A RORÔ E A SENHORA DE PRETO

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A Rorô e a senhora de preto

Henrique Pires*

Naqueles dias, funcionava junto aos camarotes do primeiro andar, o foyer do Teatro Sete de Abril. Vendiam alguns docinhos variados, vinho em taças, água mineral. Pouca coisa. Só abria após o término do espetáculo que acontecia no palco. Era a segunda metade dos anos noventa e naquela noite Ângela Rorô tinha feito um show inesquecível, realmente inspirado.

Cantava, ela mesmo tocava um teclado de alta qualidade, a plateia cantava junto e ela ainda contava ricas histórias da sua trajetória pessoal. O público adorou. Terminada a apresentação, os patrocinadores da tourne ofereceram um brinde a alguns convidados e eu estava entre eles.

Para a Rorô, e só para ela, havia uma garrafa de um caro whisky, coisa que parece constava do contrato. Quando chegou no local do drink vinda do camarim, logo foi cercada por amigos e admiradores que engrenaram uma conversa animada. Uma jovem senhora, cujo marido já tinha saído, tentou duas vezes entrar no assunto da roda. Pequeninha, vestida de preto, aparentava ter tomado “todas” durante aquele recital da cantora. Não era permitido entrar com bebidas no teatro, mas não raro alguém enchia uma garrafinha de plástico – dessas de água mineral – com sua birita favorita e a levava escondida para ir bebericando de maneira discreta. Parece que aquela senhora era adepta dessa prática, aliás combatida sem sucesso pela equipe casa de espetáculos.

Quando o garçom surgiu com um copo alto, com muito gelo e até a boca com aquele destilado escocês, a jovem senhora de preto, como um cão Setter, de caça, “amarrou”. De fininho, pé ante pé, parecendo cachorro treinado para caça de perdiz no pio, tão logo a Rorô largou o copo na mesinha ao lado, a pequenina não se fez de rogada: o pegou na mão e tomou o que em bom gauchês se convencionou chamar de “talagaço”.

Mas, era da Ângela Rorô! Que imediatamente reagiu, sem dizer qualquer palavra, desferiu dois sopapos na intrusa, que saiu ligeira e cambaleante pela mesma porta pela qual havia entrado. Por incrível que possa parecer, parece que saiu feliz. Foi para a frente do teatro e contou várias vezes para quem perguntava como tinha sido o show : “foi maravilhoso. Mas a Ângela hoje está um pouco nervosa. Imagina só, do nada me deu dois tabefes”.

Vá entender…

*Henrique Pires é jornalista e historiador.