ARTIGO – O RETORNO DO LOBÃO: UMA PAIXÃO CENTENÁRIA

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O Retorno do Lobão: Uma Paixão Centenária

Pedro E. Almeida da Silva*

Foi há muito tempo, por volta do fatídico e de triste memória ano de 1964, que recebi de presente um fardamento do Esporte Clube Pelotas. Orgulhoso entrava em campo com  Valter, Piva, Puccinelli, Toquinho e outros que formavam, aos meus olhos, um time de gigantes. Tornei-me um torcedor apaixonado pelo Lobão, talvez também por herança genética, um gene áureo-cerúleo que se expressa unicamente na fanática torcida do Lobo e que certamente herdei do meu pai, um torcedor como poucos. Ele, sempre atento, acompanhava o trabalho do auxiliar durante os 90 minutos, seguindo-o na lateral do campo e expressando veementes “comentários” e “sugestões”.

O Esporte Clube Pelotas é um clube centenário que carrega com orgulho o nome da sua cidade, de fato, a cidade do Pelotas. Tem o mais antigo estádio em atividade no país, funcionando ininterruptamente nestes seus 116 anos de existência. Com uma torcida apaixonada e fiel, mantém uma sala repleta de premiações que, embora aberta esporadicamente, continua a receber novos troféus, como, por exemplo, as recentes conquistas da Recopa Gaúcha.

Entretanto, o futebol ficou caro, e os clubes, especialmente das regiões mais empobrecidas do país, tornaram-se vítimas de uma assimetria socioeconômica que também se manifesta em outros setores. Apesar de restar pouco da pujança de outrora, nada se perdeu do amor da torcida ao Lobão. Recentemente, presenciei, com orgulho, um time tecnicamente limitado, mas com a disposição e a  valentia dos guerreiros de outrora, além de bem dirigido tecnicamente, ser apoiado por uma torcida repleta de jovens apaixonados por um clube que, talvez, muitos deles ainda não tenham visto conquistar grandes vitórias ou, ao menos  ainda não sentiram o enorme prazer de degustar “guaraná com chocolate” fora de casa.

O Lobão voltou para a primeira divisão, seu lugar natural. Os jogadores e dirigentes mostraram coragem e resiliência incomuns e merecem o nosso reconhecimento. Mas o futuro será difícil e exigirá mais do que nossa alegria e aplausos. O clube necessitará muito do apoio de nossa fiel torcida, associando-se e engajando-se nas ações propostas pelos dirigentes. Entretanto, como tem se observado na gestão dos clubes de futebol, ainda será preciso mais do que o apoio do torcedor; será fundamental buscar alternativas inovadoras que possam garantir a sustentabilidade do clube, permitindo o planejamento a longo prazo. Mas, por hora, a cidade, ou a maior parte dela, comemora, merecidamente, a volta do Lobão.

*Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande – FURG – Bolsista de Produtividade do CNPq