O BRASIL REGRIDE

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O BRASIL REGRIDE

Paulo Gastal Neto*

O Brasil regrediu, andou para trás, se idiotizou em alguns acasos nos últimos anos. A maioria das pessoas do país perdeu o sentimento de pertencimento a uma sociedade, deixou de lado a convivência harmônica, tenho dito; emburrecemos, ‘engatamos’ uma marcha a ré. E o pior: em percentual elevado e em muitos setores, até profissionalmente. O convívio respeitoso entre as instituições e poderes deu lugar às agressões verbais e quedas de braço, muitas vezes sem argumentos consistentes e partindo para verdadeiras brigas, que deixa grande parcela da população estupefata.

No último sábado (02.08) a imprensa brasileira divulgou um depoimento de um ex-funcionário da Voepass, empresa aérea proprietária da aeronave ATR 72-500, que caiu em Vinhedo-SP. Esse profissional presenciou a última manutenção do avião, na madrugada anterior a da queda, e revelou que horas antes de decolar, o ATR apresentou uma pane no sistema de degelo. A falha, que impediria o avião de viajar para Cascavel, foi omitida do diário de bordo e ignorada pela liderança da manutenção. A decisão causou a morte de 62 pessoas no dia 9 de agosto de 2024. A tal opção, absolutamente sem nenhum propósito ou justificativa, não só revelou a falta de integração profissional, como escancarou um descaso assustador. Não há cadeia de controle e não há crédito no sistema hierárquico que regule responsabilidades, normas e ações. Não há controle.

Noutro episodio, bem mais ameno, porém revelador da falta de boa conduta, mais um exemplo da falta de formação e sentido de integração social: Um amigo viveu necessitou acionar o Corpo de Bombeiros para atendimento à um sinistro em um local próximo a sua casa, um terreno. Chamou por telefone e não houve resposta. Quando alguém atendeu, tratou o caso com desdém. A cena acabou exigindo uma ação imediata deste meu amigo, que se deslocou até a guarnição dos bombeiros, aqui em Pelotas, para mostrar um vídeo revelando a extensão do incêndio, pois não havia canal de comunicação com a corporação. E o pior ainda estava por vir: ele guiou com seu carro o caminhão que demorou cerca de dez minutos para sair da guarnição. Em outro sinistro recente, um incêndio destruiu um supermercado a poucos quarteirões de onde se localiza o quartel, talvez também em razão da demora no atendimento, a falta de contingente, equipamentos obsoletos e a subestimação em relação a extensão do fogo. Os bombeiros, outrora,  eram uma das instituições com maior credibilidade junto a população. Hoje podemos perceber seu declínio. Aí está mais um passo para trás e a vulgaridade intelectual tomando conta. Os casos revelam uma absoluta falta de responsabilidade, causadas pela decadência e formação crítica dos profissionais, cada um em sua área.

Outra questão, não rara, é o acinte que sofre a Língua Portuguesa por parte de ideólogos que inoportunamente e sem conhecimento insistem em pregar uma reforma própria, sem o respaldo do classicismo exigido para as alterações no idioma. Mais um retrocesso intelectual e pobreza institucional. A regra gramatical não tem a ver com homem ou mulher e sim gênero masculino e feminino, mas na linguagem, e não se referindo ao ser humano. Senão vejamos: nós homens teríamos que usar a expressão “vou buscar o pão” dizendo às mulheres quando fôssemos à padaria. Já as mulheres nos diriam vou buscar “a pã”, numa situação semelhante. As mulheres subiriam “a escada” e os homens contra-atacariam com “a subida do escado”. Então, dizer “bom dia a todos” é absolutamente suficiente para incluir homens e mulheres. Desse modo, “todos e todas” pode ser considerado uma redundância (ou pleonasmo) de fato. Utilizar a expressão é mais que uma inadequação gramatical, é um pleonasmo vicioso tal qual “subir pra cima” e “descer pra baixo”. Uma deselegância. O professor ou quem a utiliza o faz em nome de uma “ideologia” e presta um desserviço à educação, à sociedade e ao seu idioma. Aí partimos para o emburrecimento total de uma nação.

E o Judiciário? Também outrora guardião da instância derradeira entre as pendengas de todos os tamanhos, reservava para si um moral inquestionável diante dos outros dois poderes da república. Agora, não diferente do legislativo e executivo, o Judiciário brasileiro não enfrenta somente críticas e acusações relacionadas à sua morosidade, excesso de processos, custos elevados e falta de acesso. Há também debates sobre a produtividade, a qualificação das estatísticas judiciais e a necessidade de melhorias na comunicação com a sociedade, mas sobretudo uma obrigação de se adequar a realidade econômica brasileira. Há também que primar pelo retorno ao comedimento, a sobriedade e a discrição, que eram elementos próprios dos juízes de boa estirpe. Este é um poder que não requer palco, holofotes midiáticos e performances beirando ao carnavalesco. O Judiciário brasileiro regrediu, se apequenou, perdeu autoridade moral e com isso ajudou o Brasil a dar mais um passo atrás e encaminhando o país para o mediocrização.

Por último a polarização política. O nosso país assiste uma briga interminável entre duas torcidas e não um debate altruísta em prol de uma consistente perspectiva de busca por um ideário comum, que é o fruto da boa política e do entendimento. Essa briga medieval entre feudos nos remete quase à Idade Média e os tempos do senhorio patriarcal. A política, seja talvez dos itens, o que mais regrediu. Perdemos atores de alto conteúdo intelectual, dando lugar a um grupo inigualável de homens medíocres, muitas vezes mal formados e pobres intelectualmente. Sem uma visão de sociedade, mas sim apenas da sua auto-preservação e na busca por ganhos financeiros e materiais.

A pobreza do Brasil, dos seus dirigentes e dos seus poderes, das suas instituições está estampada.

*Radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br