
MEMÓRIAS DA CASERNA
João Manoel Oliveira King – Foi professor do Curso de Inglês Yázigi. Integrante da Equipe Treze Horas.
Apresentação
Em julho de 1963, fui chamado pelo exército brasileiro para fazer parte das suas fileiras. Era uma época em que um grande contingente de soldados era agregado ao 9. Regimento de Infantaria, em Pelotas, RS e assim distribuídos pelas suas diversas companhias e outros setores. Ao começar a conhecer estes soldados e conviver com eles eu costumava dizer que estávamos entrando numa verdadeira “Arca de Noé” pois dava “tudo quanto é bicho”.
Este livro vai tentar contar um pouco da história de muitos destes “bichos”, entre os quais eu me incluo, e suas participações nos vários meses que lá permanecemos.
Em homenagem a todos eles, vou garantir seus nomes verdadeiros e correr o risco de levar algum processo.
Fiquem à vontade para contestar alguma história ou me mandar novos momentos que minha memória não alcançou. Quem sabe uma segunda edição com mais autores agregados.
Boa leitura!
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Meu dia de gari
Levantei cedo, antes das 6h. Às 7 h, teria que estar no quartel para o meu primeiro dia. Era uma manhã bonita, clara, mas fria. Vesti meu pulôver felpudo e uma japona pois meu transporte era uma bicicleta Monark, equipada com farol, sinaleira e dínamo. O farol era tão forte que eu me divertia, usando a luz alta em guerra contra os faróis dos carros. No grande pátio de entrada do Nono vários recrutas aguardavam o primeiro contato e as primeiras instruções. Em dado momento fomos chamados para nos enfileirar, independente de altura, peso, credo, cor e outras características.
Após o discurso de boas-vindas, proferido pelo Cel. Danton do Amaral Duro, surge um pessoal carregando uma caixa, contendo ferramentas, que logo em seguida identificamos como um instrumento para limpar o capim que nasce entre os paralelepípedos, numa extensão de mais de dois quarteirões.
Fomos divididos em vários grupos, cobrindo toda a extensão da rua interna do quartel e durante duas horas eliminamos todo o capim (cri cri) que teimava em crescer com força total. Lembro perfeitamente que com o passar do tempo ia me livrando da japona, do pulôver e da camisa, ficando apenas em camisa de física, hoje chamada de regata, única forma de enfrentar o sol que apesar do inverno ardia em nossas costas. Aquela atividade foi uma verdadeira lição de humildade pois passei a respeitar e admirar os inúmeros garis que naquela época limpavam o mato entre as pedras das ruas de Pelotas, emitindo um som característico que até hoje não esqueço.
Você sabe datilografar?
Nos dias que se seguiram, todos os recrutas foram divididos entre Companhias e outros setores de apoio dentro do Regimento.
A mim coube a 2ª Companhia, comandada pelo Capitão Benhur, Sargento Tavares, Sargento Narciso, Sargento Flávio, Sargento Eugênio Antunes, Aspirante Moreira e outros que surgirão nos próximos episódios deste livro. Havia um grande alojamento, com dezenas de camas, banheiros e a Sargenteação, uma espécie de escritório onde aconteciam os processos administrativos e a documentação do dia a dia militar.
Todos perfilados na frente da Cia. e o Sarg. Tavares pergunta: “Quem sabe datilografar?” Dos quase noventa soldados dois levantaram a mão e eu era um deles. Afinal, até hoje, 2023 tenho comigo um enorme diploma do Curso Royal de Datilografia do qual muito me orgulhava pois conseguia obter uma excelente velocidade de muitos toques por minuto, que me ajudaram a ser selecionado nos meus dois primeiros empregos bancários no Banco da Província e no Banco do Brasil.
Fomos levados para a Sargenteação e eu já festejando minha primeira promoção. Chegando lá, diz o Sarg.: “cada um pega uma vassoura e deixem esta sala impecável”. No ambiente verde-oliva ordens são para serem cumpridas e bem cumpridas. Nossa dupla se esmerou na limpeza, acreditando que algo de bom poderia acontecer. Ao finalizarmos, a pergunta inicial se repetiu: “vocês datilografam mesmo ou é conversa fiada?” Após nossa afirmação fomos colocados em frente a duas máquinas de escrever Remington e nos dado um prazo para escrever um determinado texto. O mais rápido seria escolhido para ajudar no serviço burocrático. Quando encerrei minha tarefa, meu concorrente não tinha chegado na metade. Assim começou minha carreira de soldado burocrata, que me poupou de muito esforço físico na hora da ginástica matinal.
