ARTIGO – MAIS PERFEITO QUE O PARAÍSO – LUIZ RICARDO LANZETTA – TEXTO 6 – FINAL

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O banho das carmelitas

O hino oficial do Laranjal era uma versão de Luar do Sertão, adaptada por Adolfo Bender e cantado por Terezinha Röering, soprano local premiada em Barcelona e a Madalena, das inesquecíveis procissões da Semana Santa. Ainda estava longe o dia em que Kleiton e Kledir comporiam a canção definitiva sobre a Lagoa dos Patos. Mas já havia os criadores de tendências. Os músicos, por exemplo, já eram muitos e as serenatas passaram a ser uma característica das madrugadas, mesmo que desagradassem quem tinha acordar cedo. Kleber, o primogênito de uma famosa família de músicos, com um vozeirão e bom de violão, era uma espécie de sex-simbol da seresta.

Quico, ex-integrante da banda Almôndegas, habitava, no verão, um cafofo chamado A Esquina do Pecado. Um coletivo de malandros de temporada que justificava o apelido. Por falar em pecado, há um verso numa música que deixa uma curiosidade no ar. O mistério das carmelitas aparece na composição de Kleiton, Kledir e Cazarré. Chama-se “Os mistérios do bule monstro”. Será desvendado agora o sentido dessa intrigante frase: Havia uma aventura que alguns faziam. Antes do amanhecer, seguiam para a área das estâncias. Era lá que funcionava o antigo convento, que abrigava as irmãs carmelitas. Aquelas que ficam trancadas, apartadas da humanidade. Mas, ainda no escurinho do matinho, as religiosas se despiam do rigoroso hábito para banhar-se, de maiô, na lagoa. Deus estava de olho.
E mais gente também.

Num improvável campeonato mundial de voyeurs, esta prova disputaria o primeiro lugar. Os guris ousados, de longe, fresteavam as inocentes freirinhas. Passada a primeira década do desbravamento, o acesso ao Laranjal melhorou, com uma nova ponte sobre o arroio Pelotas e a pavimentação da estrada. O confinamento de verão já não precisava ser carmelita.

Numa inocente serenata, onde muitas vezes os veranistas ofereciam bebidas aos músicos, nova ousadia. Desta vez, só a moça alvo da homenagem abriu a janela. Aproveitando a ocasião, alguém pulou para dentro do quarto da donzela. Há controvérsia. Uma versão diz que o penetra saiu em seguida, outra que ficou. Numa outra temporada, dois rapazes se desentenderam na saída de uma festa. Um sacou uma faca e atingiu o braço do outro. Foi um escândalo.

Os desbravadores estavam crescendo. Já havia gente, na praia, fumando ervas estranhas e lendo o infame O Pasquim. Alguns brotinhos engravidaram. Havia playboys, mariquinhas e cabeludos transviados. Começava o inferno do vestibular. Fechavam-se as cortinas da era da inocência. Quando bem depois, nos anos ‘90 a Petrobras anunciou a existência da Bacia de Pelotas, não pegou os pelotenses de surpresa. Desde os anos 60, o vereador José Anélio Saraiva afirmava presença de petróleo na região. Ele fazia uma espécie de prospecção perto da Barra da Lagoa, de onde se vai para Rio Grande, na certeza sucesso. Mas para as crianças pioneiras do Laranjal, o que Zé Anélio dizia era menos novidade ainda. O Seu Marocas, desde os anos 1950, junto com a campanha O Petróleo é Nosso, já garantia: “Aqui tem petróleo. Esta areia preta não mente”.

Depois de 70 anos, o Brasil continua sem futuro e Punta del Este a quatro horas de carro, onde pelotenses abonados e farofeiros esparsos desfrutam os prazeres do mar congelante.
O Laranjal do sonho castelhano é uma viagem distópica. Punta del Este em Pelotas está nos novos condomínios de luxo construídos fora do balneário.

A tropa de ocupação de guris e gurias que o desbravaram, a pé ou de bicicleta, de caniço ou bambolê, de violão e de garrafas de bebidas, foram bordejar pelo país, pelo mundo ou ficaram pela cidade. Muitos continuaram morando no que se transformou num novo bairro com problemas comuns a todos eles.

Daquele grupo brotaram médicos, dentistas, agrônomos, veterinários, engenheiros, juristas, músicos, pintores, atores, diretores, escritores, chefs de cozinha, historiadores, publicitários, empreendedores, jornalistas, enfim, gente com todas as formações e talentos. Na memória de todos permanece aquele território inóspito, fascinante e desafiador com muito mato, água e o borbulhar dos cardumes de peixe-rei e camarão.
Fomos expulsos de um paraíso que podemos revivê-lo para sempre. É só pronunciar a frase mágica: “Lembra aquela do Seu Marocas, quando ele ficou noivo?”.

FIM

(“Aqui, tudo começa grande na mão de um rico e termina fatiado nas mãos de um monte de pelados”, grafite visto na estrada Pelotas-Laranjal).