ARTIGO – UM PELOTENSE AO LADO DE RUI BARBOSA

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A delegação brasileira em Haia. Foto: Acervo HP
Jornalista Henrique Pires.

Um pelotense ao lado de Rui Barbosa

Henrique Pires*

Ao longo desse ano, muito já se falou e ainda ouviremos falar em Rui Barbosa, falecido faz 100 anos.

Criança prodígio, que aos 11 anos de idade aprendera tudo o que os professores da época podiam lhe ensinar,sendo muito jovem para ingressar num curso superior, resolveu estudar o idioma alemão enquanto aguardava a idade certa para ingressar numa faculdade de Direito.

Tendo construído uma trajetória politica extraordinária, sendo dotado de um enciclopédico saber jurídico, dominando vários idiomas, Rui tem sido constantemente lembrado pela gigantesca participação na Conferência de Haia em 1907, quando sua intransigente defesa do respeito às soberanias nacionais e da paz entre as nações fez dele a grande estrela naquela constelação de delegados internacionais que, perplexos, viram – um por um – argumentos imperialistas serem dizimados pela palavra lúcida e precisa daquele eloquente e extraordinariamente culto advogado nascido na Bahia, na época Senador por seu estado natal e vice presidente do Senado Brasileiro.

Ninguém esperava tamanha solidez de argumentos, tamanha capacidade de fazer conexões e comparações com ordenamentos jurídicos de vários países em meio a discursos ou debates. Sem dúvida, foi o ápice de sua carreira.

Na delegação brasileira, organizada pelo Barão do Rio Branco, havia um jovem advogado gaúcho.

O pelotense Antônio Batista Pereira. Foto: Acervo HP.

Nascido em Pelotas em 16 de outubro de 1879, Antônio Batista Pereira (filho de José Batista Pereira e Francisca de Paula Rocha) aos 28 anos foi enviado à Holanda para assessorar Rui Barbosa nos meses em que a conferência perdurasse, este que havia levado a família para residir próximo aos salões da conferência.

Talvez tenha sido lá que Antônio conheceu Maria Adélia (a Dedélia), filha mais velha de Rui Barbosa,com a qual o pelotense mais tarde casou, em 1908 no Rio de Janeiro, na casa da Rua São Clemente 104, onde o Senador e a família residiam naquele tempo.

Morando no Hotel dos Estrangeiros, na Praça José de Alencar, Antônio passou a trabalhar diretamente com o sogro, com o qual foi morar quando todos mudaram para o palacete em Botafogo onde está sediada atualmente a Fundação Casa de Rui Barbosa. O casal, contou dentre os padrinhos de casamento com o Conde Álvares Penteado e o Barão do Rio Branco, e posteriormente teve seis filhos.

Bom escritor e conferencista, Antônio viajou diversas vezes pelo Brasil fazendo palestras e propagando o legado do sogro e amigo, após 1923. Sua biografia ainda precisa ser escrita, ele que teve intensa produção intelectual até o seu falecimento em São Paulo (em 1960), onde residia.

Pessoalmente, gostaria que algum familiar ainda residente em Pelotas ajudasse a contar a história desse gaúcho que assessorou aquele ilustre baiano e participou ativamente da mítica Conferência de Haia.

*Jornalista

DO JORNAL: O ESTADO DE SÃO PAULO