Alfaiate cobra de alfaiate?
No terceiro dia de frequência ao quartel, recebi o número 753 que me acompanha até hoje quando arrisco na loteria ou sorteios domésticos. Em épocas anteriores chegou a fazer parte de senhas bancárias e de aplicativos, que aos poucos foi sendo retirada por questões de segurança.
Até então, participávamos das atividades, vestindo trajes civis e ansiosos em receber nossas fardas para uso em serviço e passeio.
No meio daquela tarde fomos todos reunidos no alojamento e por ordem de chamada fomos recebendo nossos trajes verde-oliva, cujas fazendas, previamente cortadas, deveriam ser encaminhadas a uma costureira ou alfaiate para a confecção final.
Além das fazendas recebíamos os coturnos (botas de couro com longos cordões e sola de borracha, meias de lãs, cuecão para os dias mais frios, boné pé de pato, com uma grande aba, camisetas para educação física, calções, enfim, um verdadeiro enxoval que deveria durar 8 meses e devolvidas no momento da baixa.
Olha a minha felicidade: meu pai era alfaiate, um dos mais conceituados da cidade, vou ter a farda mais linda do batalhão.
Chegando em casa mostrei ao velho todo o material para que ele começasse o trabalho de confecção. No dia seguinte ele me chama e me diz “sabes que na rua 7 de Setembro existe um alfaiate especializado em fardas militares e colegiais, vou levar para ele fazer, afinal, assim como dentista não cobra de dentista, médico não cobra de médico, alfaiate não cobra de alfaiate.
Realmente, meu pai, John Alfred King, estabelecido à rua 15 de Novembro, 673, entre Voluntários e Neto, era um mestre em trajes masculinos como ternos, coletes, sobretudos, utilizando os mais diferentes tecidos que eram vendidos aos fregueses ou trazidos por eles, muitas vezes de outras países.
Chegando no alfaiate da rua 7 as medidas foram tomadas e a promessa de entrega em 3 dias para poder cumprir as exigências do Exército. No prazo combinado fui com meu pai buscar as fardas cheio de expectativa para vestí-la e meu pai orgulhoso de ter feito um bom negócio. Após a prova final e tudo perfeito eis que o alfaiate das fardas apresentou a conta, causando a maior surpresa no meu pai que voltou indignado para casa. Pelo que me lembro, nunca mais se falaram.
Ouvindo rádio comunista durante a guarda
Por ser um soldado burocrata eu raramente “tirava guarda”, pois além de ser o responsável pela escala dos 90 soldados da cia, tinha essa prerrogativa pela função que exercia. Eventualmente eu me escalava, quando tinha que passar 24 horas no quartel, fazendo plantão de 4 em 4 horas, armado com um fuzil que chamava-se mosquetão. Ao início de cada plantão de guarda, um tenente que ficava de oficial de dia, nos entregava a munição e na frente dele carregávamos o mosquetão. Cada dia da semana era uma Cia. que ficava responsável pela guarda total das dependências do Nono Regimento de Infantaria. Havia vários pontos de observação onde os soldados eram distribuídos.
Desde pequeno sou um verdadeiro amante do rádio. Costumava ficar na frente de uma possante eletrola, que possuía um excelente rádio, movido à válvulas. Ali, eu procurava estações de vários países, principalmente de língua espanhola na esperança de ouvir notícias e principalmente música americana, tipo jazz, dixeland, etc. E marcava num papel as posições que o dial indicava nas diversas ondas, tipo média, longa e curtas. Até hoje não vivo sem rádio, agora através de aplicativos no celular desde a hora que acordo.
