ARTIGO – A ESPADA DE BENTO GONÇALVES

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A Espada de Bento Gonçalves

Mônica Beatriz Corrêa Meyer Russomano*

 Tive em minhas mãos, por quase toda a infância e no início da adolescência, a espada de Bento Gonçalves (1).

Há um tempo atrás, tentei fazer o meio de campo entre o seu atual proprietário, um amigo meu desde mocinha – embora “mocinha” seja um eufemismo para uma moleca intragável – e a Polícia Militar, a PM do RGS, me achando um gênio(…) por bolar a exposição da dita-cuja na Semana Farroupilha (2). Se a Corporação manifestou interesse na oferta? Não. Conforme uma Capitão que contatei por telefone e intermediou a doação que fiz para a Brigada (3), duns itens de João Simões Lopes Neto (4), não. Pensou que era falsa?! Porque lembro vagamente da Oficial dizendo que a “verdadeira” estaria com a PM ou com algum museu ou organização. E poderia estar, de fato. Isto é, poderia TAMBÉM estar. Uma outra. Uma delas. Afinal, Bento Gonçalves não pode ter tido várias dessas armas na sua carreira no Exército??? É, sem dúvida, uma possibilidade! Mas a “nossa” é autêntica. Pelo menos, de acordo com a viúva e herdeira do autor tradicionalista citado, a “Dona Velha” (5), que prestou testemunho de próprio punho – que o prezado leitor verá logo adiante – da legitimidade da “nossa”, deveras veraz.

Conheci “Dona Velha” nos meus quatro ou cinco anos, quando eu era um toco de gente. Acredito que ela morava perto da professora particular que me alfabetizou, anteriormente à idade legal mínima de se ir à escola, em 1956, a inesquecível Dona Aracy Gigante (6), personalidade extraordinária de um dos textos jornalísticos que escrevinhei e publiquei, graças à boa vontade do “Diário Popular” (7), em 2019, creio eu. E, remexendo em reminiscências, longínquas à beça, visualizo uma construção bem singela – de porta e janela? – e uma idosa frágil de preto que, a passos miúdos, vinha de um pátio nos fundos para a calçada onde esperávamos. No final da Rua 15 de Novembro? Próxima do Clube Brilhante?! Não dá pra jurar.

Nasci em 1950. A amizade do Pai, Mozart Victor Russomano (8), com “Dona Velha”, cresceu e se firmou por aí, por volta do apagar das luzes do decênio de 40, mas ele já a vira ainda menino, como narra numa de suas crônicas de fins dos 80, intitulada “O Arquivo de Simões Lopes Neto”: Mas, da espada de Bento Gonçalves, sei tudo. Ou quase tudo. Os detalhes da empunhadura, o peso, o tamanho. Sou capaz de reconhecê-la no escuro. Meus irmãos e eu brincávamos como doidos com ela em crianças, correndo o risco – módico, pois ela não tinha fio há horas – de nos espetarmos numa queda nas correrias desabaladas.

Não recordo, precisamente, o ano. Deve ter sido logo depois de 1930. Caminhava, com meu Pai (9), em Pelotas, quando avistei uma senhora de cabelos brancos, toda de negro, que saía de sua residência, situada na ponta de uma quadra de casas suspeitas.

Perguntei, intrigado, quem era ela, com a atenção despertada pelo local insólito. Meu Pai me explicou: era a viúva de Simões Lopes Neto, grande escritor nascido em Pelotas, que vivia pobremente – pagando, inclusive, aluguel barato por aquela casa – e que, na manhã esplendente de sol forte, com a habitual pontualidade exemplar, dirigia-se para o Conservatório de Música, mantido na época pelo Município, do qual era modesta funcionária. Nunca mais pensei no assunto. Na verdade, porém, não o esqueci”.

E ele prossegue:

“Nesse ínterim, no fim da década de 40, a situação econômica da viúva do escritor – Francisca Meirelles Simões Lopes, na intimidade, apenas, “D. Velha” – havia piorado. Sua magra aposentadoria, paga pelos depauperados cofres municipais, mesmo com a ajuda de seus parentes, mal dava para garantir sua subsistência e de D. Fermina, filha adotiva, que viria a falecer antes de D. Velha. Lancei, em Pelotas, através do (jornal) “Diário Popular”, a ideia de que o Município lhe outorgasse pensão especial. Houve temores iniciais. O Poder Público receia os “precedentes” e, no caso, temia que começassem a surgir escritores medíocres a pedirem aquilo que se pretendia dar em honra do nosso maior regionalista. Houve, porém, um movimento comovente: entidades de classe, centros culturais, estudantes, professores e o povo aderiram à ideia e, em breve, lei local outorgava a D. Velha a pensão que lhe permitiu viver com mais conforto nos poucos anos que lhe restavam.

Nossos laços afetivos se estreitaram, a partir daí.

Visitava-a, seguidamente, inclusive acompanhado de minha mulher e dos meus pequenos filhos. Levava-lhe lembranças de utilidade imediata. Tornamo-nos amigos. E dela ouvi muitas coisas sobre Simões Lopes Neto, inclusive quanto a originais inéditos. Foi ela que me falou, pela primeira vez, na “Terra Gaúcha” (contando-me, minuciosamente, os extravios e reencontros do primeiro volume, com perda definitiva do segundo). Foi ela, igualmente, que me deu a ler alguns trechos das conferências (ainda inéditas) proferidas por Simões Lopes e das peças teatrais, que ele assinava com o pseudônimo de Serafim Bemol.

