
Lourenço Cazarré*– O senhor vai ser rápido?
– Vou lhe tomar, quando muito, quinze, vinte minutinhos.
– Vá em frente!
– Começo dizendo que não posso exigir da senhora que acredite em mim. Sou apegado à verdade, embora às vezes não seja plenamente sincero. Não minto, mas nem sempre digo o que deve ser dito…
– O senhor admite que nem sempre é sincero, mas, mesmo assim, quer ser escutado. Entendi bem?
– Exato. Tento ser totalmente verdadeiro, mas a linguagem tem nuances. Digo que não sou sincero porque jamais enuncio a verdade última. Por quê? Em primeiro lugar porque a verdade resplandece como o sol sobre o deserto. Não conseguimos olhar para ela sem ficarmos cegos, ainda que momentaneamente. Além disso, sou excessivamente gentil e delicado. Detenho-me muito antes de ingressar no âmago dolorido dos fatos.
– O senhor não me parece muito modesto.
– A senhora promotora tem razão. Não se pode asseverar que eu seja uma pessoa que pratica fanaticamente a humildade, não. A senhora certamente prestou atenção no modo como eu a abordei. Fui respeitoso, porém altivo. Aprendi com meu pai, que me dizia: “nunca se engrandeça, mas jamais se diminua”. Não me vergo abjetamente como a maioria das pessoas que procuram o socorro de uma autoridade.
– O senhor não teria um documento explicando o que deseja?
– Não. Trago sucintas anotações que fiz, hoje, ao amanhecer. Atravessei parte da noite refletindo sobre o que dizer à senhora… Esses breves apontamentos constituem a coluna dorsal da minha fala.
– Por favor!
– Bem, aqui está o primeiro registro. Generosidade! Quero, de pronto, confessar-lhe esse pecadilho. Não sou uma pessoa magnânima. Não me refiro a bens materiais, evidentemente. Todo mendigo que bate à minha porta é contemplado com um naco de pão. A minha falta de generosidade é apenas no que se refere às coisas do espírito. Generoso é aquele que traz a palavra certa na hora da atribulação. Generoso é o que pratica a amizade desinteressada…

– O senhor é um egoísta?
– Não. Na verdade, sou o oposto do egocêntrico. Eu não me valorizo. Não me julgo um homem importante, bom ou decente. Se alguém quiser me definir, que diga: “trata-se de um homem destituído de qualidades”. Ora, nada tendo na alma, nada possuo para compartilhar com os demais seres humanos.
– Talvez eu não esteja…
– Tentarei ser mais claro. Não se espere de mim, em instante algum, que eu possa conceder uma palavra de incentivo a alguém. Não sou um fã ardoroso deste mundo e essa lamentável lacuna espiritual me impede de ser entusiástico quando se trata de injetar otimismo nos que me cercam.
– Compreendi. Vamos em frente.
– Permita-me, senhora promotora, que eu me transfira à anotação seguinte. Solidariedade. Eis aqui uma virtude das mais louváveis, tendo em vista que se localiza no cerne da ética religiosa. Ser solidário é, dizem os dicionários, partilhar o destino dos nossos irmãos, sofrer com os que penam e exaltar-se com os que são surpreendidos pela errática flecha da felicidade. Infelizmente, também não posso adentrar esse terreno. Entristeço-me com a melancolia dos outros, mas não tenho condições de comungá-la. Meus ombros estreitos não suportariam um quinhão adicional de tristeza. Há anos arrasto carga excessiva.

– Mesmo ainda não percebendo a que ponto o senhor quer chegar, pergunto: já procurou antes outra autoridade?
– Sim. Tempos atrás, eu me dirigi ao juiz titular desta comarca. Talvez por ser muito atarefado, o senhor magistrado mostrou-se ríspido comigo. Não permitiu que eu me sentasse, como o fez a senhora. Mal dei início à minha peroração, ordenou-me que deixasse a sala. Fez-me entender, recorrendo a expressões do jargão jurídico, que se debruçaria sobre o meu caso e que me convocaria em breve. Não foi, porém, o que se deu. Por mais de ano aguardei, em vão, o chamado do nobre meritíssimo.
– O senhor está querendo insinuar que o juiz…
– Não! De modo algum! Sei como são intrincadas e vagarosas as tramitações judiciais. Continuo aguardando, esperançoso, pela convocação do senhor magistrado, mas resolvi ampliar o meu leque de contatos. Então decidi vir até aqui solicitar a sua intervenção, senhora promotora. Assim, portanto, estou apenas dando mais um passo nessa minha incansável peregrinação em busca de Justiça.

– Prossiga!
– Passo à terceira acusação. Integridade. Não sou, também, um homem íntegro. Recorramos ao dicionário. O que seria uma pessoa íntegra? Numa linguagem rasteira se poderia dizer que íntegro é todo aquele que não se deixa corromper. O mundo das ideias, porém, é bem mais sutil. Lá não são admitidas sentenças definitivas. Eu nunca aceitei um centavo a mais que me fosse dado por um bilheteiro desatento. No plano da alma, porém, não posso alegar integridade porque cedo a qualquer investida desonesta…
– Dê um exemplo!
– Se me gabam a humildade e a generosidade, eu não rechaço de imediato essas afirmações errôneas. Eu me calo e gozo em segredo o elogio. Ora, eu deveria repelir de pronto, e vigorosamente, todo e qualquer encômio. Esses curtos segundos de iníqua indecisão provam, de modo cabal, que não sou íntegro.
– Não seja excessivamente duro consigo mesmo! Pelo que entendi, o senhor quer que eu abra um processo criminal contra o senhor. É isso mesmo?
– Exato. Recorri à senhora porque advogados que militam neste fórum foram unânimes em elogiar a sua competência.

