ARTIGO – 41 ANOS EM TORNO DA MESA!

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41 ANOS EM TORNO DA MESA!

Neiff Olavo Gomes Satte Alam*

 (Eu estava lá neste primeiro dia)

Sempre foi necessária mais imaginação para apreender a realidade do que para ignorá-la. (J. Giraudoux)

Pelotas 13HORAS, de 06 novembros de 1978 até os 41 anos que se seguiram… Boa tarde! Reunidos em torno de uma enorme mesa de madeira nobre e escura, com dez microfones bem distribuídos e com uma pauta carregada de hipertextos que a transformam em uma agradável viagem com escalas imprevisíveis, reúnem-se os convidados do Clayton Rocha. As escalas são atemporais e podem ocupar qualquer espaço no planeta, em frações de segundos vai-se de Pedro Osório ao Vaticano e se retorna à mesa. Em torno desta mesa cruzam-se conversas amistosas, agressivas, irônicas, enfim, qualquer coisa pode ocorrer quando os participantes ficam descontrolados pela veemência, pelas argumentações afoitas (ou não), pelas diferenças ideológicas e partidárias.

Argumentos os mais variados surgem como se fossem coelhos saindo da cartola de um mágico. A diversidade de pensamentos é tal que os debatedores não conseguem escutar quando alguém fala e terminam por falar simultaneamente. É como se estivéssemos todos junto a um balcão do antigo Bar Baby (um bar que se localizava nos anos 60 na Barroso esquina Gomes Carneiro) debatendo política, futebol, arte, filosofia, educação e….o que mais aparecesse. Enquanto um grupo debatia acaloradamente os ouvintes das mesas próximas ficavam a dar palpites. De certa forma a fauna toda (papagaios falantes e corujas ouvintes) interagia, até mesmo torcidas surgiam e gritos de apoio a um ou outro debatedor era fato comum.

Uns apoiando Fidel Castro, outros apoiando Pinochet (agora tem o Chavez que é uma mistura dos dois) e ainda uma série de outros “apoiamentos” a políticos de todas as ideologias possíveis ou imagináveis. Trabalhistas, petistas, neoliberais, fascistas e lacerdistas degladiam-se sob o controle – quando possível controlar – de nosso âncora. E os ouvintes? Bem! Estes (im)pacientemente escutam, tomam partido de um ou outro debatedor, incomodam-se quando dois, três ou…todos falam ao mesmo tempo, mas interagem, participam, alguns, não resistindo a incapacidade física de responder ou argumentar, deslocam-se até os estúdios, sobem sete andares de escadas e entram disparando seu verbo como se estivesse conversando com pessoas que conhece a muitos anos, mas que somente conhece suas vozes.

É isto aí amigo Clayton, teu programa, nestes 41 anos, faz parte do diálogo que toda a cidade deveria ter com e entre seus cidadãos. É aquela conversa do antigo Bar Baby, é a conversa que está sempre começando no Café Aquário(s), mas que não termina nunca para que se possa retomá-la no dia seguinte. De qualquer forma é a realidade que se busca apreender. São os fatos que mobilizam a cidade, o estado, o país e o mundo que discutimos em torno desta mesa de madeira nobre e escura onde nada é ignorado para que a Grande Pelotas tenha uma hora e meia de atenção e diálogo e que o Cancelão, Catimbau, Vila Freire, Açoita Cavalo e, pela Internet, o resto do mundo, lugares distantes do Café Aquário(s) sintam-se parte deste pequeno grande universo em que vivemos. Uma pauta flexível, isto é, sabemos como começa o Programa, mas nunca sabemos como vai terminar, pois uma fantástica não-linearidade permitirá uma atualização constante dos assuntos e suas consequências. Bem, terminamos …. O tempo é nossa limitação implacável.

Pelotas, 06 de novembro de 2019, 14 horas e 30 minutos, até amanhã, quando iniciaremos os próximos 41 anos!

 

*Professor e Integrante da Equipe Treze Horas desde o primeiro programa!