Num dos dias da minha guarda, eu deveria ficar das 2 as 4 da manhã, num dos corredores laterais do quartel, caminhando de um lado para o outro. De repente, noto que, no bolso da minha gandola havia um pequeno rádio portátil (novidade na época) que devo ter esquecido na hora de sair de casa em direção do Nono. Não tive dúvida, saquei do mesmo e procurei o que havia de rádio funcionando àquela hora. As rádios locais todas já estavam dormindo e as internacionais não havia como pegar pela incapacidade do aparelho. Para minha surpresa, surge uma voz de mulher com total nitidez, anunciando: “Esta é a rádio do Partido Comunista da União Soviética, falando em português para todo o Brasil”. Depois vim a saber que era uma rádio de alcance continental tentando mostrar as ideias da esquerda para transformar nosso país numa nação socialista/comunista. Isto tudo acontecendo no final de 1963, às vésperas do regime militar.
Na minha inocência da época, continuei auscultando aquelas informações como se fosse um espião da KGB. Ainda bem que as paredes não tinham ouvidos e conclui minha guarda ouvindo música folclórica russa.
Baile de Gala? Só de farda
Desde os meus 15 anos de idade tinha o hábito de frequentar todos os bailes de debutantes da cidade. Como filho de alfaiate, tinha sempre a mão um belo smooking, para impressionar as moçoilas que deslizavam seus lindos vestidos, confeccionados pelos famosos costureiros da época, cujos ateliês ficavam lotados de clientes. Dos estilistas mais importantes lembro de Carlos Alberto Motta, que também era cronista social, Pompílio Freitas e outros menos cotados. Os clubes sociais se preparavam magnificamente para a sua maior festa do ano, onde dezenas de meninas-moças seriam apresentadas à sociedade pelotense.
O baile do Clube Comercial era um dos mais esperados, pela opulência e beleza das suas instalações e que fazia a alegria dos fotógrafos ainda no filme preto e branco. As vitrines do Robles, retratista importante da época, se enchiam de pequenas cópias de fotografias onde se encomendavam maiores tamanhos para ornarem os porta-retratos familiares.
Os demais bailes aconteciam no Diamantinos, Brilhante, Centro Português, Campestre, Laranjal Praia clube e Dunas Clube.
Quando iniciamos nosso período militar recebemos duas fardas, a de serviço, para uso no quartel e que não poderia ser usada no perímetro central da cidade, e a farda de passeio complementada pelo casquete (chapéu) e sapatos pretos sociais. Uma semana antes do primeiro baile meu smooking já estava pronto. Eis que fico sabendo que não haveria autorização para circular sem farda em qualquer lugar central da cidade, mesmo em ambiente fechado. Angustiado com a situação, afinal minha farda não era a de um cadete da escola militar que as garotas adoravam, tentei de tudo para a liberação e não consegui. Mesmo com o cabelo cortado com máquina zero, portanto, reconhecido de qualquer distância, resolvi arriscar.
Estava no meio do baile, depois de dançar várias valsas com as debutantes preferidas, dou de cara com um tenente da minha cia, ele em traje civil, que me encarou com olhar de reprovação.
Resultado: no dia útil seguinte me chamou na sua sala e me passou um enorme xixi, e que dessa vez não iria me denunciar.
Depois de dois bailes trajando minha farda, feita pelo especialista de Pelotas, saiu uma liberação específica autorizando o uso do smooking somente em bailes de gala.
Hoje me recordo que eu fazia mais sucesso, vestindo a verde-oliva.
Independência ou Morte
Uma das atividades que eu mais apreciava e me orgulhava era de marchar bem e com muita garra. Isso significava cumprir com perfeição a “ordem unida”, executando com maestria todos os movimentos aprendidos e ensaiados exaustivamente. Sabíamos, por tradição, que a cia que ostentava a melhor marcha do batalhão , era a 4a Companhia, comandada pelo Capitão Escalante há muitos anos. Este oficial era extremamente rigoroso com seus comandados não perdoando os menores erros. Soldado com passo errado sofria sempre punição.
Portanto, a aproximação do dia 7 de Setembro causava uma grande expectativa, quando eu estaria desfilando junto com meus colegas, na Av. Bento Gonçalves, passando pelo Altar da Pátria, saudando a bandeira do meu país e sendo assistido pelos meus pais, meus irmãos e muitos amigos.
