
METÁFORA DAS AMPULHETAS (LFB)
Luis Fernando Braga*
Depois de cada encontro, seja um abraço, uma conversa, uma mensagem, vem o afastamento, o espaço silencioso entre as pessoas. É nesse intervalo que a ampulheta se vira, e a areia começa a escorrer, grão a grão, marcando o tempo que separa um contato do outro.
Cada partícula que cai carrega a expectativa, a esperança e a paciência, que se misturam no ritmo do esperar. Às vezes, o próximo encontro surge rápido, antes que a areia termine, renovando a conexão com alegria e surpresa. Outras vezes, a espera se estende, a ampulheta quase esvazia, e o silêncio cresce, pesado e incerto.
Quando a areia acaba e o contato não vem, podemos virar a ampulheta mais uma vez, oferecendo uma nova chance, um novo tempo, um pouco mais de paciência. Mas até a paciência tem seus limites. Há momentos em que a ampulheta não vira mais, quando a areia cansou de cair e o silêncio se torna definitivo.
Ainda assim, às vezes escolhemos forçar mais uma virada, driblando orgulhos e teimosias, abrindo espaço para a empatia, a generosidade e a compaixão. Viramos a ampulheta mesmo quando já não há quase areia dentro, dando um gesto de esperança que transcende o tempo e a lógica.
Assim são as relações humanas: um constante virar de ampulhetas entre encontros e distâncias, entre o que chega cedo e o que tarda, entre a ansiedade, a serenidade e a sabedoria de saber quando esperar, quando insistir e quando seguir em frente.
No compasso das ampulhetas, aprendemos a arte de esperar, a beleza de dar tempo ao tempo, a coragem de aceitar o fim do ciclo, e a generosidade de oferecer mais uma chance, mesmo quando a areia parece ter acabado.
*Engenheiro e economista.











