ARTIGO – 1º DE JULHO DE 1997 – HONG KONG, CHINA – HORA ZERO

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Primeiro de julho de 1997 – Hong Kong, China  –  Hora Zero

Por Clayton Rocha

Uma limousine prata estaciona junto à porta principal do Centro de Convenções e Exibições de Hong Kong. São 20 horas do dia 30 de junho de 1997 e o Príncipe Charles, em nome da Inglaterra, vive momentos de despedida: é noite na Ásia e a chuva cai abundantemente sobre esta Hong Kong que continuará a ser dominada pelos ingleses pelo menos  durante as próximas duas horas. Assisto, em privilegiada posição, a “cerimônia do adeus”, que eles chamam de “dia do Handover.” A cidade é pura luz. Todos os olhares se concentram na Baía de Hong Kong. Ali é o endereço do show: exatamente à zero hora, quando a China receber de volta o seu famoso território, assistiremos ao maior espetáculo de fogos de artifício deste  final de milênio neste lado de cá do mundo.

Barcos com bandeiras vermelhas fazem evoluções nas águas da Baía, a cidade tem mensagens luminosas de boas vindas no alto dos edifícios, 10.000 soldados do Exército Verde marcham em direção ao território, um relógio com a contagem regressiva é a atração principal lá na Praça da Paz Celestial, em Pequim. A China terá, em pouco menos de duas horas, uma vitrine ocidentalizada aberta para o mundo. É como se ventos fortes fossem capazes de vergar a Cortina de Bambú,  e nos  permitissem ver todos os mistérios da República Popular da China.

Dois Jumbos acabam de aterrisar no Aeroporto Kai Tak. A bordo, duas celebridades chinesas. Autoridades e jornalistas abrem guarda-chuvas e caminham em direção aos tapetes vermelhos. Estão chegando Jiang Zemin, Presidente da China, e seu Primeiro-Ministro Li Peng. Um em cada avião, por questões de segurança. Ainda na tarde de hoje, lá em Pequim, um Presidente eufórico falou à multidão diretamente do balcão do Palácio do Povo. As suas palavras pediam a unidade chinesa e destacavam o significado histórico deste dia.

Enquanto ele desce do avião da Air China aqui em Hong Kong, a televisão mostra a sequência das comemorações, na capital. A Praça Tianamenn é a vitrine da alegria chinesa. Os  14 milhões de habitantes de Beijing, expressão que em mandarim significa “capital do norte”, extravasam toda a emoção contida por alguns séculos. Telões nos mostram Beijing ao vivo. Luminosos de Hong Kong exortam à unidade chinesa: o povo pede por uma China única. O repórter sabe que tudo é apenas  uma questão de tempo: Macau e Taiwan têm os seus dias contados.

O território governado pelo General Rocha Vieira já tem até mesmo dia e hora determinados para a devolução: 20 de dezembro de 1999. Nesta data, uma Macau portuguesa há 480 anos  voltará à Mãe-Pátria.

Sinto a intensidade  histórica deste momento.

Na condição de convidado do Governador de Macau, integro a comitiva do território português  que ocupará lugar especial no Centro de Convenções e Exibições aqui de Hong Kong, onde o anfitrião, Jiang Zeming, Presidente da China, apertará a mão de oitocentos convidados. O Governador Vasco Joaquim Rocha Vieira é amigo pessoal do Presidente. Ele e o então  Presidente de Portugal Mário Soares  estiveram com Zeming  durante inúmeras negociações realizadas no Palácio do Povo. Vivo com a máxima intensidade este momento histórico. Entro no território com um carimbo inglês em meu passaporte e saio com um carimbo chinês.