Às 7 horas da manhã já estávamos perfilados dentro do alojamento da 2ª Cia, aguardando a revista do Capitão Benhur, quando ele examinava um por um dos soldados, cuidando que a farda estivesse impecável e os coturnos brilhando mais que um espelho ao sol.
Porém, São Pedro resolveu se intrometer e não permitiu que meu sonho se realizasse. Uma chuva torrencial começou a despencar em toda a cidade, causando uma enorme enchente na Bento. Às 7 horas e trinta minutos o capitão adentrou o alojamento e deu a notícia do cancelamento do desfile, tão esperado por mim e muitos dos meus colegas.
Em seguida, como era feriado, fomos dispensados para voltar para nossas famílias. Foi um dos dias mais tristes da minha trajetória familiar. Marchar ao som do Cisne Branco e outras marchas militares representava muito para mim. Ensaiei muito para participar daquele momento.
Hoje entendo porque, anualmente, quando assisto na mesma avenida o desfile do Nono Regimento de Infantaria, eu encho os olhos de lágrimas, me enxergando num daqueles soldados, marchando com orgulho e garra. Minha mulher, que sempre me acompanha nestes momentos, me olha sem entender nada.
Choque no bico de pato
Num dos primeiros capítulos escrevi que no quartel “dá tudo quanto é bicho”, isto é, encontramos recrutas oriundos dos mais longínquos rincões. Dentre eles, existia a turma dos pomeranos, descendentes de alemães que moravam nas colônias de Pelotas onde se dedicavam ao plantio de frutas, verduras e outros alimentos, que abasteciam as feiras e armazéns da cidade, pois naquela época ainda não existia supermercado.
Na nossa cia deveria ter uns 20 pomeranos que faziam a diversão dos mais abusados, recrutas oriundos da área urbana da cidade.
Já atuando como soldado burocrata eu era encarregado de realizar a escala da guarda o que me proporcionava um certo poder perante os demais que sempre procuravam evitar este serviço nos feriados como carnaval, Natal, Primeiro do Ano e outros.
Os soldados pomeranos eram extremamente inocentes e não possuíam qualquer maldade nas suas ações, ao contrário dos soldados urbanos, mais acostumados às brincadeiras pesadas, piadas e sacanagens de todo o tipo.
Observando estes comportamentos eu procurava proteger os pomeranos sempre que podia, proporcionando-lhes o retorno aos seus lares nos feriados mais prolongados. Mesmo assim, por questões de falta de grana ou por morarem muito longe de Pelotas, eles vendiam suas folgas para os soldados urbanos.
Nos dias de chuva muito intensa, todos ficavam nos alojamentos, ou jogando cartas, conversando, olhando a paisagem, fumando e outras atividades. Quando algum pomerano chegava da rua, todo molhado da chuva, um espertalhão (urbano) o chamava a um canto e se oferecia para secar seu boné (bico de pato) com um ferro elétrico, ligado na temperatura máxima sobre uma tábua de passar roupa, com a condição que ele segurasse o bico de pato enquanto a secagem se processasse. Resultado: um pequeno choque estremecia o soldado enganado que saía proliferando os mais sórdidos palavrões, misturando português e pomerano, jurando se vingar algum dia.
Mas os urbanos não paravam por ai: aos domingos a noite muitos pomeranos chegavam de suas casas, carregados de frutas, como laranjas, vergamotas e pêssegos. Eram praticamente assaltados na tentativa de se apropriarem das frutas que com certeza eram deliciosas, como são até hoje quando as escolhemos nas feiras destes mesmos pomeranos.
Com o passar do tempo eles foram ficando mais espertos e aprenderam a se defender e aplicar peças na turma da cidade.
Namoro com assassinato
Minha primeira namorada chamava-se Margarete, era filha de um famoso proprietário de oficina mecânica que fazia as manutenções do Ford 1949 pertencente ao meu pai. O nome dele era Joaquim e apelido Kim, daí uma certa confusão com o sobrenome do meu pai que era King. Até hoje me perguntam se éramos parentes. Margarete deveria ter uns 16 anos e eu 18.
No verão de 1961 estive em Santos (SP) na casa de uns tios e na volta trouxe a tiracolo meu primo Antônio Carlos para conhecer Pelotas. Em fevereiro do mesmo ano passamos o terceiro melhor carnaval do país, usufruindo de vários bailes e curtindo as escolas de samba do melhor camarote da rua 15, na sacada do sobrado onde eu morava.
