
Da ZH
Maioria dos herdeiros aceita proposta para venda do imóvel, mas divergência entre familiares trava negócio e abre disputa judicial
O Serviço Social do Comércio (Sesc) manifestou oficialmente interesse na compra do Theatro Guarany, em Pelotas, e ofereceu R$ 25 milhões pelo imóvel, um dos principais patrimônios culturais da cidade. A negociação, iniciada em 2024, agora entrou em uma nova fase após parte dos herdeiros acionar a Justiça para viabilizar a venda.
Em maio de 2024, durante o período das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, os herdeiros da família Zambrano, proprietária do teatro, procuraram a Fecomércio-RS para oferecer o imóvel. A partir desse contato, o Sesc recebeu autorização de todos os herdeiros para realizar a avaliação técnica do prédio.
— Recebemos autorização de todos os herdeiros para fazer a avaliação do teatro, isso é importante destacar. Assim que a avaliação foi concluída, oferecemos o valor de R$ 25 milhões — explica Renzo Antoniolli, responsável pela negociação.
Segundo ele, cinco proprietários, que representam 75% dos herdeiros, aceitaram a proposta, enquanto 25% optaram por não vender, por motivos particulares.
— Não foi uma recusa relacionada ao valor, mas por razões pessoais que nós respeitamos completamente — afirma.
Diante do impasse, o grupo favorável à negociação ingressou, nesta semana, com uma ação judicial solicitando o direito de venda do imóvel. A Fecomércio-RS confirmou que mantém o interesse e informou que atuará como terceira parte interessada no processo.
— Agora dependemos da decisão do juiz. Caso a venda seja autorizada, os herdeiros que querem vender recebem os valores, e a parte correspondente aos demais fica depositada em juízo até a decisão final — detalha Antoniolli.
Prédio deve passar por revitalização
O interesse do Sesc, segundo Renzo, vai além da aquisição do prédio. A instituição pretende revitalizar completamente o Theatro Guarany, preservando suas características históricas e arquitetônicas.
— Queremos transformar o Guarany no teatro mais moderno do Rio Grande do Sul, preservando totalmente sua história, sua tradição e a memória cultural de Pelotas — afirma.
Ele destaca que o objetivo é devolver o espaço à comunidade, com uma programação acessível e ampla.
— O Sesc é mantido pelos empresários do setor do comércio e tem como missão oferecer eventos gratuitos ou a preços acessíveis. Basta lembrar os eventos no Laranjal, o festival de música em Pelotas. Agora, imagine isso dentro de um teatro revitalizado — projeta.
— Não é para sermos proprietários de um teatro, mas para devolver à população de Pelotas um dos seus maiores monumentos culturais — reforça.
Negociação se arrasta há mais de um ano
Segundo Renzo Antoniolli, o processo de negociação já dura mais de um ano, com diversas tentativas de construir um consenso entre os herdeiros.
— Desde maio de 2024 eu venho tentando, junto a todos os herdeiros, viabilizar essa compra. Não consegui demover os 25% que não querem vender, e isso é um direito deles. Mas seguimos confiantes — afirma.
A decisão agora está nas mãos do Judiciário, que deverá analisar o pedido dos herdeiros favoráveis à venda e definir os próximos passos do processo.
De acordo com o advogado Gustavo Gazalle, que representa os cinco herdeiros que detêm 75% do teatro, o grupo procurou o Sesc e ofertou o prédio.
— Entendendo que seria um comprador ideal do teatro, porque já são muitos os proprietários, e têm interesse de liquidar esse patrimônio — diz.
Essas negociações evoluíram e resultaram em uma proposta escrita de compra de R$ 25 milhões, ofertada em agosto deste ano.
Gazalle menciona que outros três herdeiros, que detêm 25% do prédio, não aceitaram a proposta, o que deu início ao processo judicial de extinção de condomínio para que a Justiça determine a venda do prédio.
— Se concretizada essa venda, o futuro do teatro estará garantido através de uma instituição que tem um compromisso firme com a cultura e a preservação do patrimônio histórico e cultural — afirma.
O advogado reforça que entrou com um pedido de liminar urgente permitindo que o Sesc deposite os R$ 25 milhões em juízo, o que deve agilizar o processo de venda.
História do Theatro Guarany
Inaugurado em 30 de abril de 1921, o Theatro Guarany nasceu em um dos períodos de maior importância econômica e cultural de Pelotas. A estreia ocorreu com a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, apresentada pela Companhia Lírica Italiana Marranti, em uma noite marcada por luxo e prestígio social.
O teatro surgiu em um contexto em que a cidade se consolidava como o principal polo industrial e charqueador, o que impulsionava a criação de espaços voltados à vida cultural. Desde os primeiros anos, o Guarany tornou-se referência para espetáculos artísticos, encontros sociais e eventos solenes.
Ao longo do século XX, o prédio assumiu diferentes funções. Além das apresentações teatrais e musicais, abrigou sessões de cinema e, entre as décadas de 1960 e 1990, foi palco de bailes carnavalescos que marcaram gerações. Mais recentemente, passou a sediar formaturas, shows e apresentações artísticas, mantendo-se ativo no cotidiano cultural da cidade.











