ARTIGO – POR DIREITO DE PRECEDÊNCIA

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POR DIREITO DE PRECEDÊNCIA 

Carlos Alberto Gomes Chiarelli

Matteo Rota Chiarelli

O “TREZE” LEGÍTIMO É O NOSSO

(TREZE: POR 41 ANOS, O NÚMERO DA PERSISTÊNCIA)

Era eu um guri, quando – confesso – não soube que estava surgindo uma voz nova na cidade. Pouco tempo depois – não sei quando –, lembro-me de ter acompanhado meu pai, que iria dar mais uma entrevista num programa radiofônico. Como tantas vezes fiz, assumi o papel de “carona” e fui testemunha ocular da História, como dizia, à época, com voz empostada, Heron Domingues, o famoso “Repórter Esso”.

Tive sempre um misto de interesse e curiosidade por tudo que dissesse respeito às ações que visassem à coletividade. Interessava-me mais o que fosse resposta (estímulo mesmo) à demanda de um grupo (pelo menos) ou da sociedade (como um todo).

Era essa a minha diretriz de vida. E continua a ser. Nunca procurei – faltou-me tempo para fazer a escavação da memória – disciplinadamente, chegar ao DNA das minhas perguntas e respostas. Rejeições e preferências. Olhando-me no espelho das lembranças, fiz a descoberta elementar: (ou apenas uma compreensível desconfiança minha?) não sei desde quando, não sei quanto, mas sei que boa parte da modelagem remonta ao meu pai, à família, enfim.

Mas voltemos ao programa radiofônico. Era o óbvio. Estamos a lembrar do Treze, que teve algumas mudanças de superfície, mas continua fiel a si mesmo. Compreendendo algumas, ou não as compreendendo, o “13” preservou sua identidade.

Por mimetismo natural, sem esforço, o Treze é o Treze. O Treze é Pelotas. Confirmando um sadio preservar histórico, permanece sempre Treze. É a sua hora de encontro “o meio-dia que vira dia-e-meio”, lembrando a mesa larga, farta e disponível de um “primo piato” de princípios debatidos e um “minestrone” de conceitos que parecem (e são) anarquicamente democráticos. Quarenta anos com similares badaladas inauditas – ouvidas, sem ser sonoras –, que fazem a convocação para que os pelotenses (que são muitos) e os para-pelotenses (que são tantos) se chegassem – e se cheguem – ao “fogo de chão diário de verdades”.

A esperá-los, para perguntar e responder, o “PAJÉ”, que nunca quis ser “CACIQUE”, preferindo a indagação, para melhor saber, à sentença precipitada que antecede o processo; a magia do indubitável à intrincada exploração da dúvida; enfim, a Verdade, mesmo ácida, à Mentira, ainda que sedutora.

Nunca esqueci de entrevistas – maia que isso: depoimentos – que ficaram no arquivo vivo, mas inatingível, dos episódios que demarcam fronteiras da Vida; que não se escrevem, mas que se editam, terminativas, com atos e fatos. São registros com direito à certidões confirmatórias. Capítulos que se pode ler, no idioma das lembranças, sem estarem escritos.

No Treze, acabei fazendo a pós-graduação de entrevistar e do ser entrevistado. Quantas vezes recebi a pergunta, lançada com a precisão e a justeza suíça de um Patek Philippe, exigindo a resposta que se fizesse com um composto de malícia – no limite do suportável –, inteligência – na dosagem máxima possível – e segurança de conteúdo, que não tire a valiosa utilização da primeira nem retire a substância da segunda.

Vi, também, florescer no pós-programa, participando, por ocupar vaga hereditária, a notícia que estava amadurecendo: a pré-noticia. Vi como se tratava, com responsabilidade, usando a vacina do anti-sensacionalismo, o que não cabia ainda popularizar, mas na sensível vocação do jornalismo, já era valiosa peça que passava pelos rigores do vestibular da credibilidade, na rotina consagrada do fazer saber prévio a quem vai, por dever, saber fazer. Tarefa que ficava sob o inspirado e quase abstrato sentimento de decisão do PAJÉ.

Vi, mais de uma vez, crescer, no empolgar-se consciente de sua responsabilidade, em momento renovado, o Homem 13.

Ali, ele renascia a cada vez que se exigisse competência e ousadia. Incorporou causas no antes; continua a incorporá-las no hoje e, seguramente, o mesmo fará no amanhã, porque seu tempo tem o milagre da retroatividade que coordena a mocidade interminável de um inconfundível Peter Pan do rádio.

Esse senhor, que é pajé, por sua mística batalha pela eterna juventude, que persegue renovada, correu o mundo – e o Treze com ele; acessório e principal, a um tempo só – para contar de Pelotas; mas também não respeitou aramado fronteiriço que quisesse impedi-lo de nos contar do Mundo, que sua ousadia fez pequeno.

Nós o ouvimos, em Lisboa, onde praticamente “tuteou” – Mário, o multipresidente Mário Soares, figura mais ilustre de Portugal além-fronteiras. Dos Papas, em Roma ou “fuori murí”, recebia saudações particulares. Mas não se limitou ao Ocidente. Seguindo as trilhas de Marco Polo, foi investigar a Ásia, de Macau a Hong Kong.

Isso tudo sem esquecer a eleição doméstica, que passa pela discussão no balcão do Aquários; a possibilidade emocionante de um futuro Bra-Pel e a duplicação – que nos estão devendo – da Pelotas/Porto Alegre. Ele sabe que razão tinha o admirável jurista uruguaio Eduardo Couture ao dizer: “o mundo é interminável por que tem a dimensão, que se mede, pelo palmo de terra da nossa origem e, talvez de nosso destino”.

Várias vezes esteve nosso PAJÉ a ponto de assumir a cadeira, há tanto tempo a sua espera, na Assembleia Gaúcha ou no Parlamento Nacional.

Tenso pela dúvida, viu prevalecer – Guerreiro do Jornalismo – o que aprendera, na escola da vida; que a carreira política, certamente, viria a criar inevitáveis vínculos que retirariam o seu direito de opinião descomprometida.

Seriam posições e valores, frutos do compromisso grupal e partidário, que aprisionariam o condor de voo largo e livre à gaiola dourada da limitação.

Por isso preferiu, por um tempo que se conta no “al di là” das décadas, a arte de ser porta-voz de todos a ser representante de alguns.

Eis uma síntese, metida à biográfica – melhor diria, uma manchete – com a imparcialidade amiga e franca, de uma admirável figura pública: Clayton Rocha e de sua obra maior, o “13 horas”.

Ou, quem sabe (?), ao contrário, uma estória de admiração – quase uma epopeia, do “Treze Horas” – e do seu Autor e Ator principal, Clayton Rocha.

Carlos Alberto Gomes Chiarelli

Matteo Rota Chiarelli