ARTIGO – JOSÉ RAYMUNDO: SEM TI E SEMPRE CONTIGO

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JOSÉ RAYMUNDO: SEM TI E SEMPRE CONTIGO!

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O recado dos teus amigos

Por Clayton Rocha

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Neste sábado que expressa sinais de Irmandade, 5 de Setembro de 2020, que seja dito: o Debate 13 H tem uma dívida impagável de gratidão com o José Raymundo, cirurgião de tantas e tantas jornadas ligadas ao Salão Amarelo do Palácio do Comércio. E como se apenas estas dívidas não bastassem, era aquele amigo que, em qualquer que fosse o hospital, marcava presença nos momentos mais inesperados e delicados. Perfeccionista, sabia que nada está bem feito senão quando a própria pessoa o faz. Cirurgião no rigor da palavra, nos mostrava que toda hora era hora para a sua atividade, provando-nos, a cada novo dia, que a sua felicidade estava na atividade.
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Quando redigi um texto dizendo aos seus pacientes que ele se submeteria ao recolhimento caseiro até que os exames comprovassem ter sido ou não contagiado na Santa Casa de Bagé, concordamos, ambos, e inteiramente, com Goethe: – A moléstia não pode atingir o homem, que deve ignorá-la, pois somente a saúde deve ser lembrada. Por vezes nego-me a acreditar que aquele médico incansável que cuidava da memória da Medicina de Pelotas agora é memória. E então faço concessões à máxima de Pitágoras, segundo a qual o destino não proporciona a maior porção aos homens bons.
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– Eu sou um bisturi, Clayton, e tu és um microfone! Cuidamos da vida e da memória, e esta é a nossa tarefa. Limitemo-nos, pois, a executá-la com devoção! Tu lembras daquele relógio de parede do doutor Mozart, e daquela inscrição em pequena placa de bronze lá atrás do pêndulo onde dizia: – É mais tarde do que pensas? Pensávamos assim, cientes da brevidade da vida mas incapazes de imaginar o que o ano de 2020 nos reservaria: Vivíamos lembrando nas horas douradas de nossas caminhadas que as nossas ações são os nossos dias, por elas se contam os anos, por elas se mede a vida; enquanto obramos racionalmente, vivemos; o demais tempo duramos. Por todas essas razões devemos compreender que o amor próprio, indispensável ao exercício da jornada, é o amigo leal que nunca nos desampara em nossos maiores infortúnios.
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A ele eu diria hoje, quase três meses depois: Zé, jamais se sobe tão alto como quando se ignora até onde se sobe! Pois a ” Lenda” que sempre será cantada em prosa e verso soube ultrapassar fronteiras para deixar a marca de um bisturi simplesmente imbatível: grandes e pequenas cidades testemunharam a desenvoltura da sua precisão cirúrgica.E se o seu mundo era a sala de cirurgia, endereço maior de sua consagração, inaceitável para todos nós aquelas duradouras consequências de seu próprio calvário pessoal.
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Velho amigo: Tenho pensado muito em ti nestes últimos quase três meses. Louvado seja o dom que fez de ti um craque consagrado na arte de operar. Disso já sabíamos, mas não fazíamos alardes. Ficávamos quietos, no papel de observadores, mas também percebíamos que aquela precisão era, sim, uma graça Divina: em ti, Zé, o que Deus primeiro benzeu foram as tuas mãos!
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José Raymundo, a partir de agora os teus amigos te pedem: queremos que tenhas a necessária compreensão de que o silêncio é a primeira pedra do Templo da Filosofia, enquanto a Sagrada Natureza te irá revelando, à sua hora, seus mais ocultos mistérios. Liberta pouco a pouco a tua alma, discerne o justo e aprende o significado das coisas. Enquanto isso, querido amigo, cada um de nós levará a sério um duro aprendizado: – Sem ti por aqui mas sempre contigo! A chama que ardia em teu coração de cirurgião exemplar, agora transformada em lembrança, não se apagará jamais. Continuaremos convivendo contigo através de uma boa prece, que será a nossa nova linha de contato. Cuida bem dele Dona Odetta!
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5 de Setembro de 2020. (O dia do Irmão).