
PELOTAS SE ACOSTUMOU COM OS ROUBOS DE FIOS DE COBRE
Paulo Gastal Neto*
Mais grave do que o roubo contumaz de fios de cobre na cidade é a inércia dela em relação a esse delito. Nos acostumamos a ele como se fosse uma normalidade. O roubo de fios de cobre deixou de ser um problema isolado para se transformar em um verdadeiro método de degradação urbana, principalmente nos cruzamentos onde existem sinaleiras. Em 2025, foram quase 50 cruzamentos com semáforos inutilizados por conta dessa prática. Em 2026, o roteiro se repete, como se nada tivesse acontecido. Objetos dos furtos aprendidos? Nem pensar. Sequer enfrentamos o problema com uma ação efetiva e necessária. Essa é uma questão que não trata mais apenas de pequenos delitos, tornou-se uma prática incorporada à rotina da cidade e de um ataque direto ao funcionamento dela.
Mas valos além: o episódio do furto de fios da Catedral Metropolitana não é apenas mais um registro policial e sim um símbolo. Quando nem um dos espaços mais representativos da cidade é preservado, fica evidente que o problema ultrapassou qualquer limite de tolerância. E enquanto isso, a rotina segue sendo impactada de forma concreta: cruzamentos apagados, trânsito caótico, risco ampliado de acidentes e uma população exposta a uma desordem que poderia e deveria ser evitada.
A pergunta que se impõe não é nova, mas continua sem resposta convincente: onde está a ação efetiva para conter esse tipo de crime?
É evidente que há dificuldades operacionais. Crimes desse tipo são rápidos, muitas vezes praticados na madrugada e com baixo risco imediato para quem os executa. Mas isso não pode servir de justificativa para a repetição quase sistemática dos casos. Há um ponto central que precisa ser enfrentado com mais rigor: a cadeia de receptação. O cobre furtado não evapora. Ele é vendido. Ele entra no mercado. E alguém compra.
Sem fiscalização séria e constante sobre os ferros-velhos e pontos de sucata, o combate ao roubo de fios será sempre parcial, ineficaz. Não basta enxugar gelo prendendo executores ocasionais enquanto o circuito econômico do crime segue funcionando sem maiores obstáculos. É aqui que o poder público precisa sair do discurso e entrar na prática. Não se trata de retórica, mas de prioridade. De coordenação entre segurança pública, fiscalização municipal e órgãos competentes. De presença efetiva, e não apenas reativa.
O que mais inquieta, no entanto, é o risco de normalização. A repetição desses episódios começa a produzir um efeito silencioso: o da resignação. E uma cidade que se resigna com o colapso gradual de sua infraestrutura está, na prática, aceitando perder qualidade de vida, segurança e dignidade urbana. Pelotas não pode aceitar isso como rotina. Porque cada fio arrancado não é apenas prejuízo material. É mais um sinal de que estamos permitindo que o básico deixe de funcionar à vista de todos.
*Radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br