Foi aí que vi, pela primeira vez a Margarete. Ela estava com sua irmã e amigas na sacada em frente, na casa do Peri Correa de Souza. Aí começou um namoro platônico, repleto de olhares, sorrisos e abanos. Eu era extremamente tímido e me faltava coragem de abordá-la quando ela deixava o sobrado do Peri, já no final da madrugada. E assim passou aquele carnaval e veio o outro em 1962 e a cena se repetiu. Descobri que ela estudava no colégio São José, que na época só aceitava meninas. Quando podia ia esperar a saída das aulas mas minha timidez me travava e não permitia maiores abordagens.
No final daquele ano começamos a nos falar por telefone e em novembro decidi encarar a situação: ao vê-la na saída do colégio atravessei a rua e pedi para acompanhá-la. Com o consentimento andamos uns 50 metros quando uma amiga surge correndo gritando: “Margarete, teu pai está vindo de carro aí atrás pra te buscar”. Foi o suficiente para nossa conversa encerrar e cada um foi para o seu lado. Para encurtar a história, a natureza conspirou a meu favor e o namoro foi consentido, com frequência a casa, vistoriado pela mãe dela.
Em 22/11/63, numa sexta-feira, eu estava de serviço no quartel e nessas ocasiões meu pai me levava uma marmita com a comidinha da Lalá, minha querida mãe. Acontece, que a comida do quartel, destinada aos soldados, não era das mais saborosas. Lembro da primeira vez que a experimentei, assisti o desfile de uma lombriga saindo de dentro de uma batata.
Além da comida, e minha mãe estava junto, eles me surpreenderam com a presença da Margarete no banco traseiro do carro. Enquanto eu namorava meu pai ia me contando as últimas notícias daquele dia. A notícia que mais me abalou foi a do assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, em Dallas, Texas. Eu o apreciava em demasia, pela sua juventude, um dos presidentes mais jovem dos States e pelas ações em conservar a democracia no país mais democrata do mundo. Este atentado até hoje está envolto sob um manto de mistério
Nos meus 20 minutos de folga tive que administrar uma tristeza pelo acontecido e uma alegria em segurar bem firme as mãos da Margarete, roubando devagar um beijo inocente.
Sargento Florzinha
A nossa Cia era dirigida pelo Capitão Benhur, Aspirante Moreira, 1° Sargento Tavares, Sargento Narciso e Sargento Bittencourt (Furriel), cuja palavra vem do francês “fourrier” e sua responsabilidade era rodar a folha de soldos de toda a cia. Se ganhava uma micharia na época, pois ainda tinha o desconto da mensalidade do Grêmio Atlético Farroupilha, time de futebol profissional cujo estádio até hoje está localizado no Fragata e mantido por alguns associados e pelas mensalidades já citadas. Seus administradores e treinadores eram na sua maioria militares e representava a terceira força esportiva da cidade. Fundado em 26 de abril de 1926 por militares que serviam no Linguição F.C. o Grêmio Atlético Farroupilha começou sua trajetória com o nome de Grêmio Atlético do 9° Regimento. O nome permaneceu até 1941, quando o então presidente Getúlio Vargas proibiu por decreto que as unidades militares emprestassem seus nomes à agremiações civis. Sendo assim, os dirigentes da época optaram por adotar o nome de “Farroupilha”, em alusão ao maior título obtido pelo clube: o Campeonato Estadual de 1935.
Tínhamos ainda os sargentos Joari (que tornou-se um grande crítico de cinema em Pelotas), Arruda, Eugênio, que já conhecia dos escoteiros do Grupo Iguaçu e o Cabo Laci, amigão da turma e já arranchado, isto é, sem data para dar baixa e candidato a novos postos.
Neste episódio quero falar sobre o Sargento Narciso. Desde os primeiros dias observei que era uma pessoa muito especial: extremamente educado, respeitador, conhecedor profundo das regras militares. Suas palestras e treinamentos eram ouvidas com muita atenção. Mas havia algo que me chamava a atenção. Na prática militar praticávamos um exercício que consistia em arrastar-se mais de 50 metros pelo chão, portando o mosquetão entre os braços, num terreno repleto de lama e barro. Não era permitido desviar-se e terminávamos com a cara e as roupas totalmente enlameadas.
