ARTIGO – ADÃO MONQUELAT: DE VOLTA À PRIMEIRA PÁGINA!

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NO DIA DO LIVRO A HOMENAGEM DO TREZE
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ADÃO MONQUELAT: DE VOLTA À PRIMEIRA PÁGINA!
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Clayton Rocha
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Não há epílogo para ele, mas sim continuidade, através de marcantes aprendizados nas muitas Livrarias da Casa do Pai.
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Certa vez, conversando com ele junto a uma prateleira de livros lá na Telles, trocamos ideias quanto ao dia derradeiro que nos aguardava. Como seria ele?
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Concordamos com uma máxima milenar: a morte é menos penosa presente do que esperada. E nos conscientizamos naquele instante, mais uma vez, que de toda a nossa propriedade a mais incerta e menos segura é a própria vida.
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No caso do Monquelat, esta preciosa amizade antiga e rica em conteúdo, a sua partida não era por mim esperada e nem mesmo foi por mim presenciada. Vou continuar a imaginá-lo ali, entre os seus livros, sentindo o perfume achocolatado do cachimbo do Fernando Lessa Freitas, uma “marca espiritual” em meio aos silêncios de um templo de leitura, e que se tornou um ponto de interrogação diante dos mistérios desta vida.
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Alguém escreveu recentemente, em um tocante elogio ao Monquelat, que ele era um garimpeiro de obras raras. Pois digo agora que se a memória de Pelotas e de outras plagas próximas pudesse merecer um apelido, ela receberia o seu nome, e deveria morar junto com ele, lá na livraria da Telles. Assim em nossa imaginação ele permaneceria vivo a serviço de uma causa, inarredável lá de seu espaço, definitivamente estabelecido lá no endereço de suas mais sagradas devoções.
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Monquelat, perguntei a ele recentemente: – E o livro Buda, de Jorge Luís Borges? Em quais partes da obra o teu marca texto fez registros necessários? pois deliciou-se através de uma resposta já mentalizada: – Cada ato carrega em si o germe de uma recompensa ou de um castigo que podem não ocorrer imediatamente, mas que são fatais. Ao pecador não o castigam por seus pecados; são estes que o castigam. Por conseguinte, o perdão não existe e ninguém pode outorgá-lo. E então referiu-se ao Karma – a lei do Universo – que não foi promulgada por um legislador nem aplicada por um juiz. Sua operação é inexorável:- ” Nem no céu, nem na metade do mar, ou nas fendas mais profundas das montanhas existe um lugar em que o homem possa libertar-se de uma ação perversa”.
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Despeço-me desse amigo já depois de algum tempo, e o faço com serenidade nesta tarde ensolarada e silenciosa, ocupada tão somente pelo canto dos pássaros aqui da mata. E ouvindo um sabiá-laranjeira com toda a poesia do seu canto, estou sendo poupado de um aperto no peito. É bem melhor assim.
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Pergunto-me sobre o recado derradeiro, que a ele deve ser endereçado nesta calmaria dominical. E recorro a uma de suas preciosidades literárias, através da qual – já sei – será possível estabelecer uma sintonia espiritual com o estimado livreiro.
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Monquelat amigo: – Respeita as leis da natureza, executando e respeitando as regras. Vive, mas tem sempre presente a morte, que é o destino de todos. Aceita o que te cabe sem te revoltar, suporta com paciência. Fica sabendo que o destino não proporciona a maior porção aos homens bons.
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Amigo, é preciso encontrar o infinitamente grande no infinitamente pequeno, para sentir a presença de Deus, e espero que o faças em meio a essa paz que agora te envolve. (CR)