem tirar as botinas, e manteve o pé sobre a guarda da cama.

A mãe dele saiu do quarto com a sombrinha pendurada no braço:

– Por que tu tá desse jeito, com as perna pra cima, se recém almoçaste?

– Pra descansar os músculos, mãe. Amanhã tem jogo.

– É, mas isso deve de fazer mal pro estômago. Tem tempo, faz isso mais tarde.

– A senhora vai sair?

– Sim. Vou benzer o filhinho da Matilde. O guri anda com a barriga floxa faz uma semana.

Quando sua mãe saiu, ele calculou que teria meia hora no máximo. Levantou-se, pegou a bilha e verteu água na bacia de latão. Foi depois para baixo da bergamoteira florida, no pátio,

Lavou o pé. O ferimento já não sangrava. Voltou à sala. Procurou no guarda-louça o caixote de marmelada no qual sua mãe guardava as coisas de costura. Escolheu uma agulha que servia, de furo largo. Pegou debaixo do colchão sua faquinha afiada e com ela tirou um tento da tripa, fino que nem barbante. Meio metro, mais ou menos. Daria. Então costurou o lado do pé, do dedão ao calcanhar. Uma costura bem apertada. Guardou a faca e recolocou a caixa de marmelada no guarda-louça sem portas.

Calçou as botinas.

Lembrou-se então da bacia suja debaixo da árvore. Correu até lá. Chegou justamente a tempo de jogar a água em cima do canteiro porque sua mãe já estava entrando pela cozinha. Passou a mão para limpar uns poucos respingos vermelhos.

– Ué, já tomaste banho? Tão cedo?

– Não, mãe, eu só lavei as mãos e o rosto.

– Tu tá meio esquisito, hoje, guri!

– É, tô preocupado com o jogo de amanhã.

– É o que eu sempre digo: não tem bicho mais burro que homem. Durante a semana passam se gastando lá no serviço e no fim de semana, que Deus fez pra gente descansar, se metem na gandaia com as sem-vergonhas ou na cachaça. E agora, pra piorar, ainda tem esse tal de jogo de bola. Mas burras mesmo são as mulheres, que nunca deixam de parir outros homens.

Ele deitou-se e afundou num sono pesado, inçado de pesadelos. Sonhou que estava em campo, mas que não conseguia correr porque não tinha mais o pé esquerdo. E pela volta, por trás da cerca, homens riam e debochavam e gritavam: aí, perneta vendido, agora mesmo é que eu quero te ver fazer um golo.

Foi acordado pela mãe, à tardinha.

– Tá na hora do banho.

– Não vou tomar banho hoje, mãe.

– Ué, por quê? Deste agora pra relaxado? E a tua noiva, o que vai dizer?

– Não vou até lá, mãe. Tô meio cansado hoje.

– Não é nada disso, guri. Vai ver que tu brigou com ela! Alguma coisa tu tá tentando me esconder, mas eu vou descobrir porque a mim tu não me engana. Eu te conheço desde que não tinhas dentes e fazias cocô preto. Não te esquece que eu te fiz dentro da minha barriga. Sei tudo de ti, até mais do que tu mesmo. Agora, anda tomar banho antes que eu te meta a vara de marmelo.

Quase não dormiu naquela noite. Só fechou os olhos quando viu, por entre os postigos, a chegada do sol, que nascia lá para cima, na lomba da Quinze.

Almoçou cedo e saiu para o estádio. Teve sorte porque um carroceiro lhe ofereceu carona. Era um mulato claro que não parou de falar todo o trajeto. Pedia-lhe golos, muitos golos, porque o negócio era arrebentar com os almofadinhas da Avenida. Foi em silêncio, calado, porque não poderia dizer que faria golos, sim, muitos golos, mas que esses golos seriam para o time dos almofadinhas da Avenida.

