ARTIGO – DONALD TRUMP, PEDRO E O LOBO

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DONALD TRUMP, PEDRO E O LOBO

Marcelo de Oliveiras Passos*

Donald Trump, presidente norte- americano, anunciou no dia 6 de março que os EUA suspenderão temporariamente grande parte das tarifas que tinham sido anunciadas com estardalhaço e que eram direcionadas ao México e ao Canadá. Detalhe: este anúncio foi feito dois dias antes.

Com este novo recuo de Trump, a maioria das tarifas aumentadas para 25% sobre produtos mexicanos e canadenses ficam, até 2 de abril, congeladas. Trump tomou esta decisão após conversar presidente do México, Claudia Sheinbaum. Nos últimos dias, os avanços e recuos de Trump mais se parecem com séries de streaming do que propriamente com notícias de negociações bilaterais. Várias emoções a cada capítulo.

Eu li o livro do então empreendedor imobiliário Donald Trump, “A Arte da Negociação”, quando era adolescente, logo quando foi lançado, em 1987. Já naquela época achei o cara arrogante. Depois, assisti à  entrevista que ele concedeu para a Bruna Lombardi, na extinta Rede Manchete, onde ele novamente mostrou ser prepotente e machista. Porém, à parte minha impressão sobre seu caráter, pude notar pela leitura do livro o que era óbvio: um grande talento como negociador, ainda que se valesse de estratégias pouco convencionais e até deselegantes (algo que não é tão incomum para empresários do setor da construção pelo mundo afora).

Jamais poderia pensar que, décadas depois, ele as usaria para subverter todos os procedimentos recomendáveis em negociações de comércio internacional descrita nos melhores manuais acadêmicos sobre o tema. Quando lecionava Economia Internacional eu dizia aos meus alunos que a diplomacia envolvendo tais negociações era muito complexa e requeriam paciência, planejamento de longo prazo, conhecimento de teoria dos jogos e toda a arte envolvida em negociações de  qualquer tipo (as quais se aprende mais pela experiência do que propriamente pelos livros). Estes alunos estão assistindo diariamente Trump subverter tudo o que estes manuais dizem sobre o assunto

Mas vamos à estratégia clássica de Trump: primeiro ele anuncia com estardalhaço um aumento unilateral de tarifas. Com isto, ele segue a lógica do seu marqueteiro e ideólogo mais famoso (e condenado criminalmente por fraude e lavagem de dinheiro): Steve Bannon, o qual também assessorou a família Bolsonaro na campanha de 2018. A lógica: ocupar a mídia com fatos, factóides ou fake news para reduzir a sua margem de notícias destinada a críticas ao governo. Garantir a manchete do dia, para Bannon e Trump,  é essencial, não importando a qualidade do fato ou da fake news. Muito poucos lêem o que os comentaristas sérios e críticos dizem a respeito das notícias mais impactantes. Aliás, muitos sequer lêem tais notícias, ficando apenas nas manchetes e imagens de redes sociais e TVs. Sem falar que tais ações midiáticas reforçam sua imagem de negociador implacável e agradam ao seu eleitorado.

Só que, em jogos não-cooperativos e sequenciais, como são os jogos envolvendo comércio internacional, as reações do países envolvidos nas bravatas trumpistas e dos importadores e empresas norte-americanas prejudicadas pela elevação de tarifas, podem inviabilizar seu ganho de popularidade. Em um dia, ele se mostra assertivo, combativo e forte. Mas, 48 horas após ele volta atrás. Porém, quando retrocede ele desagrada os que se beneficiariam da medida, os quais, em geral, são setores que votaram nele e que apoiaram financeiramente sua campanha. E também desagrada parte daqueles que acreditaram na notícia de apenas 48 horas antes.

É aí que está a fragilidade desta estratégia de negociação: no médio e longo prazo ela não se sustenta. Não é capaz de criar uma reputação confiável para o próprio governo Trump. O mundo inteiro (e seus próprios apoiadores) percebem que muitas das suas ameaças são apenas bravatas para agradar seu eleitorado. Isto se chama, em teoria dos jogos, ameaças não críveis. Tais ameaças fragilizam a reputação de quem as faz.

É como no poema sinfônico de Pedro e o Lobo, composto em 1936 pelo russo Sergei Prokofiev. A moral da história é que, cedo ou tarde, poucos acreditarão em mentirosos e bravateiros, mesmo quando eles dizem a verdade.

*Marcelo de Oliveira Passos – Professor e pesquisador do Mestrado e Doutorado em Economia Aplicada da UFPEL – (PPGOM/UFPEL)