Sargento Narciso quando era responsável por esta atividade, ia sempre a frente, dando ordens para que desviássemos das poças e do barro como se quisesse nos proteger de toda aquela sujeira. Nunca me esqueci desta sua atitude e torcíamos para cair no grupo dele para este exercício pois os demais, quanto mais barro melhor.
Na década de 90, quando ia levar minha filha pequena no colégio, encontrava este grande amigo que, já avô, levava seu neto pela mão para a escola, protegendo-o, da mesma forma que fazia conosco.
Lopes, o Bebum
Havia momentos em que a permanência nos alojamentos era extremamente angustiante, com quase nada a fazer, principalmente à noite, quando apenas permaneciam o pessoal da guarda e os soldados que, por morarem longe, pernoitavam no quartel. Numa destas noites eu estava lá, pois era meu plantão de guarda. Às 22 horas as luzes eram diminuídas e a ordem era silêncio e conciliar o sono. Alguns permaneciam acordados, lendo gibis, conversando em voz baixa. Para adentrar ao quartel após este horário só com autorização do capitão.
Lá pela meia noite com quase todo mundo dormindo, eis que surge o Lopes, soldado de estatura baixa, cara de índio, com fala arrastada e com pouca conversa. Sua cama ficava no fundo do alojamento e o trajeto era longo até chegar lá. Os que ainda estavam acordados repararam que o caminhar do Lopes era bastante trôpego, trocando as pernas, como se diz. Conforme ele passava pelas camas sentia-se um profundo bafo de cana que inundava o corredor. Ao chegar no seu destino eis que o Lopes se atira de farda e tudo sobre a cama, pegando no sono imediatamente. Neste momento, a mente malévola de alguns começou a funcionar. Lopes possuía embaixo da sua cama uma lata de talco que ele usava frequentemente para se perfumar. A turma da maldição se aproximou da vítima e começou a salpicar cuidadosamente talco no seu rosto, cobrindo-o totalmente. E ele dormindo a sono solto. Aí, trouxeram dois limões que uma vez cortados ao meio, foram espremidos, pingo a pingo, na testa, na face e no queixo do Lopes, que continuava dormindo profundamente. Passaram-se cerca de trinta minutos, tiraram um dos sapatos e meia do pinguço e entre seus dedos colocaram o que chamavam de mosquitinho, um palito de fósforo aceso que aos poucos ia se consumindo até encostar na pele. Com a dor, o Lopes acordou e descobriu que não conseguia falar nem gritar pois seu rosto estava paralisado com a mistura do talco com o limão.
Enquanto isso a turma da maldade e outros que acordaram, riam até não poder mais com a desgraça do colega.
Que eu me lembre o Lopes nunca descobriu os autores da sacanagem.
Prisão à vista
Era uma semana monótona, em plena Revolução de 64. O regimento inteiro de prontidão, aguardando ordens do comando maior para um possível ataque dos comunistas, ávidos por impedir a tomada do país pelos militares.
Eu havia levado para o alojamento meu recém-adquirido gravador de rolo portátil, visando com ele praticar alguma atividade.
Eis que chega de repente no recinto o cabo Laci e junta-se à turma. Gente, está tudo muito parado e chato, temos que fazer algo diferente. Reunida a comissão do mal, eu sugiro escolher um dos soldados que morava na colônia, localizar sua ficha funcional (e eu tinha o controle desse material) e gravar uma mensagem no gravador, informando que sua mãe estava passando muito mal e que sua presença se fazia necessária na colônia Progresso, onde residia.
E assim foi feito, escolhemos alguém com voz grave, tipo locutor, e a mensagem foi registrada no gravador: “Atenção, notícia de utilidade pública: soldado Franz Becker, servindo no Nono Regimento de Infantaria, na 2ª Cia, sua mãe está passando mal na colônia Progresso e os familiares exigem sua presença imediata”.
