
Théo Rochefort*
Fiquei perplexo com as posições assumidas pela maioria da mesa do Treze em relação ao julgamento de Bolsonaro e dos demais na última terça-feira. Queria estar no programa para me contrapor porque, independente de ideologia, que cada um tem direito de ter a sua, o que está em jogo é algo diferente é maior, são princípios republicanos e democráticos que o país precisa, como nunca, recuperar e consolidar.
Ouvir que Bolsonaro não cometeu “nenhum” crime ofende a inteligência dos ouvintes do programa. Todos conhecemos o capitão Bolsonaro, que foi desligado do Exército por planejar explodir uma bomba. Todos vimos – ou deveríamos ter visto – as declarações inconsequentes desse sujeito na Câmara Federal e em entrevistas como deputado. Seja defendendo a tortura, o regime de exceção de 1964, a morte de milhares de brasileiros, inclusive de FHC, por considerá-los inimigos do regime militar, exaltar o torturador Ustra, que morreu sem pagar pelos seus crimes, desacatar jornalistas MULHERES, sempre mulheres, e até dizer que a deputada Maria do Rosário não “merecia” ser estuprada por considerá-la “muito feia”.
Ora, o Brasil teve inúmeros líderes políticos de direita, respeitáveis, preparados, dignos da defesa de uma ideologia, que mesmo não sendo a minha, aprendi com meu pai a respeitar. Respeitar as diferenças dentro de um ambiente democrático, tolerante e civilizado.
Não é o caso de Bolsonaro e o bando que o acompanhou em seu desastroso governo. Um governo negacionista, autoritário, corrupto é que teve como único projeto destruir por dentro o Estado brasileiro e impor retrocessos a sociedade brasileira. Não vale a pena tecer comentários sobre a condição intelectual de Bolsonaro, me atenho às suas atitudes no cargo mais importante da república. Por negar a vacina, morreram 700 mil pessoas. Por negar a Covid, até oxigênio faltou em Manaus. Por desprezar os princípios humanitários, zombou de doentes e mortos. Por desrespeitar a democracia – que não pertence a ele nem a ninguém, mas se trata de uma construção difícil, longeva e coletiva, civilizatória -, aparelhou instituições públicas como a Abin, destruiu setores e até ministérios importantes, tentou desmoralizar o nosso moderno sistema eleitoral, atacou poderes públicos como o Supremo.
São infindáveis os desatinos e graves crimes – crimes sim, agravados por seu cargo – cometidos ao longo de 4 anos. 1964 ainda não acabou. O 8 de janeiro é um sintoma disso. Não é possível minimizar esse acontecimento. E 1964 não acabará enquanto os efeitos da inaceitável lei de anistia de 1979 vigorarem. O Brasil segue como um exemplo internacional de desrespeito aos direitos humanos. Lamento que muitos dos militares responsáveis por graves crimes contra humanidade já tenham morrido. Sem serem julgados.
O que envergonha este país, na minha opinião, é não conseguirmos virar a triste página da história marcada pela tortura, pelos desaparecimentos e pelas mortes. Não sermos capazes de elaborar esse período mórbido da história para avançarmos como sociedade, fazendo justiça.
O senhor Bolsonaro jamais poderia ter chegado à presidência do Brasil. O fato de ele ter chegado é um sintoma do nosso fracasso como sociedade democrática, um fracasso na tentativa de darmos uma esperança às novas gerações de que o Brasil pode e deve ser um grande país.
Me solidarizo com todos os que resistem na defesa de um Brasil democrático e de uma justiça que cumpra seu papel.
*Théo Rochefort, jornalista, assessor de imprensa PSB Nacional











