ARTIGO – SIDNEY POITIER: MAIS DO QUE UMA LENDA!

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Sidney Poitier, primeiro ator negro a ganhar Oscar, morre aos 94 anos | Agência Brasil

Sidney Poitier: mais do que uma lenda!

Sadi Sapper*

Todos os dias, pelo mundo afora, nascem e morrem pessoas. Mas não é todo o dia que morre alguém como o ator norte-americano Sidney Poitier. Trata-se do maior ator negro da história do cinema. Na semana passada, aos 94 anos, nas Bahamas, onde morava nas últimas décadas, Poitier nos deixou. E ao deixar-nos, vai ficar conosco para sempre, pois assim são as lendas. Poitier talvez tenha sido mesmo mais do que uma lenda: às vezes, parte das lendas são inventadas, são reescritas, são aumentadas, mas no caso da vida e do legado de Sidney Poitier tudo é real e concreto, sua vida e sua obra tornaram-se maiores do que a maior das lendas, não precisa inventar nem aumentar nada.

Foi o primeiro negro a ganhar um Oscar de Melhor Ator. Convenhamos, em 1964 isso foi uma façanha, ainda mais tratando -se de sua interpretação em um filme quase comum, rodado em 1963. “Uma voz nas sombras”, em preto e branco, conta a história de um preto desempregado, uma espécie de faz-tudo que erra uma estrada e chega, por acaso, a um convento de freiras alemãs, no meio -oeste. Ele vai ficar ali parte de um dia, talvez uma noite. Fica outro dia, uma semana, um mês, outro mês… Poitier torna o filme, que seria comum, numa narrativa densa, interessante, cheia de descobertas. O Oscar foi mais do que merecido. O mundo começava a ver que ali, naquele crioulo simpático, esguio e elegante em seu quase um metro e noventa de altura, além de um notável ator, estava um cidadão diferenciado, alguém de personalidade e que estava chegando para fazer história.

Depois, vieram outros filmes notáveis, como “No calor da noite”, “Ao mestre com carinho” e “Adivinhe quem vem para jantar”, todos eles com papéis difíceis e marcantes, sobre temas polêmicos. O primeiro filme que assisti dele foi, curiosamente, um ótimo farwest feito em 1966, também com James Garner, chamado Duelo em Diablo Canyon. Eu o assisti com meus primos no verão de 1967, no então Cine Cacique, na frente da praça da Alfândega, em Porto Alegre e, do alto dos meus 12 anos, em meio a uma briga entre índios apaches e homens brancos, não imaginava que no Velho Oeste pudessem já haver homens pretos a serviço do bem e da justiça. “No calor da noite” é um outro filme extraordinário em que Poitier representa Virgil, um policial preso por engano em uma cidade do Mississipi e que ajuda a obtusa polícia local a desvendar um crime. Rod Steiger, o policial teimoso do filme, ganhou em 67 o Oscar de melhor ator, mas ninguém ignora que foi o desempenho notável de Poitier que valorizou a película.

Para muitos, a data de 28 de agosto de 1963 talvez não diga nada. Foi o dia da Grande Marcha sobre Whashington, liderada por Martin Luther King e que reuniu centenas de milhares de pessoas, pretos e brancos. Os ânimos estavam muito exaltados. “I have a dream..” eu tenho um sonho… assim começava um dos mais famosos discursos da história da humanidade, clamando por igualdade nos direitos civis. Quem estava ao lado de Luther King naquele dia? Discreto, apesar de seu quase um metro e noventa, lá estava Poitier! Os ânimos seguiram exaltados naquele verão seco e quente de agosto. Três meses depois, em Dallas, o presidente John Kennedy seria assassinado. Cinco anos depois, seria a vez de Luther King, em Memphis. Mas a Marcha de Washington, por trabalho e liberdade, não foi em vão e já em 1964, no Governo de Lindon Johnson, era aprovada pelo Congresso a Lei dos Direitos Civis. Na segunda fila, no dia da assinatura, discreto como sempre e com o sorriso que só os homens bons e puros conseguem ter, ali estava Sidney Poitier…

Talvez a palavra dignidade seja a expressão que melhorar defina a vida e a obra de Poitier. Uma vida inteira de coerência em que optou por usar o exemplo de seu ativismo sem rancores para tornar o mundo melhor e mais justo. No ano de 2009, o ator, escritor e diplomata Sidney Poitier recebeu das mãos do presidente Barack Obama a Medalha da Liberdade, maior honraria concedida a um civil nos Estados Unidos. Poitier já tinha mais de 80 anos e foi um dos raros casos de aprovação unânime na opinião pública pela concessão da honraria.

João Guimarães Rosa escreveu que as pessoas não morrem, ficam encantadas. Morrem apenas para mostrar que viveram. Poitier agora está nesse nicho das pessoas encantadas.
Todos os dias nascem e morrem pessoas. Mas algumas podiam voltar sempre ou ficar mais um pouco conosco. Sidney Poitier ficou encantado e deixou para nós o que tinha de melhor: sua vida, seu talento, seu exemplo, seu engajamento, sua coragem, sua dignidade. Deixou o que tinha e tudo o que deixou é lindo, edificante e bom!

*Jornalista