Pediu ao carroceiro que o deixasse a uma quadra do campo. O homem insistiu, queria ter o prazer de levá-lo até o portão. Não! Que parasse ali mesmo. Precisava passar antes na casa da namorada, mentiu.

Desceu e fez o resto do caminho a pé. Meio às tontas procurou o portão de entrada dos sócios e atletas, onde jamais negro ou mulato algum havia pisado, a não ser os faxineiros, e, embaraçado, teve que dar uma longa explicação ao porteiro, um sujeito de bigodes de pontas reviradas. Estava nisso quando foi abraçado por um senhor muito alto, com jeito de alemão, que o arrastou até os vestiários e gritou para os homens seminus que ali estava o novo companheiro, o grande craque. Procurou um canto de banco, onde estava mais escuro, para tirar a roupa. Tinha vergonha em mostrar sua nudez marrom a todos aqueles brancos. O mesmo sujeito claro voltou, falando alto e gesticulando, e o rapaz demorou a entender que ele queria saber o número do seu pé para lhe dar chuteiras novas. Agradeceu. Disse que jogaria com as suas, velhas, desbeiçadas. O homem dos olhos azuis riu, disse que sim, mas que, pelo menos, era preciso dar um brilho nelas. E ordenou a um negrinho, que estava sentado em sua caixa de engraxate, que lustrasse aquelas chuteiras acalcanhadas.

Como se vindo de outro mundo, distante, chegava-lhe aos ouvidos o zunzum do próprio vestiário, marcado aqui e ali por risadas nervosas. Lento, renitente, sem olhar para os lados, envergou a camiseta amarela que desde menino se acostumara a repudiar.

Percebeu, quando o engraxate ergueu para ele uns grandes olhos cheios de uma luz negra, que o menino tinha visto o enorme talho costurado com tripa. Colocou o pé direito sobre o esquerdo enquanto vestia as meias brancas. E depois permaneceu cabisbaixo enquanto o guri lhe lustrava as chuteiras.

– Vai doer muito, seu moço.

– Cala a boca, moleque! Cuida do teu trabalho!

O menino continuou a lustrar, levantando de quando em quando os olhos para o jogador.

– Tá pronto, seu moço.

Então, espantado, ele viu o garoto se abaixar e beijar o bico reluzente da chuteira.

– Não importa de que lado o senhor vai jogar. O que interessa é que o senhor é que vai fazer os golos.

Então houve um lampejo, e apenas pelos olhos eles se entenderam: caminhavam contra o vento e o frio em uma interminável procissão de corpos vergados e rostos escuros, um atrás do outro, campo fora, tendo como destino lugar nenhum.

O que mais eu lhe posso dizer, meu amigo, perguntava meu avô neste ponto da narrativa. Pouca coisa, respondia ele próprio. Só que o mulato fez uma festa. Marcou três. E olha que os caras bateram nele! Saiu com os olhos escondidos debaixo de inchaços, um talho no supercílio. Apanhou muito dos seus antigos companheiros, mas em momento algum pediu para sair, como fazem esses frescos de hoje em dia. Foi até o apito final. E esbanjando categoria. Parecia um toureiro se esquivando daqueles animais furiosos. E dava chapéus neles, bola pelo meio das pernas então era mato! E os caras chutavam não a bola, ele, e ele só dava de banda, e a chuteira passava. Três golos, sabe o que é isso?

Foi o último a deixar os vestiários porque não queria que lhe vissem a meia empapada de sangue. Naqueles tempos eles próprios tinham que arranjar quem lavasse o fardamento. Saiu do estádio sem que ninguém, além do engraxate, tivesse descoberto seu segredo.

E como não queria que mais ninguém soubesse, especialmente sua mãe, foi até a casa onde trabalhava sua namorada e por sobre o muro, no fundo do pátio, entregou a ela a meia encarnada, dura de sangue seco, como uma espécie de dote, penhor, hipoteca.

*Lourenço Cazarré é escritor