
O E.C. PELOTAS E O PREÇO DA MIOPIA DIRIGENTE
Paulo Gastal Neto*
Por mais de 20 anos atuei na crônica esportiva de Pelotas como repórter, setorista, comentarista e âncora do tradicional Papo da Bola da RU. Diariamente explanava opiniões sobre os mais diversos temas do nosso futebol e a que eu mais me dedicava estava ancorada numa tese absoluta e única, onde dizia que o E.C. Pelotas deveria focar o seu ideário num calendário nacional. Uma pregação desde os anos 90, quando o clube recebia convites da CBF para jogar a Série C do Campeonato Brasileiro (não existia Série D) e declinava sucessivamente para perplexidade dos torcedores.
Os anos passaram e abandonei a editoria que tratava do futebol, mas continuei acompanhando a trajetória do ECP, até mesmo participando do Conselho Deliberativo e, assim como muitos torcedores e associados testemunhei o clube enveredar por um caminho que era exatamente o oposto dos conceitos que estavam se formando naquele período. Não tinha como ser outro o desfecho em função das teses que eram defendidas e apresentadas. O cronograma do declínio não aconteceu por acaso.
Na década de 1990, especificamente, o futebol brasileiro passava por uma transformação estrutural. A profissionalização administrativa deixava de ser um diferencial e passava a ser um requisito. O calendário nacional se consolidava como ferramenta estratégica de sobrevivência financeira dos clubes médios e pequenos, mas o Pelotas não seguia aquele novo momento que estava se descortinando e era cristalino para quem vivia o futebol. Se visualizava um futuro sombrio. Alguns clubes do interior perceberam imediatamente e identificaram que disputar divisões nacionais não era luxo e sim necessidade. Investiram em gestão, categorias de base e planejamento plurianual. No Pelotas preferiu-se acreditar que tradição bastava.
Volto a lembrar sobre a pregação e os alertas que eram feitos também por colegas da crônica esportiva, naquele tempo, nos microfones e nas análises: clube sem calendário anual estaria condenado à instabilidade crônica, pois não há modelo sustentável quando se trabalha três ou quatro meses por temporada. O restante do ano se torna espera, improviso e acúmulo de passivos. Ficou muito fácil de perceber que as quedas do Pelotas não poderiam mais ser tratadas como fase, azar ou simples oscilação esportiva. Fases passam. Oscilações se corrigem. O que estava ocorrendo com o Esporte Clube Pelotas era fruto de um processo longo, cumulativo e previsível, resultado de diagnósticos improvisados e ações equivocadas.
Na Boca do Lobo consolidou-se uma cultura administrativa de curto prazo. Cada gestão iniciava com promessas de reorganização. Cada temporada começava do zero, elenco novo, discurso surrado e uma desconfiança sistêmica dos torcedores. Futebol não se faz com retórica e sim com planejamento. O problema central nunca foi apenas técnico, foi cultural. Instalou-se, ao longo dos anos, uma postura de autossuficiência. Críticas eram vistas como ataques. Alertas eram tratados como pessimismo. A tradição e o tal ‘patrimônio invejável’ do clube passaram a ser utilizados como argumento defensivo, quase como escudo contra mudanças. Mas tradição não paga folha salarial, história não garante calendário, camiseta não resolve déficit.
Volto a insistir: paralelamente, alguns clubes do mesmo porte – os exemplos estão aí – compreenderam que a presença constante em competições nacionais era o único caminho para estabilidade financeira e organizaram-se. Profissionalizaram seus departamentos e a busca pelo calendário permanente tornou-se meta institucional. O Pelotas permaneceu refém de um modelo surrado, velho, pois sem o tal calendário contínuo não há previsibilidade de receita, manutenção de elenco, estabilidade técnica, planejamento comercial e com isso falta credibilidade institucional.
O que restou ao Áureo-Cerúleo foram as reconstruções anuais, pois faltou humildade institucional para reconhecer os seus próprios limites. Faltou visão estratégica para compreender que o futebol havia mudado e faltou a tão necessária profissionalização efetiva e não apenas a nominal. Passaram-se mais de 25 anos e simplesmente o clube não saiu do lugar. Não avançou um milímetro. E não se trata de negar esforços de dirigentes abnegados que passaram pelas administrações, pois muitos dedicaram tempo e energia genuína e recursos próprios. Mas dedicação sem método não substitui gestão. Boa vontade não compensa ausência de planejamento.
A boa notícia é que ainda há saída. Mas ela passa, necessariamente, por rupturas. Reconstrução verdadeira que exige: profissionalização de departamentos; planejamento estratégico de médio e longo prazo; metas esportivas alinhadas à sustentabilidade financeira; calendário anual como prioridade absoluta; fortalecimento de categorias de base como possibilidade de negócios e viabilidade econômica; transparência que reconquiste a confiança e valorização patrimonial transformando-o em ativo financeiro. O que está posto ao Pelotas neste momento com nova proposta de gestão é um caminho, uma luz no fim do túnel que não pode ser ‘apagada’. Manifestações contrárias serão vistas como manutenção de um ‘status quo’ que continuará flertando com o atraso.
Sem um choque e novos horizontes, qualquer acesso será apenas um alívio temporário. Qualquer boa campanha de time improvisado será episódica. E o ciclo de reconstrução anual continuará. O Pelotas não precisa de discursos emocionados. Precisa de método. Não precisa de promessas de ocasião. Precisa de projeto. Não precisa viver de memória. Precisa construir futuro. Se o passado serve para alguma coisa, é para ensinar. Ignorar os erros das últimas décadas seria repetir o mesmo roteiro que trouxe o Lobão até aqui. O torcedor do Pelotas já pagou caro pela miopia administrativa. A pergunta que permanece é simples e definitiva: aprenderá com ela ou continuará apostando que tradição, sozinha, basta? A resposta não virá das arquibancadas. Virá das salas de reunião e do encaminhamento do novo que está aí proposto. Lembrem-se que reconstruir todos os anos não é projeto e sim a ausência dele.
*Radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br