Quando D. Velha sentiu que as forças lhe estavam faltando, teve um gesto para comigo extremamente generoso: enviou-me, certo dia, com cartão de oferecimento que ainda guardo, o arquivo do escritor. Não era retribuição à iniciativa que lhe garantiu a pensão vitalícia. Creio que não. Era a retribuição, isso sim, de algo muito mais importante: minhas visitas carinhosas, as longas palestras, o amor pela memória de Simões Lopes Neto e meu esforço de ajudar, como tantos outros, a manter acesa a chama do seu culto”.

E, assim, o acervo de João Simões Lopes Neto aterrizou na Barroso (10) em princípios dos 60, julgo eu, e acabou pertencendo ao meu Pai. Junto com ele, veio a 1ª bandeira a tremular nos campos de batalha farrapos, que o Dr. Mozart doou, mas… a quem??? À Biblioteca Pública? Ao Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas? Sabe-se lá…

E em abril de 1963, meus Pais (11) presentearam-na a um cirurgião porto-alegrense renomadíssimo, que vou rebatizar de Dr. “X”, como agradecimento pelos inúmeros atendimentos dele à minha Mãe, mas, mais provável, pela recuperação dela de uma comoção cerebral, causada por um tombo acidental na escada do “nosso” sobrado, por sorte, em pleno Congresso de Neurocirurgia na cidade…

A relíquia passou ao filho único do Dr. “X”, de igual profissão que a do pai, aquele meu amigo que aturou os desatinos desta maluca desajustada (até os quinze) aqui, e que é fissurado nessa preciosidade histórica. Ou seja, ela segue na Capital do Estado e nela seguirá per omnia saecula saeculorum. e, se os brigadianos quiserem providenciar uma exibição com a(s) outra(s), dependerão, agora, do “novo” dono deixar…

Frente de um cartão de número 25 da Série 1ª da Coleção “Brasiliana”, de João Simões Lopes Neto, com imagens da espada de Bento Gonçalves, com a impressão, em vermelho, de “A espada de Bento Gonçalves, presidente da República Rio-Grandense”, e um trecho, parcialmente visível na foto, do que está datilografado na lateral direita.

Mesmo cartão da foto anterior, com a datilografia inteiramente visível, em que  “Dona Velha”  atesta: “DECLARO QUE A ESPADA A QUE SE REFERE ÊSTE CARTÃO CONSTA DO ARQUIVO DE MEU SAUDOSO MARIDO SIMÕES LOPES NETO, QUE FOI POR MIM DOADO AO DR. MOZART VICTOR RUSSOMANO. (Assinatura no verso).”

Verso do cartão da imagem anterior, com a assinatura, já trêmula, de Dona Velha, pela idade avançada.

 Um outro cartão 25, em branco, com a referida espada.

Seria este “poster” acima, com o projeto (não aprovado) de João Simões Lopes Neto para o túmulo do General Bento Gonçalves, na cidade de Rio Grande, RGS,a única prova da mítica 3ª Série Brasiliana???

Acima, frente e verso do cartão de Mozart Victor e Gilda Russomano, entregue com a espada de Bento Gonçalves ao Dr. “X”.

Notas:

[1] Bento Gonçalves: Coronel de Estado-Maior Bento Gonçalves da Silva (Triunfo, 23/9/1788-Pedras Brancas, 18/7/1847), um dos líderes da Revolução Farroupilha, a luta armada a favor da separação do Rio Grande do Sul/RGS do Império do Brasil. (Dados tirados do endereço pt.wikipedia.org/wiki/Bento_ Gonçalves_da_ Silva).
[2] Semana Farroupilha: festividade gaúcha que comemora, de 13 a 20 de setembro, a Revolução Farroupilha, seus líderes e as tradições do RGS.
[3] Brigada: Brigada Militar, a Força responsável pela segurança pública no RGS.
[4] João Simões Lopes Neto (Pelotas, 09/3/1865-Pelotas, 14/6/1916): o maior escritor regionalista do RGS
[5] “Dona Velha”: apelido carinhoso de Francisca Meirelles Simões Lopes (Pelotas, 02/4/1873-Pelotas, 03/01/1965), a esposa e viúva de João Simões Lopes Neto.
[6] Dona Aracy Gigante (Pelotas, 17/7/1914-Pelotas, 19/4/2002): a mestra fantástica que atuava inclusive num tipo de homeschooling, e que alfabetizou e ensinou, na infância, a autora, que fez os exames regulares do Primeiro Ano Primário no Colégio São José, em novembro ou dezembro de 1956, ingressando aos 6 no 2º Ano, em 1957, como a caçula da Turma e como uma das suas três melhores alunas, numa posição disputada – e  alternada – com Bita (Beatriz) Nunes e Heloísa Coutinho.
[7] “Diário Popular”: jornal tradicional e conceituadíssimo de Pelotas, RGS.
[8] Mozart Victor Russomano (Pelotas, 05/7/1922-Pelotas, 17/10/2010): Catedrático, escritor, poeta, Ministro vitalício do Poder Judiciário (Tribunal Superior do Trabalho/TST) e o “Papa” do Direito do Trabalho no Brasil.
[9] Pai (do Ministro Dr. Mozart Victor Russomano): Dr. Victor Russomano (Pelotas, 12/10/1890-Caxias do Sul, 20/9/1937), médico obstetra, advogado e político que foi, por duas vezes, Deputado Federal e Constituinte em 1934.
[10] Barroso: Rua Almirante Barroso, ex-785, hoje 2229, entre as ruas Voluntários da Pátria e General Neto.
[11] (…) meus Pais: Dr. Mozart Victor Russomano e Dra. Gilda Maciel Corrêa Meyer Russomano (Rio de Janeiro, 18/9/1923-Pelotas, 18/8/2007).

 

*Arquiteta e professora