ARTIGO – UM TROFÉU DE SANGUE

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UM TROFÉU DE SANGUE!
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Santiago de Querétaro, 6 de março de 2022.
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Clayton Rocha
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Eu a conheço de perto depois de inúmeras viagens ao México e até mesmo durante uma copa do Mundo, a de 1986. A capital do Estado de Querétaro de Arteaga, 220 km ao noroeste da Cidade do México, tem um milhão de habitantes e um padrão de vida considerado o mais alto do México e da América Latina. E surpreenda-se agora quanto ao principal traço identificador de seu povo: a baixa criminalidade e a baixa taxa de desemprego!
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Querétaro é considerada uma Miami dentro da América Latina por conta do seu padrão de vida e de seus elevados índices de civilidade. Eu a descobri há mais de trinta anos, graças ao futebol, a uma Copa do Mundo e ao microfone da rádio Gaúcha de Porto Alegre. Encarregado da transmissão do jogo Alemanha 1 x 1 Uruguai naquela quarta-feira, dia 4 de junho de 1986, entusiasmei-me com a história daquele lugar de pedras grandes e de marcantes penhascos que enfeitavam a paisagem mexicana naqueles 1825 metros de altitude em relação ao nível do mar. E apreciei tanto aquele lugar, mas tanto, que Santiago de Querétaro jamais ficou fora de meus roteiros sentimentais mexicanos.
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A cidade que homenageia o Apóstolo Santiago, e que até aqui era um exemplo de ordem e de respeito humano, passou  a ser mostrada ao mundo na tarde deste domingo, 6 de março de 2022, como um endereço de selvageria, de fúrias incontroláveis e de matanças que constrangem o mundo e a própria espécie humana.
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Será que até mesmo os estádios serão considerados a partir de agora verdadeiras praças de guerra na geografia do esporte? Até que estágio a bestialidade humana registrará os seus feitos? no lugar do escore do jogo, optará pelo número de mortos e de feridos? E a quem será oferecido esse “troféu” de sangue? Os torcedores assassinos – eles próprios – será que  pretendem subir ao mais alto do estrado, lá no centro do gramado, para a proclamação da vitória além de uma tocante saudação aos mortos?
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Este é o nosso mundo de hoje, caro leitor? Kiev pode ser, a partir deste instante, o apelido de qualquer endereço do mundo dito civilizado? De minha parte, envolvido pelo espanto e pela incredulidade, na medida em que conheço bem a pacata Querétaro de outros tempos,  peço licença no entardecer deste domingo para guardar comigo um irrespondível e ensanguentado ponto de interrogação. (CR).
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