Aí, a comissão do mal se encarregou de espalhar a notícia nos arredores da cia, com toda a seriedade possível. Enquanto isso, colocamos um cobertor sobre o gravador e um rádio portátil tocando música a toda altura. De repente, o soldado Franz entra a toda velocidade dentro do alojamento perguntando se era verdadeira aquela notícia, ouvindo de uma grande roda de sacanas na volta, um grande sim. Pedimos que aguardasse um pouco, pois a notícia era transmitida a todo o momento. No momento certo, desligamos o rádio e demos play no gravador e a notícia foi ao ar. Naqueles poucos segundos de mensagem o soldado Franz adquiriu um ar de desespero e disse: “vou correndo ao Capitão pedir licença para ir pra casa”. E saiu em desabalada corrida em direção ao gabinete do chefe maior. Naquele exato momento o arrependimento bateu naquele que sempre defendeu o pessoal da colônia. Saí atrás dele, com o gravador na mão, tentando convencê-lo que era uma brincadeira e que a notícia não era verdadeira. Mesmo assim ele entrou no gabinete do capitão e contou toda a história. Arrependido de tudo retornei para o alojamento, esperando a punição que logo viria. Meia hora mais tarde, o capitão Benhur me chama e me passa a maior repreensão, dizendo que só não mandou me prender por causa do bom comportamento que eu havia tido até então.
Até hoje guardo um diploma de soldado exemplar que recebi no dia da baixa e me questiono: será que eu merecia?
OBS: Os nomes do soldado e da colônia são fictícios.
Airton, O Sujinho
O Airton era um sujeito baixinho, troncudo, morenão, com cara de índio e de poucas palavras. Não tinha muitos amigos e saía rápido para casa após o expediente no quartel. Custou a aprender a ordem unida e isso era motivo de chacota por parte de alguns. Mas o que o caracterizava mesmo era o pouco apego à higiene corporal. A impressão que dava era que ele odiava banho. Tanto que após uma longa sessão de exercícios ele saía de fininho, disfarçava, trocava de roupa e se mandava pra casa.
Lembro num dia de extremo calor, após exercícios puxados, todo mundo suando em bicas, fomos para os diversos chuveiros que havia no alojamento, buscar um alívio na água fresca e forte que corria e completar nossa higiene.
O Airton não, ia direto para o alojamento, tirava a roupa suada, se dava um banho de talco e vestia a farda por cima daquela couraça, uma mistura de suor e Amor Gaúcho, dizendo que ia pra casa da namorada.
E esta cena se repetia dia após dia e não podíamos fazer nada sob pena de sofrer punições. Mas a comissão do mal maquinava alguma coisa para um futuro próximo.
No dia da baixa, a cia. toda em forma na frente ao palanque oficial, escutando o discurso de despedida do Coronel Danton. Aí veio a frase há muito esperada por todos: DEBANDAR TROPA!!!!!
Todos atiraram seus pés de pato para cima, num momento de alegria e regozijo mas de olho grudado no Airton.
Escapando dos olhos do oficialato pegamos o Sujinho pelos pés e mãos e fomos levando-o em direção aos bebedouros dos cavalos, enormes tanques cheios de água, que serviu de banheira para que o banho, tão esperado, acontecesse. Enquanto alguns seguravam outros o escovavam, com roupa e tudo, como se vingando dos dias de muita asa que se espalhava pelo alojamento quando ele passava.
Nunca mais o vi, mas acho que serviu de lição. Neste dia ele foi mais perfumado ver a namorada.
Concurso de tiro
No segundo semestre de 1964, nossa companhia foi escolhida para sediar o Curso de Cabo, treinamento anual para eleger soldados a este novo posto hierárquico e caminho oficial para trilhar novos rumos dentro da carreira militar.
Como recusei o convite para fazer o curso, fui convidado, pelos meus dotes e experiência burocrática, a secretariar este curso tão importante. Minha função era acompanhar todas as atividades teóricas e práticas e registrá-las para futuras avaliações, que serviriam de base para as promoções a este novo cargo.
Desta forma a companhia recebeu soldados de diversos outros setores o que obrigou a transferência de vários dos nossos, que não iriam fazer o curso, para outras cias.
Aquele período de trabalho representou para mim um grande aprendizado, pois me relacionava com muitas caras novas e com muitos oficiais e sargentos responsáveis pelos treinamentos.
Meu corpo também agradeceu, pois estava dispensado de toda e qualquer atividade física. Hoje, com quase oitenta anos, procuro fazer o máximo de atividade física e prática esportiva de competição, como padel, tênis de mesa, caminhadas e alguma corrida, para manter a forma e viver o máximo que puder com saúde e disposição.
Uma das atividades práticas era o concurso de tiro, onde os aprendizes a cabo tinham a oportunidade de mostrar sua perícia no manuseio de revólveres, mosquetões e principalmente a metralhadora INA, uma das mais mortíferas da época.
Durante várias horas acompanhei com planilha em punho todos os desempenhos, anotando com atenção os pontos conquistados em cada uma das armas.
Ao encerrar com o último candidato o capitão me chamou e perguntou: “queres atirar com a INA?” Surpreso eu respondi: mas capitão, eu nunca atirei com ela. Ele me ensinou rapidamente como manuseava a bichinha, pediu que eu sentasse no chão, colocasse a INA entre as pernas e me mostrou o alvo, orientando que eu deveria apertar o gatilho com delicadeza para que saísse apenas o número de tiros necessário. Com a única experiência de tiro ao alvo em stand tiro em parque de diversões, mandei ver e esperei o resultado. Volta o capitão e me diz em alto e bom som para todos ouvirem: ‘FOSTE O CAMPEÃO, TODOS OS TIROS NO ALVO”. Até hoje não sei se foi gozação ou se realmente a teoria superou a prática.
Leiteiro de luxo
Durante o regime militar, acho que lá por junho de 1964, nossa cia. foi designada para guarnecer a fronteira do Brasil com o Uruguai, na cidade do Chuí, no extremo sul do Brasil. Daí, a expressão “Do Oiapoque ao Chuí”. Já estávamos próximos de dar baixa do regimento e eu comecei a me preocupar, pois havia uma notícia que ficaríamos por lá cerca de três meses. Nessa ocasião, eu estava me preparando, nas horas vagas, para o vestibular de medicina e não queria ser prejudicado de forma alguma, uma vez que lá, não teria como ter acesso aos inúmeros materiais de estudo e tempo adequado para tal empreitada. Além do que estava cursando o terceiro ano do curso científico o qual encerraria no final daquele ano.
Sempre aprendi que para tudo tem solução, basta correr atrás. Nessa ocasião meu pai, alfaiate com muitas relações em Pelotas, conversou com um militar (não lembro quem foi) que convenceu o major responsável pela organização da tropa que ia para o Chuí, a me dispensar. Assim foi feito e a comunicação chegou ao 1°Tenente Antônio Messias Alves Gazalle, que comandaria a cia no sul do país.
Acho que o tenente não gostou muito da minha saída, mesmo por motivos justos, e me chamou no seu gabinete. Lá, deu-se o seguinte diálogo: “Soldado 753 (este era o meu número) como vais ficar no quartel com poucas atividades vou te incumbir de uma séria tarefa.” Eu imaginei que seria algo relacionado a cuidar de alguma documentação ou auxiliar algum outro setor administrativo do batalhão. Seguiu ele: “Todos os dias úteis, vais pegar tua bicicleta, chegar no quartel às seis horas da manhã e a leitaria vai te entregar dois pequenos tarros de leite. Com eles a tiracolo, vais entregá-los na minha casa na rua Barroso e na casa do segundo tenente que mora na rua Tamandaré. As respectivas esposas vão te receber. Como disse num dos capítulos, ordens são ordens e tem que ser cumpridas. E assim, durante três dias cumpri rigorosamente a tarefa. No quarto dia, a esposa do Tenente Gazalle, com fisionomia condoída, me olhou e me disse: “Soldado, por ordem minha estás dispensado desta atividade. Não há razão para continuar fazendo isso”.
Agradeci imensamente e voltei para o quartel procurando o que fazer.
Na década de 1980, dezesseis anos depois, comprei um apto. na rua Tamandaré, quase esquina com Bento Martins e pra surpresa minha, a janela do meu quarto dava de frente para o pequeno sobrado onde eu entregava o leite. Às vezes, me flagrava esperando que a esposa do tenente aparecesse na janela, pois era muito bonita.











