ARTIGO – HANTAVIRUS, OMS, SOLIDARIEDADE E O DESAFIO DA INFOCRACIA

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Hantavirus, OMS, solidariedade e o desafio da infocracia

Pedro Eduardo Almeida da Silva*

Em maio de 2026, a chegada do navio MV Hondius a Tenerife, com alguns casos de hantavirose a bordo, provocou apreensão entre moradores e ampla repercussão nas redes sociais. Em resposta, o diretor-geral da World Health Organization (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, tomou uma medida pouco usual ao dirigir uma carta aberta diretamente à população local. A mensagem foi clara: “Este não é um novo episódio de COVID-19. O risco atual à saúde pública decorrente do hantavírus permanece baixo.”

Havia, portanto, um evento sanitário real, porém controlado, sem risco significativo para os habitantes da região. Isso não significa, contudo, que a situação pudesse ser negligenciada. Ao contrário, episódios dessa natureza evidenciam a importância da vigilância em saúde, essencial para monitorar continuamente a evolução do quadro, detectar precocemente qualquer alteração no comportamento epidemiológico do agente e avaliar, ainda que remotamente, a possibilidade de mudanças em sua virulência ou capacidade de transmissão.

O objetivo da carta foi dissipar o medo sem minimizar a necessidade de acompanhamento rigoroso, reafirmando um princípio fundamental: decisões em saúde pública devem ser guiadas por evidências, e não por reações emocionais amplificadas pela circulação desordenada de informações.

O episódio revela um dos principais dilemas do nosso tempo. Nunca houve tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir fatos de narrativas alarmistas. O filósofo Byung-Chul Han, em Infocracia, observa que “a informação, quando se emancipa da verdade, desenvolve uma dinâmica altamente destrutiva”. A abundância de dados não garante compreensão; ao contrário, pode produzir ansiedade, desconfiança e desorientação social.

Nesse contexto, a atuação da OMS merece destaque especial. Em um cenário internacional frequentemente marcado por disputas geopolíticas e interesses nacionais, a organização reafirma seu papel como instância técnica, científica e normativa de coordenação globalSeu compromisso é proteger populações com base em critérios científicos, articulando respostas que transcendam fronteiras e interesses imediatos.

Igualmente exemplar foi a postura da Espanha. Ao autorizar o desembarque e a assistência aos passageiros, o país demonstrou que solidariedade internacional não é um conceito abstrato, mas uma prática concreta de responsabilidade compartilhada. A decisão do governo socialista espanhol, liderado por de Pedro Sánchez, esteve em plena consonância com o Regulamento Sanitário Internacional e refletiu não apenas capacidade técnica, mas também compromisso humanitário. Em tempos de crescente nacionalismo, esse gesto reafirma um princípio elementar: diante de ameaças à saúde pública, nenhum país pode agir de forma isolada.

A carta também resgata uma lição que a pandemia de COVID-19 tornou incontestável: agentes infecciosos não reconhecem fronteiras políticas. Por isso, a resposta mais eficaz continua sendo a articulação coordenada entre países, sustentada pela ciência, pela transparência e pelo compromisso comum com a proteção da vida humana.

Essa solidariedade se manifesta na confiança nas instituições científicas, na cooperação entre países e na disposição de acolher aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade. Nesse contexto, a liderança responsável é aquela capaz de substituir o ruído pelo discernimento e o medo pela razão. A OMS e a Espanha ofereceram, nesse episódio, uma demonstração concreta de que ciência, coordenação internacional e solidariedade continuam sendo os instrumentos mais eficazes para enfrentar não apenas doenças infecciosas, mas também a epidemia de desinformação que frequentemente as acompanha.

*Professor da Universidade Federal do Rio Grande e Universidade Federal de Pelotas.