– O senhor poderia resumir o seu pleito?
– Sim. Eu gostaria de ser acusado de desumanidade… Não, não ria. É exatamente isso que almejo. Não pertenço ao que se chama humanidade. Não sou um homem. Ou, dito de outra forma, sou um cidadão desprovido desse nobre sentimento. Por essa, digamos, deformação moral quero sofrer processo, julgamento e condenação. Se estivéssemos em outro tempo, mais impiedoso, eu gostaria inclusive de ser supliciado e morto com crueldade. Talvez queimado em pira ou garroteado… O que dizem os dicionários a respeito da palavra humanidade? Sentimento de clemência de um homem para com outro. Não carrego comigo esse sentimento. Por quê? No fundo, creio que ninguém é inocente e que, portanto, ninguém merece piedade. Todos deveriam ser condenados. E eu, para dar o exemplo, deveria ser o primeiro.
– O senhor não está de todo errado…
– Vejo que a senhora sorri. Diverte-se. Entende a minha solicitação apenas pelo seu lado histriônico, que é notável, reconheço. Mas eu continuo… Humanidade quer dizer, em suma, benevolência. Essa é uma virtude que me falta. Não obstante, não chego a ser malévolo. Sou apenas indiferente às atribulações do ser humano. Humanista é a doutrina que consagra o homem como o centro do universo. Não me filio a essa corrente. Tenho fortes e fundamentadas dúvidas sobre o propalado valor da pessoa humana.
– Pensando bem…

– Hoje cedo, ao nascer do dia, ainda deitado, eu organizava mentalmente a argumentação que apresentaria à senhora quando, de repente, meus pensamentos foram tragados pela cantoria dos passarinhos nas árvores do pátio. Comovido, fui empurrado às lágrimas pela beleza daquele canto.
– O que tem a ver o pipilar dos passarinhos com sua pretensa desumanidade?
– Tudo. O que mais prezo neste mundo é o som da voz humana. Nada me parece mais interessante do que a conversa entre duas pessoas. Seja a algaravia de duas crianças que balbuciam as primeiras palavras, seja uma conversação sarcástica entre dois intelectuais. Mas, mesmo admirando a voz dos homens, conclui, hoje, que mais linda ainda é uma conversação entre pássaros.
– Entendi. Acato seu pleito. Vou processá-lo. Mas, para que a ação seja iniciada, quero que o senhor se submeta a um teste psicológico.
– Uma avaliação psiquiátrica antes de dar início ao processo? Compreendo, é procedimento rotineiro na Justiça. No entanto, devo adverti-la que fui aprovado no teste que fiz ao renovar recentemente minha carteira de motorista. Ficou comprovado que sou mentalmente equilibrado.

– Qual é a sua profissão?
– Bacharel em Ciências Contábeis. Sou proprietário de um escritório que conta com três empregados e vinte e sete clientes, pequenos e microempresários.
– O senhor tem algum passatempo?
– Sim. Eu poderia dizer que sou lexicógrafo amador. Pratico essa arte discretíssima à noite e nos finais de semana. Sempre que tenho um tempo livre, leio loucamente os glossários em busca das mais belas palavras. Devo confessar à senhora que esse passatempo me proporciona um prazer que tangencia a obscenidade.
– Foi garimpando em dicionários que o senhor descobriu que era desumano?
– Exato! Belíssima essa metáfora pincelada pela senhora doutora! O garimpeiro dos vocábulos! Sim, enterro a enxada ao lado das palavras e a puxo com força. As palavras me surgem agarradas às próprias raízes. Cuidadosamente, eu as livro da terra escura…

– Voltemos aos fatos.
– Bem, fazia eu uma pesquisa linguística sobre os polissílabos morais. Sinceridade. Humildade. Generosidade. Solidariedade. Humanidade. Saiba a senhora que nada é mais tenebroso do que a lavra acurada dos vocábulos de quatro sílabas ou mais. Então, certa noite, de súbito, me veio a iluminação. Sou um ser abjeto, um criminoso. Sou um vivente destituído de humanidade!
– Compreendo. Mas me mate uma curiosidade: por acaso, o senhor examinou a palavra felicidade?
– Não. A felicidade não nos suscita indagações morais profundas. Cada um se sente feliz de um modo diverso.
– O senhor diria que sou uma mulher feliz?
– A senhora, inegavelmente, é possuidora de um sorriso aberto. Baseado apenas nos traços de seu rosto, franco e alegre, belo e jovem, eu diria que a senhora é feliz. Mas, como sou adorador da incerteza, nunca coloco as minhas fichas todas numa só hipótese. Pode ser que, no fundo do seu coração, a senhora carregue um pouco de amargura.

– Está bem: denunciarei o senhor. Mas, antes de sair, me responda a uma última pergunta. Sobre a verdade, o que o senhor teria a dizer?
– Nada. Não é um polissílabo.
*Lourenço Cazarré é escritor
(*) Do livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas











