EU TE AMO

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EU TE AMO

Paulo Gastal Neto*

Dia desses estava acomodado no sofá de casa lendo, a TV ligada num desses canais de desenhos para crianças. Naquele dia nosso neto passara a tarde conosco. Era quase início de noite e uma chuva fina caía lá fora. De repente, sem nada combinado, recebo um abraço e uma declaração: – ‘vovô, eu te amo’!

Aquela simples e terna expressão que nem chega a ser uma frase, passou a ser – a partir daquele instante – um novo divisor na minha vida. Ela foi de uma pureza sincera, um punhal afetivo no peito, não somente pela ternura que irradiou, mas também pelo tom e o momento. Ato contínuo desviei meu olhar e fitei o ‘autor da mágica’ pensando: esse menino, com pouco mais de 3 anos, criou a coragem de se expressar da maneira mais singela, porém tornou-me refém da sua magia encantadora.

Logo notei que aquele fora um momento em que mudamos de ciclo. Acontece, nos tempos de criança que passamos à puberdade e depois à adolescência. Logo vêm a juventude que se transforma em sinônimo de liberdade. Aí começam as saídas noturnas e depois as responsabilidades. Os deveres, os filhos, o trabalho constante. Quase esquecemos dos sentimentos, que acabamos colocando numa dessas gavetas do nosso interior.

Sim, existe um ranking de gavetas dentro de nós. Elas vão se ordenando por prioridades ao longo do tempo e variando de posição. As vezes é uma que sobe e outra que desce, comparável a uma tabela de classificação de campeonato. Mas aquela declaração, olho no olho, arrebatou o meu coração e automaticamente fez com que ela assumisse a liderança na ordem das gavetas.

Aquele ‘eu te amo’ chegou como uma espécie de validação de jornada. Funcionou como se fosse um carimbo de aprovação. Se tivemos equívocos – e todos temos -, aquele ‘eu te amo’ me remeteu a crer que tive mais acertos do que erros ao longo do caminho. Pelo menos na visão de quem me interessa.

Foi como um foguete que sobe aos céus sem nada para detê-lo. Assumiu a liderança e nela está até hoje. Mas não seria o fim: pouco tempo depois do ‘eu te amo’, recebo a notícia de que um outro neto chegará. Uma neta, de outro filho/nora e que certamente vão render outros ‘eu te amo’. Eles servirão como uma espécie de endorfina, para que alimentem à parte derradeira do caminho.

São as mágicas sincronias da vida, como se fosse uma substituição de um jogador em uma partida de futebol: sai um, cansado, e entram outros prontos para correr e lutar pela vitória, que nesse caso é a vida. Nos substituem em favor da continuação.

Como escreveu padre Antônio Vieira no ‘Sermão do Mandato’ em 1643 sobre o mandamento ‘Amai-vos uns aos outros’: O Mandato do Amor: este é o mandamento de Cristo e esta é a obrigação nossa. É a dívida em que nos pôs Jesus, para com os filhos, netos e quem deles advierem!

Padre António Vieira – Lisboa * 1608 – Salvador + 1697.

*Radialista e editor do site www.pelotas13horas.com.br 

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